10 pontos sobre a integração entre produção agrícola e conservação

Rui Rezende, para a TNC
Área de plantio de grãos adjacente a um remanescente de vegetação nativa no município de Lucas do Rio Verde, Mato Grosso
É possível conciliar produção com questões ambientais na propriedade rural brasileira? Como a agricultura usa os recursos naturais e o que é possível fazer para diminuir sua degradação? Conheça evidências sobre o tema

Atualmente todos já estão conscientes que não existe uma dicotomia entre produção e conservação. A agricultura é historicamente uma atividade econômica central da matriz produtiva no Brasil e está presente em uma fatia significativa do território nacional - de acordo com o MapBiomas, 31% das terras do Brasil têm uso agropecuário. Essa quantificação feita para o ano de 2019 mostra que 167 milhões de hectares são pastagens plantadas e 96 milhões de hectares são outros cultivos (62 milhões de hectares de cultivos anuais e 34 milhões de hectares de cultivos perenes). No período de análise do MapBiomas (1985-2019), a área agropecuária aumentou 46%, ou 1,4% ao ano em média – o que representou uma redução proporcional da vegetação nativa associada a essa expansão.

Mesmo considerando esse cenário, é fato que temos todas as condições possíveis para que a produção agrícola ande de mãos dadas com a conservação dos recursos naturais, mantendo sua capacidade produtiva e de produção de alimentos, ao mesmo tempo em que conservamos a vegetação nativa e seu importante papel em prover serviços ecossistêmicos e mitigação das mudanças climáticas.

Mas como? A seguir, selecionamos dez perguntas que a ciência já respondeu para trazer argumentos técnicos sobre alguns pontos relevantes dessa discussão.

1. Como a agricultura influencia o uso da terra?

A Amazônia, apesar de ter proporcionalmente a menor área de agropecuária, é a região de maior conversão de áreas naturais em áreas agrícolas, tendo mais que triplicado a área de agropecuária no período de 1985 a 2020, passando de 16,5 milhões de hectares para 63 milhões de hectares. O Cerrado é a segunda maior frente de expansão, tendo perdido 28,5 milhões de hectares de vegetação nativa no mesmo período, sendo o bioma com maior área absoluta de agropecuária (90 milhões de hectares). Importante ressaltar que a área de agropecuária cresceu em todos os biomas brasileiros no período considerado.

O uso da terra é um dos principais fatores relacionados à conservação – e degradação – da biodiversidade, dos recursos hídricos e do solo - indispensáveis à produção agrícola. Este setor possui elevada dependência do insumo água, por exemplo, sendo o principal grande usuário dos recursos hídricos no país. Em 2019, o consumo total de água teve como principal destino o setor agrícola, que absorveu 66,1% da água consumida neste ano, e o setor de dessedentação animal com 11,6%, totalizando 77,7% do consumo total 1.

2. Como é a dinâmica de uso da terra no Brasil?

Há diferentes dinâmicas de uso da terra no Brasil. De modo geral podemos separar duas formas de mudanças, uma relacionada à conversão das áreas naturais em áreas agropecuárias e outra associada a mudanças de uso dentro dos tipos de uso agropecuário ou seu abandono. Em termos de dinâmica de usos, as mudanças mais evidentes são a transformação das áreas naturais em pastagem plantadas e, posteriormente, em outros cultivos, sendo muito pouco frequente o caminho inverso.

Com 167 milhões de hectares, as pastagens plantadas são o uso do solo com maior área no Brasil. Uma análise de qualidade dessas pastagens elaborada pelo MapBiomas indica que, em 2018, 40% dessas pastagens estariam em bom estado, sem indícios de degradação, e 27% estariam com elevado grau de degradação. A identificação da degradação é determinada por meio de sensoriamento remoto, observando o vigor das pastagens ao longo do tempo. Pastagens degradadas tendem a suportar menos cabeças de gado, produzindo menos por área - situação que tende a piorar se mantido o manejo inadequado.

3. Qual a previsão de crescimento da agricultura nos próximos anos?

A soja é a cultura que mais cresceu em área no Brasil. Em 2000 a área mapeada de soja era de 10,5 milhões de hectares e em 2019 chegou a mais de 36 milhões de hectares. A maior expansão deu-se no Cerrado (12,5 milhões de hectares). A soja na Amazônia teve o maior crescimento proporcional, saindo de 0,2 milhões de hectares para 4,8 milhões de hectares, com novas frentes surgindo no Amapá e Roraima.

A Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) prevê um aumento na área agrícola nos próximos dez anos. Ao mesmo tempo, precisamos manter a vegetação nativa em pé para mitigar os efeitos das mudanças climáticas, reduzir as nossas emissões associadas ao desmatamento, e cumprir acordos internacionais ratificados pelo Brasil – além, é claro, dos benefícios oferecidos pela vegetação nativa, como fonte de recursos, serviços como polinização, regulação do clima e do regime de chuvas, dentre outros.

Como acomodar o aumento da demanda de produção agrícola com a manutenção (e restauração) da vegetação nativa? A resposta está em otimizar o uso do solo! Recuperar pastagens degradadas, reduzir o gap de produtividade em áreas cultivadas e integrar diferentes culturas numa mesma área são estratégias fundamentais.

4. E as boas práticas agrícolas?

A agricultura brasileira é uma referência mundial na adoção de boas práticas agrícolas como o plantio direto, que prevê o não revolvimento do solo, o uso de culturas de cobertura e a sucessão de culturas agrícolas. Ainda assim, não é incomum encontrarmos situações em campo em que essas práticas podem ser aprimoradas, combinando também com práticas de conservação do solo como terraceamento e barraginhas – o que melhora sua qualidade para a produção e também para a conservação dos recursos hídricos. Essas práticas têm um efeito direto não apenas na produtividade agrícola, como é usualmente mensurada, mas também na conservação dos recursos naturais e na disponibilidade hídrica – tanto na escala do imóvel rural quanto na escala da paisagem.

5. Existe um risco de redução da disponibilidade hídrica nas áreas agrícolas?

Tudo indica que sim. No caso da infiltração, nas áreas com vegetação nativa o movimento de água através das camadas do solo é maior do que nas áreas agrícolas 2, porque as diferentes raízes das diferentes espécies aumentam a porosidade do solo (efeito esponja), o que não acontece nas áreas de pasto e agrícolas. Já na interceptação, quando uma chuva intensa cai sobre as culturas, ela satura rapidamente a camada superficial do solo, o que pode levar ao escoamento superficial, dando origem a inundações em terras baixas. Por fim, deve-se considerar a evapotranspiração, que se refere ao balanço hídrico e perda de água. A vegetação nativa tem estratégias para evitar essa perda em períodos de seca, o que não acontece nas áreas de irrigação, onde a água retirada do aquífero vai para a atmosfera.

Práticas de manejo muito conhecidas podem reduzir esses efeitos, como a rotação de culturas agrícolas, que tem efeitos positivos sobre a biodiversidade do solo (melhorando sua saúde), mas também sobre a sua capacidade de infiltrar e reter água.

6. Qual a dependência da atividade agrícola do uso da água da chuva e da irrigação?

É importante diferenciar a agricultura de sequeiro, que depende do volume de água da chuva e do solo (“água verde”), da agricultura irrigada, que ocorre a partir de sistema de captação em corpos hídricos superficiais e subterrâneos (“água azul”). Hoje, a agricultura de sequeiro é o sistema mais comum, e apenas 7,5% da área agrícola utilizam irrigação 1. Embora a participação do uso da água por irrigação seja pequena relativamente ao volume da agricultura de sequeiro, a água captada para irrigação representa uma parcela importante da demanda total de água no país, utilizando um volume maior do que o consumo humano e industrial. Ao mesmo tempo, o setor agrícola tem uma baixa participação na arrecadação da cobrança pelo uso da água, que em 2018 representou apenas 5% do valor total arrecadado – o que limita a arrecadação de recursos para realização de programas e projetos nas bacias hidrográficas visando a recuperação e preservação das águas.

Assim, independentemente do modelo, a agricultura tem uma forte dependência da água. Na escala do imóvel rural, é fundamental prever quais culturas agrícolas podem ser produzidas numa região, considerando as condições climáticas e disponibilidade hídrica – o Zoneamento Agrícola de Risco Climático, produzido pela Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), é fundamental para o planejamento da produção no país. O aplicativo Plantio Certo pode ser utilizado pelos produtores como ferramenta para entender qual é a melhor opção de produção agrícola de cada região.

7. A área da agricultura irrigada no Brasil vem aumentando – isso é um problema?

Além de representar uma parcela significativa do volume total da água consumida no país, observamos nos últimos anos uma expansão da agricultura irrigada em períodos de seca, suplementando a falta de chuvas, e em regiões de baixo índice pluviométrico, como no Semiárido e na região central do Brasil. As áreas irrigáveis tiveram um forte crescimento nas últimas décadas, que se acelerou ainda mais a partir de 2010 3. Se em 1985 a irrigação ocorria em uma área de 31 mil hectares, em 2017 essa área aumentou 47 vezes, para 1,48 milhões de hectares! Atualmente, os pivôs centrais estão concentrados em dois biomas, Mata Atlântica e Cerrado, respectivamente com 11,5% e 78,0% da área total de pivôs centrais.

