5 pontos que a ciência explicou sobre os impactos do castigo corporal em crianças

SanyaSM
Menino de costas
Uso de força física para tentar corrigir ou controlar o comportamento infantil é prática comum, mas considerada violação de direitos. Veja o que a ciência explica sobre o impacto desses castigos na saúde e no desenvolvimento das crianças

O castigo corporal, ou o uso de força física com a intenção de causar dor a uma criança para tentar corrigir ou controlar seu comportamento, é uma prática comum em todo o mundo. Estimativas recentes indicam que 2 em cada 3 crianças em países de baixa e média renda são espancadas, feridas com objetos ou expostas a outras formas de castigos corporais. Além disso, cerca da metade dos adultos em 52 países pesquisados pela World Values Survey afirma que considera justificável que os pais punam corporalmente seus filhos. Da mesma forma, em vários países do mundo, mais de 1 em cada 3 pais e cuidadores acreditam que, para criar ou educar uma criança adequadamente, ela precisa ser punida corporalmente, de acordo com pesquisa do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância).

Apesar da ampla aceitação social do castigo corporal, a Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança o declarou uma violação de direitos. Além disso, organizações sem fins lucrativos e entidades profissionais em todo o mundo, incluindo o Unicef e a Academia Americana de Pediatria, exigiram a abolição dos castigos corporais. Mas o que diz a ciência sobre esses castigos? Devemos nos preocupar com o fato de tantos pais os usarem ou aprovarem seu uso?

1. O castigo corporal pode prejudicar o desenvolvimento, a aprendizagem e a saúde das crianças?

Revisões sistemáticas de pesquisas dos últimos 50 anos revelam que os castigos corporais estão relacionados a uma ampla gama de resultados prejudiciais para as crianças. Por exemplo, crianças expostas a castigos corporais tendem a ter um crescimento mais lento nas habilidades cognitivas e socioemocionais, sofrem de mais problemas de comportamento, como agressão à família e aos colegas, e têm maior probabilidade de serem emocionalmente desajustadas. No longo prazo, crianças que são punidas corporalmente correm maior risco de ter mais dificuldades acadêmicas, sofrer de problemas de saúde mental, incluindo depressão e ansiedade, e replicar a mesma violência com seus filhos, no que constitui uma transmissão intergeracional de violência.

2. O castigo corporal afeta o desenvolvimento do cérebro?

Os modelos neurobiológicos indicam que os castigos corporais, incluindo espancamento, têm o potencial de interferir no desenvolvimento saudável do cérebro das crianças. Uma extensa literatura mostra que níveis excessivos de estresse na ausência de relações de apoio (também conhecido como estresse tóxico) podem resultar em desregulação do sistema de resposta ao estresse (ou seja, o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal), levando a alterações na estrutura e no funcionamento do córtex pré-frontal, amígdala e outras redes neurais. O castigo físico atende aos critérios de um estressor tóxico, pois ele causa dor e angústia à criança, e o pai ou responsável, que deveria ser uma fonte de conforto e apoio, é a própria raiz de estresse.

Embora os estudos empíricos que exploram esta possibilidade sejam escassos, as evidências são consistentes com a ideia de que o castigo corporal tem o potencial de prejudicar o desenvolvimento cerebral. Por exemplo, os bebês que foram punidos corporalmente tendem a apresentar uma alta reatividade fisiológica ao estresse. Da mesma forma, dois estudos documentam que adultos que foram punidos corporalmente na infância têm, em média, menos massa cinzenta em seu córtex pré-frontal e alterações nas áreas do cérebro relacionadas à memória se comparados com adultos que não foram punidos corporalmente.

3. Qual é a prevalência dos castigos corporais na América do Sul e no Brasil?

Um estudo estimou que cerca de 1 em cada 2 (ou 50%) crianças de 3 a 4 anos de idade na América do Sul são espancadas, feridas com objetos ou expostas a outras formas de castigo corporal. O mesmo estudo indica que cerca de 9 milhões (ou 55% das crianças de 3 a 4 anos de idade) são punidas corporalmente no Brasil. No entanto, isso provavelmente é uma aproximação da real prevalência dos castigos corporais no país, portanto são necessários mais estudos a esse respeito.

4. Quais crianças correm maior risco de serem punidas corporalmente?

As evidências indicam que os castigos corporais são comuns em muitos países, culturas e grupos socioeconômicos. As normas sociais que justificam o uso da violência são os principais determinantes do uso de castigos corporais. Estudos (como este e este na Colômbia e este nos Estados Unidos) também sugerem que algumas crianças correm maior risco de serem castigadas corporalmente do que outras.

Em geral, aquelas que vivem em contextos adversos (por exemplo, em lares em situações de pobreza, em famílias com casos de violência doméstica ou de parceiro ou em bairros com maiores taxas de violência) tendem a correr maior risco de serem punidas corporalmente.

Uma estrutura de estresse oferece uma explicação convincente para essas descobertas. A exposição a adversidades crônicas produz consequências fisiológicas e psicológicas que podem minar os recursos cognitivos e emocionais dos cuidadores, esgotando seu autocontrole e tornando-os mais reativos a qualquer comportamento desafiador de seus filhos. Isso aumenta as chances de eles acreditarem em castigos corporais.

5. O que pode ser feito para desencorajar o uso de castigos corporais?

A punição corporal é um problema multifacetado que precisa ser tratado nos níveis individual e contextual.

No individual, é essencial cuidar dos cuidadores e apoiar suas habilidades de cuidar. Por um lado, é importante informar os cuidadores sobre as consequências prejudiciais do castigo corporal e lhes mostrar alternativas não violentas. Tais informações não só ajudam os cuidadores a mudar crenças incorretas sobre a utilidade dos castigos corporais, mas podem fazê-los se sentir mais eficazes em suas habilidades de criação. Por outro lado, reduzir as fontes de estresse, apoiando a estabilidade econômica e fortalecendo os laços sociais, pode ser altamente eficaz na diminuição dos castigos corporais.

No nível contextual, são necessários múltiplos esforços para mudar as normas sociais em torno dos castigos corporais. O estabelecimento de uma proibição nacional dos castigos corporais (como o Brasil já fez) é o primeiro passo. Além disso, o uso dos meios de comunicação de massa, incluindo televisão e rádio, é promissor, como ilustrado por um estudo do Brasil que descobriu que programas de TV podem levar a mudanças nas normas e comportamentos sociais. Também são significativas grandes campanhas educativas, assim como a inclusão de aulas nas escolas sobre a não violência e o desenvolvimento de habilidades socioemocionais para resolver problemas sem o uso da violência.

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