Precisamos falar sobre clima nas eleições de 2022

CPI/PUC-Rio
O não enfrentamento adequado da crise ambiental, compromete o futuro de um país com potencial para ser protagonista na economia de baixo carbono

O debate eleitoral no Brasil tem ignorado a agenda de mudança do clima, na contramão da tendência mundial. A crise climática tem ocupado espaço crescente no cenário internacional, mesmo no contexto da pandemia, da guerra e seus desdobramentos. Assistimos, ao longo dos últimos anos, o aumento do interesse do setor privado e setor financeiro, que passam a dar passos concretos para que a agenda climática ganhe relevância. São movimentos muito bem-vindos e que tendem a favorecer a sociedade brasileira.

Por um lado, a crise climática tem tido impactos relevantes sobre a população brasileira e sua qualidade de vida. São efeitos que se fazem sentir em diferentes áreas – do abastecimento de água à ocorrência de secas e enchentes, com desdobramentos sobre deslizamentos em centros urbanos, quebra de safra e escassez de energia. Esforços que possam reduzir a ocorrência desses eventos são necessários, assim como o fortalecimento de políticas públicas que possibilitem maior resiliência e adaptação da sociedade ao novo regime climático.

Por outro lado, a mobilização em torno da mitigação de emissão de gases de efeito estufa e a necessária transição para uma economia de baixo carbono criam oportunidades enormes para o Brasil. O país, por suas características naturais, tem condições de se estabelecer como protagonista em um cenário de baixo carbono, oferecendo ao mundo um conjunto único de soluções – florestas para absorção de carbono, áreas para a produção sustentável de alimentos e energia renovável abundante. Pesquisas recentes do CPI/PUC-Rio mostram que, nos setores responsáveis pelo grosso das emissões brasileiras, melhorias no perfil de emissões são tipicamente associadas a ganhos econômicos. Além disso, a sociedade desenvolveu um arcabouço institucional com elementos que estabelecem um excelente ponto de partida. Mas é preciso implementar e aprimorar. É justamente nesses pontos que devemos centrar o debate eleitoral.

Pesquisas recentes do CPI/PUC-Rio mostram que, nos setores responsáveis pelo grosso das emissões brasileiras, melhorias no perfil de emissões são tipicamente associadas a ganhos econômicos

O desmatamento da Amazônia é certamente o lado mais visível desse problema. O controle do desmatamento ganhou novos contornos e vai muito além da proteção de nossas florestas. Está associado a atividades ilegais e a violência, criando um ambiente com elevados custos sociais e um processo perverso que afugenta boas empresas e investimento na Amazônia. Para o resto do país, a floresta cumpre ainda um papel central na regularização dos fluxos hídricos, tão importantes para o abastecimento dos centros urbanos, a geração de energia e o agronegócio. O reconhecimento da importância da floresta na agenda do clima também tem sido fonte de preocupação da comunidade internacional e criando, como resultado desse processo, constrangimentos diplomáticos e comerciais para o país. É como se tivéssemos diante de uma nova dimensão do conhecido “Custo Brasil”.

Mas a agenda do clima é bem mais ampla do que a questão do desmatamento. A infraestrutura, em suas várias modalidades tão escassas no país, também tem papel central. Por exemplo, é importante que nossa infraestrutura logística se desenvolva de forma alinhada com o desenvolvimento sustentável, com uma abordagem efetiva para seus custos sociais e ambientais. Também é importante lidarmos com algumas contradições, como é o caso da geração de energia na Amazônia – grande parte da região está desconectada da rede, abastecida por sistemas isolados baseados em térmicas caras e poluentes, apesar da grande capacidade instalada de hidroeletricidade na região.

Outro tema abrangente diz respeito ao acesso adequado a instrumentos financeiros. O Brasil tem um mercado de crédito bem consolidado e um mercado de seguros em ascensão que precisam estar alinhados para a transição para uma economia de baixo carbono. Apesar de haver um arcabouço que contempla várias dimensões relevantes da agenda de clima, há muito espaço para aprofundamento dessas transformações.

É preciso mudarmos a percepção que a crise climática é um tema distante dos brasileiros e seus problemas cotidianos. Não apenas as mudanças do clima já estão em curso, com efeitos visíveis na vida dos brasileiros, como o Brasil tem um conjunto de políticas que já lidam com a mitigação de emissões e que apontam para a direção de uma economia de baixo carbono. Avanços são necessários, mas para alcançá-los, precisamos falar sobre clima.

O Climate Policy Initiative e o Nexo Políticas Públicas apresentam uma série de trabalhos sobre temas relacionados a mudanças climáticas relevantes para o país, visando informar o debate eleitoral.

Os artigos publicados na seção Opinião do Nexo Políticas Públicas não representam as ideias ou opiniões do Nexo e são de responsabilidade exclusiva de seus autores.

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