5 pontos sobre diversidade na produção científica

Anna M. Canavarro Benite

Ciência ensinada nas escolas e universidades brasileiras é pouco diversa. Inclusão de outros grupos sociais na produção de conhecimento pode trazer inovação

Existem diferentes maneiras de se fazer leituras de realidade. O conhecimento científico é uma delas. Não há como apontar qual recorte de realidade teria maior importância, mas a ciência segue sendo uma perspectiva hegemônica.

A ciência moderna e recente, da maneira como nós a conhecemos, interdita produções de seus predecessores e estabelece uma estrutura calcada na centralidade da produção de conhecimento que o hierarquiza e imprime uma relação racista no próprio estabelecimento de seu corpus. Os corpus de conhecimentos produzem símbolos específicos, com significações diferentes para cada grupo social. Destaco a diversidade de significações construídas pelo conhecimento científico, pelo conhecimento tradicional e pelo conhecimento religioso.

A marca do conhecimento científico é ser um conhecimento simbólico por natureza, como todas as matrizes de pensamento, mas esta marca é socialmente negociável. Não por acaso, o conhecimento produzido e ensinado dentro das instituições escolares no nosso país é um conhecimento branco, eurocêntrico, hegemônico, produzido principalmente por homens. E, ainda, é um conhecimento entendido como universal e verdadeiro: “a” verdade absoluta.

1. Em que contexto se produz conhecimento científico?

A lógica de produção da ciência no nosso país é baseada na meritocracia — o mesmo argumento que tenta desqualificar as presenças negras e as de mulheres em espaços como a academia. Essa lógica que tenta desqualificar as nossas presenças nesses espaços não se sustenta mais no argumento político de produtividade. Ela está baseada na competência, na temperança e na competitividade. Mas é a lógica de uma ciência que não dialoga com quem nós somos: um país de maioria declarada negra.

A academia segue propagando alguns mitos raciológicos e apagando a história do povo africano e da diáspora. Cito um excerto da entrevista de James Watson, prêmio Nobel de Medicina, ao jornal britânico The Sunday Times, em outubro de 2007: “Todas as nossas políticas sociais são baseadas no fato de que a inteligência dos negros é igual à nossa, apesar de todos os testes dizerem que não”. Isso foi veiculado em discursos acadêmicos dos séculos 19 e 20.

Existe outra maneira de produzir ciência? Sim, existe. Uma dessas maneiras é aprendendo com nossos ancestrais e com o que a resistência epistemológica no nosso país tem feito: uma ciência que se coloque pertencente à natureza, e não exploradora da natureza.

2. Quem produz o conhecimento científico?

No Brasil, 96% do conhecimento científico é produzido nas universidades. De acordo com estudos de Tavares et al (2015), que trata da presença de negros e negras nas bolsas de formação e de pesquisa do CNPq, em 2015 eles eram mais de 30% do total de bolsistas na iniciação científica, voltadas a estudantes de graduação. Mas, na bolsa de produtividade em pesquisa, a participação dos negros é muito pequena. “Desconheço qualquer mulher negra brasileira, viva ou morta, cujo nome esteja associado a ímpar intervenção cultural, talento memorável nas artes, universalmente celebrada no mundo acadêmico ou em qualquer outra esfera social” (Lima, 2012, p. 282).

Por sua vez, de um total de 14.040 bolsistas de produtividade em pesquisa, no início de 2015, apenas 4.993 eram mulheres. De acordo com o relatório mundial da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) de 2007, as adolescentes não buscam as carreiras de ciências e os estudos técnicos na mesma proporção que os adolescentes. Somos a maioria em áreas ligadas ao cuidado: acima dos 60% nas áreas de saúde, humanas e linguística, letras e artes, e na faixa dos 30% nas ciências Exatas e da terra e nas engenharias e computação. Somos professoras, enfermeiras, assistentes sociais e psicólogas.

Mas por que isso acontece? Por uma questão cultural, as mulheres costumam escolher profissões mais próximas de como foram educadas, assim, mais próximas ao cuidado. Mas as profissões que tratam da manutenção e preservação da vida não por acaso são as menos valorizadas, portanto, mal pagas, refletindo o retrato da invisibilidade feminina no mercado de trabalho.

Contudo, a ciência é um empreendimento humano desenvolvido por mulheres e homens cientistas. Essas mulheres e esses homens participam de uma sociedade que tem um viés masculino e branco. Dessa forma, visões deturpadas em relação à construção do conhecimento científico se refletem no ensino e na manutenção de uma visão deformada de ciência neutra e masculina.