A expansão da agricultura irrigada para suplementar a falta de chuvas demonstra o aumento da dependência do setor pela disponibilidade hídrica, num cenário cada vez mais acentuado de mudanças nos regimes de chuvas. Isto só reforça a importância de implementar práticas agrícolas que melhorem a conservação hídrica no imóvel rural, associadas à adequação ambiental e a um planejamento da expansão da produção agrícola que considere não apenas o cenário econômico.

8. Qual o papel da conservação dos recursos naturais nas áreas agrícolas neste contexto?

A legislação ambiental brasileira prevê a manutenção de áreas de vegetação nativa no topo de morros, ao longo de nascentes e corpos hídricos (as Áreas de Preservação Permanentes – APPs), e também em uma porção de todos os imóveis rurais (Reserva Legal), com o objetivo de produzir de forma sustentável e também proteger e garantir a manutenção de recursos hídricos, biodiversidade, manutenção do clima, dentre outros. Vale relembrar também que a restauração da vegetação nativa no Brasil é política pública: o Brasil se comprometeu em restaurar 12 milhões de hectares até 2030. Implementar essas áreas é de interesse de todos para que se garanta segurança hídrica, a conservação da biodiversidade, a segurança alimentar e a produção agrícola.

A manutenção das áreas de vegetação nativa também desempenha um papel crucial na disponibilidade hídrica no imóvel rural. Restaurar as áreas de preservação permanente que estejam degradadas (adequação ambiental) é uma ação fundamental para segurança hídrica, especialmente no entorno de nascentes e pequenos cursos d’água, que são mais sensíveis às mudanças de uso do solo e têm papel fundamental na oferta hídrica.

9. Restaurar a vegetação nativa: sabemos como fazer?

pelo menos quatro décadas existem estudos sistemáticos sobre como restaurar a vegetação nativa, quais métodos e custos da restauração, combinação de espécies, maquinário apropriado, dentre outros.

É muito importante destacar que não há receita de bolo: o que funciona para um imóvel rural na Amazônia pode não funcionar para um imóvel rural na Caatinga. Observar a realidade local é fundamental. Outro cuidado é em restaurar a vegetação nativa original daquele território: se o imóvel rural está localizado numa área de Cerrado, são inúmeros os problemas em utilizar espécies da Mata Atlântica, por exemplo, além de reduzir as chances de sucesso (ou seja, desperdiçar o investimento). Métodos como semeadura direta e plantio de mudas podem ser utilizados, além da regeneração natural, que possui menor custo e grande potencial para aproveitar o banco genético de cada local. Adicionalmente, manejar fragmentos florestais que se encontram degradados tem um papel importante na manutenção da biodiversidade na paisagem, já que esses fragmentos podem se encontrar em um estágio tal de degradação que têm capacidade reduzida em cumprir o seu papel de conservação.

10. Onde buscar informações sobre a restauração da vegetação nativa?

Existe uma vasta literatura e rede de técnicos que podem apoiar os produtores rurais na restauração das suas áreas degradadas. Existem redes para restauração nos biomas, onde uma série de instituições se organizam para fomentar e apoiar produtores, empresas e governos em implementar a restauração na ponta (conheça as redes para a Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica e Pampa). A restauração da vegetação nativa é de interesse de todos, por isso essa articulação entre os diferentes setores para que as áreas sejam restauradas de fato é fundamental para que consigamos alcançar nossas metas e compromissos, mitigar efeitos das mudanças climáticas e desfrutar dos benefícios oferecidos pelos recursos naturais!

BIBLIOGRAFIA

Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico - ANA. Conjuntura dos recursos hídricos no Brasil 2020: informe anual/Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico. Brasília: ANA, 2020.

Agência Nacional de Águas - ANA. Levantamento da agricultura irrigada por pivôs centrais no Brasil/Agência Nacional de Águas, Embrapa Milho e Sorgo. - 2. ed. - Brasília: ANA, 2019.

Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico - ANA. Conjuntura dos recursos hídricos no Brasil 2020: informe anual/Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico. Brasília: ANA, 2020.

Lozano-Baez et al. Assessing Water Infiltration and Soil Water Repellency in Brazilian Atlantic Forest Soils. Applied Sciences. 2020, 10, 1950; doi:10.3390/app10061950

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