Os determinantes sociais da saúde, em 5 pontos

Charles Platieu
Casal de idosos passeia em parque próximo a jovens
Quanto maior o nível de educação de um indivíduo, mais saudável ele é. Veja como evidências explicam questões da saúde humana

Quais são os principais fatores que impactam as desigualdades na saúde, as expectativas de vida e que podem tornar as pessoas mais vulneráveis a problemas de saúde? Algumas dessas variáveis, como saúde, renda e privações ou traumas na primeira infância, podem ter maior influência na saúde populacional do que os próprios tratamentos médicos. A primeira infância — muitas vezes ignorada como fator atuante em longo prazo — e a conclusão do ciclo educacional têm repercussões significativas durante a vida adulta, podem influir em processos de saúde mental e moldar comportamentos. Os conhecimentos acerca dessas variáveis representam uma nova forma de pensar políticas públicas para a universalização da saúde e ampliação da expectativa de vida.

1. Quanto maior o nível de educação de um indivíduo, mais saudável ele é?

Uma ampla literatura vem documentando as diferenças de saúde por nível de educação, que vêm aumentando ao longo do tempo. Se em 1993 os homens americanos que não terminaram o ensino médio tinham 2,5 vezes mais chances de morrer prematuramente que aqueles que terminaram a faculdade, em 2007 essa diferença subiu para 3,6 vezes1. As diferenças de expectativa de vida entre aqueles que não terminaram o ensino médio e aqueles que fizeram algum programa avançado são de cerca de 12 anos2. Estudar mais tem um efeito maior para a saúde que praticamente qualquer intervenção médica3. O efeito da universalização da educação sobre a saúde — aqui entendida como garantir que todos completem o ensino médio — poderia impedir 240 mil mortes anuais nos Estados Unidos, um efeito maior do que o advindo da eventual eliminação de todos os casos de homicídios, mortes no trânsito e diabetes juntos4.

2. Em um mesmo município de um país desenvolvido, os resultados de saúde podem ser extremamente desiguais?

Em Washington DC, as estações de metrô de East Falls Church e Metro Center ficam nove paradas uma da outra. No entanto, os moradores de East Falls Church vivem 8 anos a mais que aqueles que vivem próximos à estação Metro Center5. Na Filadélfia, existem diferenças de 20 anos de expectativa de vida entre os dois bairros6. Essas desigualdades de resultados de saúde estão fortemente associadas à renda. Nos Estados Unidos, mulheres que estão no 1% mais rico da população vivem em média 10,1 anos a mais que as mulheres que estão no 1% mais pobre. Entre os homens, essa diferença chega a 14 anos de expectativa de vida7.

3. Pessoas casadas costumam ter menos episódios de saúde e viver mais?

Um estudo da população americana identificou que as pessoas que nunca se casaram tendem a viver menos, em particular devido a maior incidência de HIV e episódios de causas externas, como violência e acidentes de trânsito8. Um outro estudo9 identificou que homens solteiros tinham uma chance 169% maior de morrerem por doenças cardiovasculares.

4. A primeira infância é crucial para a saúde durante a vida adulta?

Uma extensa literatura documenta como as experiências da primeira infância são críticas para a saúde ao longo da vida adulta. Experiências traumáticas, como abuso físico e psicológico, por exemplo, influenciam a saúde no longo prazo. Adultos que tiveram quatro ou mais experiências traumáticas durante a primeira infância têm mais chances de engajar-se em comportamentos deletérios para a saúde, como fumar, beber e utilizar drogas ilícitas. Os resultados de saúde dos adultos que sofreram experiências traumáticas também tendem a ser piores: eles tendem a sofrer com maior incidência de problemas de saúde mental, engajar-se em comportamentos sexuais arriscados, e apresentam mais riscos de cometer violência sexual10.

5. Políticas públicas para a primeira infância são fundamentais para a saúde ao longo de todo o ciclo da vida?

Um estudo de James Heckman e coautores investigou o impacto de uma intervenção de pré-escola (Perry Preschool) na vida dos participantes aos 55 anos. O estudo identificou que os participantes do programa tinham menos probabilidade de ter colesterol alto, diabetes, altos índices de cortisona (indicativo de estresse de longo prazo) e de estar sem seguro de saúde, além dos efeitos benéficos da política sobre educação, renda e risco de engajar-se em atividades criminais11.

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