Os cuidados na primeira infância, em 7 pontos

Da Redação
Kim Love
Bebê engatinha na grama
Os primeiros anos são fundamentais para o desenvolvimento da criança. Pesquisas explicam a importância de cuidados nessa fase

A primeira infância é a fase que vai do nascimento até os 6 anos de idade, com importância e características próprias reconhecidas por diversas áreas da ciência. A primeira infância engloba ainda a chamada primeiríssima infância (do nascimento aos 3 anos), que, segundo descobertas da neurociência, é uma das fases mais relevantes para o desenvolvimento cerebral, quando a janela de oportunidade de desenvolvimento é maior.

1. Os cuidados físicos com a criança são mais importantes que brincar e dar carinho?

Estudos sobre percepções e práticas sociais em relação à primeira infância mostram que a sociedade entende que ações como levar ao pediatra regularmente e aplicar as vacinas recomendadas são relevantes para o desenvolvimento da criança de até 3 anos. Porém, carinho, estímulo e afeto também devem ser tratados com a mesma importância. O desenvolvimento infantil deve ser pensado e tratado da perspectiva do desenvolvimento pleno, que entrelaça os desenvolvimentos físico, emocional, social e cognitivo. Estudos mostram que intervenções na primeira infância podem ter efeitos sobre a capacidade intelectual, a personalidade e o comportamento social futuros.

2. A licença-paternidade é importante para a criança?

Ao contrário do que muitos pensam, a licença-paternidade não é algo desnecessário só porque não é o pai quem amamenta o bebê. Pelo contrário. Diversos estudos já comprovaram os benefícios da licença-paternidade para o desenvolvimento da criança.

Pesquisas indicam que o envolvimento dos pais no cuidado com os filhos afeta as crianças de muitas formas. Entre os ganhos observados há maior desenvolvimento cognitivo, melhor desempenho escolar e menores taxas de infrações. O efeito positivo da licença-paternidade se reflete também na amamentação. Crianças de pais que usaram a licença-paternidade têm mais probabilidade de serem amamentadas no primeiro ano em comparação a filhos de pais que não utilizaram a licença.

3. Como ambientes desprotegidos, falta de saneamento básico, negligência nos cuidados na primeira infância afetam o desenvolvimento pleno da criança?

Crianças que crescem nesses ambientes estão continuamente lidando com adversidades fisiológicas e emocionais que podem gerar efeitos de longa duração sobre sua saúde e seu desenvolvimento. Desde o início da gestação e durante toda a infância, o meio onde a criança está inserida tem grande influência em seu desenvolvimento cognitivo, social e emocional. O aprendizado na primeira infância acontece nos mais diversos contextos e espaços, como em casa, na escola, no parque, na comunidade — ou seja, em todo lugar, por isso é importante a qualidade dos ambientes. Estudos mostram a importância dos primeiros anos de vida, por exemplo, na capacidade de aprendizagem, demonstrando que o que se vive na primeira infância tem impacto durante a vida toda. A responsabilidade pelo desenvolvimento da criança costuma recair apenas sobre a família. É importante reconhecer o papel de todos no desenvolvimento infantil, inclusive do Estado e da sociedade, para garantir condições adequadas ao desenvolvimento das crianças.

4. Quando a criança começa a aprender?

A aprendizagem tem início antes mesmo do nascimento. Estudos1 comprovam que o bebê começa a aprender ainda no útero da mãe. Atividades como andar, correr, falar, entre outras, também fazem parte do aprendizado cognitivo. Crianças com bom vocabulário aos 2 anos de idade chegam ao jardim de infância mais bem preparadas. A criança aprende por meio da interação e de relacionamentos significativos, nos quais há afeto e estabelecimento de vínculo, como com outra criança ou com outro adulto. A leitura, por exemplo, além de auxiliar o processo de aquisição de linguagem, ampliando a capacidade linguística do bebê, amplia o vínculo afetivo entre pais e filhos, fortalecendo a estrutura psíquica e emocional da criança, importante para que ela se sinta segura ao construir seu caminho de autonomia e de relacionamento social.

5. Por que a criança precisa fazer explorações (de lugares e de objetos)?

A promoção de ambientes familiares e escolares focados na criança como ser ativo é importante e necessária. Tais espaços devem oferecer à criança segurança para que não haja riscos de acidente e para que ela se sinta à vontade para explorar o espaço com liberdade. Além disso, devem ser proporcionadas situações em que a criança possa explorar, brincar e adquirir gradativa autonomia e responsabilidade por suas ações, desde os primeiros meses de vida. Durante o brincar, a criança adquire habilidades para se tornar capaz de aprender a aprender, seja por meio de suas ações sobre os objetos e pessoas, seja por suas reações a esses estímulos. Ou seja, ela é ativa em seu desenvolvimento. O aprendizado ocorre em todos os lugares. Atividades como andar, correr, falar, entre outras, fazem parte do desenvolvimento cognitivo. Há estudos2 que mostram como bebês desvendam o mundo por meio de experimentos e formação de teorias intuitivas.

6. A criança precisa de muitos brinquedos para se desenvolver?

O consumismo é característica marcante da sociedade atual. Nem as crianças são poupadas. As relações afetivas estão sendo mediadas por bens materiais. Além disso, as crianças são bombardeadas a todo momento pelo mercado publicitário, que prega a elas a necessidade de brinquedos para se divertir e aprender. Ter não é mais importante que ser. Essa ideia é fundamental para a criança, que está constituindo a própria personalidade. A falta de limite no consumo pode provocar ansiedade, pois passa o entendimento de que a vida só é boa quando se consegue algo material.

7. Todas as crianças precisam interagir com adultos?

Nenhuma criança pode ser privada do convívio próximo com um adulto. Crianças com qualquer tipo de deficiência ou que estejam em abrigos, em situação de rua ou mesmo hospitalizadas também precisam de interação com os adultos.

Estudos científicos mostram a importância da interação das crianças com eles. Em 2000, por exemplo, um grupo de especialistas realizou, em Bucareste, na Romênia, um estudo para determinar os efeitos de viver em uma instituição estatal sobre o cérebro e o comportamento das crianças. Pela primeira vez no mundo, um estudo comparou o bem-estar físico e emocional de crianças em instituições estatais e de crianças em lares adotivos. A diferença entre a primeira infância vivida em uma instituição e aquela vivida em um lar adotivo foi enorme. O estudo constatou que as crianças que viveram os dois primeiros anos em instituições tinham Q.I. mais baixo e atividade cerebral enfraquecida em comparação com crianças adotadas ou com aquelas que nunca viveram nessas instituições.

Bibliografia

Baseado em: Guia Primeira Infância em Pauta. Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal. 2017. Disponível aqui.

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