3. Diversidade em ciências significa inovação?

É urgente a inserção de outros sujeitos além do homem branco europeu na produção e ensino de ciências por uma questão de justiça social, — pois todas as pessoas devem ter igualdade de oportunidades —, justiça econômica — pois, se pessoas negras e mulheres não tiverem as mesmas oportunidades que o sujeito universal, o país está retirando de si a totalidade de mentes criativas e expropriando suas capacidades laborativas — e por razões sociais — pois mulheres e a população negra precisam usufruir de uma boa educação científica.

O fato é que a diversidade em ciências traz perspectivas, valores, motivações e métodos distintos para o trabalho científico, permitindo produzir melhores respostas para a sociedade como um todo. Sobretudo neste momento difícil em que vivemos o contexto de uma pandemia é a ciência que promete ser o diferencial nas disputas de narrativas. As carreiras STEAM, que são aquelas que englobam as Ciências, Tecnologias, Engenharias, Artes e Matemáticas, vivem um momento de revisão de suas produções, e a diversidade tem sido tratada como fator que trará inovação às narrativas de produção e ensino destas profissões1.

4. Por que o currículo das instituições escolares precisa ser revisto?

Há muitos anos reivindicamos um currículo que reconheça espaços de produção de outras matrizes de produção. No Brasil é preciso falar na matriz de produção da diáspora, porque somos o segundo país em população negra no mundo.

Quais são as semelhanças entre o muro de Zimbábue, os templos incas ameríndios e as pirâmides? Que conhecimento está atrelado à manipulação das coordenadas retangulares, descritas num papiro egípcio, que hoje está em um museu na Europa? Se a gente precisasse de mais um motivo para reivindicar um lugar de produção de ciência, valem as Cavernas de Blombos, descobertas em 2009 na África do Sul, reveladas para a humanidade em 2012. O que foi achado nelas? Artefatos de um povo que manipulava operações unitárias. Um povo que não só estocava alimento, mas os armazenava e fazia misturas, transformava alimentos.

Essas cavernas são datadas de 70 a 100 mil anos atrás, e a pré-história humana é contada a partir da França, com achados de 17 a 18 mil anos atrás. Ou seja, Blombos reivindica a recontagem da nossa pré-história, conforme descoberta de 2009. Passaram-se 10 anos, mas ainda não vimos isso inserido nos livros didáticos. É preciso que meninas e meninos da escola básica de maioria negra conheçam as produções tecnológicas de seus antepassados. Recontar um passado de desenvolvimento de ciência e tecnologia é partilhar o poder 2.

5. Por que precisamos incluir negras e negros na produção e ensino de ciências e tecnologias?

Para que a ciência seja capaz de oferecer respostas mais robustas aos problemas da humanidade. Respostas que englobem outros pontos de vistas, que lidem e partam da pluralidade de nossas existências. Para que se possa: promover equidade étnico-racial em ciência e tecnologia remover obstáculos nas carreiras da área tornar a ciência receptiva às necessidades da sociedade como um todo e, sobretudo, para que se possa ter melhor relacionamento com sistema de conhecimento tradicionais 3.

Anna M. Canavarro Benite é doutora e mestre em ciências e licenciada em química pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). É professora associada e coordenadora do PIBID Química da UFG (Universidade Federal de Goiás). É coordenadora do LPEQI (Laboratório de Pesquisas em Educação Química e Inclusão) da UFG desde 2006, onde instituiu em 2009 o Coletivo Ciata (Grupo de Estudos sobre a Descolonização do Currículo de Ciências). As ações desenvolvidas no coletivo renderam o Diploma de Reconhecimento por Ação Cotidiana na Luta pela Defesa, Promoção e Proteção dos Direitos Humanos em Goiás em 2013, a Honra ao Mérito pela Assessoria Especial para Direitos Humanos e Cidadania em 2014 e o Prêmio Mulher Combativa pela Câmara Municipal de Goiás em 2016. É representante do Conselho Estadual de Promoção da Igualdade Racial do Estado de Goiás, ativista do Grupo de Mulheres Negras Dandara no Cerrado e membro do CNPIR (Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial). É pesquisadora convidada do CPTE (Centro de Pesquisa Transdisciplinar em Educação) do Instituto Unibanco.

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