Os cotistas evadem mais da universidade? Alguns indicadores da UFRJ

Felícia Picanço, Marianna Assis, Daniela Santa Izabel, Vivian Nascimento e Gustavo Bruno de Paula
A Lei de Cotas mudou o perfil econômico e racial das universidades federais brasileiras. O ingresso é o primeiro passo de quem aposta num curso de graduação e a permanência, um desafio. Pesquisas avaliam a evasão de cursos no ensino superior para contribuir com a compreensão da questão e desenvolvimento de políticas de permanência

Diferentes dados evidenciam que a Lei 12.711/2012 (Lei de Cotas) mudou o perfil econômico e racial das universidades federais brasileiras. Mas, como sabemos, o ingresso é apenas o primeiro passo de quem aposta num curso de graduação. A ele se segue o desafio da permanência na universidade, do rendimento acadêmico, da conclusão e, finalmente, da inserção no mercado de trabalho. Para os estudantes, por diferentes motivos, interromper temporariamente ou desistir do curso, da instituição ou do ensino superior é uma opção recorrente. Opção essa que ronda, também, os novos públicos universitários incluídos nos últimos anos. Este texto apresenta algumas contribuições para a discussão da desistência de curso na UFRJ, uma das maiores e mais seletivas universidades do Brasil.

A desistência é aqui chamada de evasão e é um fenômeno recorrente no sistema de ensino superior de diversos países que mobiliza pesquisadores desde os anos 70. Sua mensuração e análise exige inicialmente três operações de diferentes naturezas: conceitual, analítica e metodológica. Conceitualmente, cabe definir sobre qual evasão estamos falando: temporária ou definitiva e se é do curso, da instituição ou do sistema. Analiticamente, temos que reconhecer seu caráter multicausal e multifatorial, o que implica em assumir o vasto conjunto de motivações que levam à desistência (preferências por outro curso/instituição, mudanças de expectativas profissionais, dificuldades acadêmicas, questões de saúde física e mental, dentre outras) e fatores institucionais (curso, turno, políticas de apoio à permanência, acesso à bolsa de pesquisa etc.) e socioeconômicos (origem social, renda, local de moradia, conjugalidade, parentalidade etc.) que impactam na evasão. Metodologicamente, é necessário enfrentar o desafio do acesso aos dados das universidades e dos microdados do Enem, Censo do Ensino Superior e Enade do MEC (Ministério da Educação) , bem como da restrição ao procedimento de integração das bases, procedimento esse que permitiria acompanhar a trajetória dos evadidos.

Os dados aqui utilizados foram fornecidos pela UFRJ (Universidade Federal do Rio Janeiro) e são compostos pela situação de matrícula do estudante em fevereiro de 2021 no curso de ingresso, somados às variáveis sobre as características socioeconômicas dos estudantes.

É importante fazer cinco apontamentos sobre as escolhas feitas para esta análise.

Primeiro, foram classificados como “evadidos” os ingressantes que estavam com a matrícula cancelada a pedido ou por abandono. Logo, definimos aqui “evasão” como o cancelamento da matrícula no curso de ingresso, mas não acompanhamos se o estudante ingressou em outro curso dentro ou fora da UFRJ. A situação de matrícula ficou categorizada em quatro situações: cursando, graduado (conclusão), evadido e trancado.

A persistência da evasão e o efeito do tipo de ingresso na evasão em algumas áreas merecem ser melhor analisadas para estimular políticas de permanência focalizadas

Segundo, a unidade de análise é o estudante matriculado em um curso em cada ano, por exemplo, se o aluno ingressou em 2012, evadiu do curso em 2013 e, em 2014, ingressou em outro curso na própria UFRJ com outra matrícula e concluiu o novo curso, ele é contado como ingressante de 2012 evadido e é contado como ingressante do ano de 2014 graduado.

Terceiro, em 2012, ao implantar a Lei 12.711 para o ingresso de 2013, a UFRJ revogou a Resolução Consuni 14/2011 que designava 30% das vagas para egressos de escola pública com renda de até 1,5 salário mínimo e formulou a Resolução Consuni 18/2012 que designava 30% das vagas para os egressos de escola pública com as devidas subdivisões de renda e percentual da pretos, pardos e indígena e, para 2014, o percentual seria ampliado para 50%.

Quarto, embora a literatura aponte que os dois primeiros anos são aqueles mais propensos à evasão, o atraso ou retenção dos estudantes marca, também, o ensino superior brasileiro. Ainda que a maioria dos cursos tenha quatro anos de duração, no quinto ano, a maior parte dos estudantes está cursando disciplinas, por isso a opção é apresentar os dados dos ingressantes dos anos de 2012, 2013 e 2014.

Entre os ingressantes de 2012, 41,7% tinham evadido do curso e este percentual sofreu pequenas reduções nos dois anos subsequentes. O que nos permite dizer que no contexto da adoção da Lei de Cotas, não houve alteração significativa na evasão de curso na UFRJ.

Gráfico: Ingressantes segundo situação da matrícula por ano

Como as cotas favoreceram a entrada de negros e estudantes de renda mais baixa, observaremos se houve alguma mudança nesses grupos. Os homens negros são aqueles com maior percentual de evasão no três anos analisados, seguidos pelos homens brancos, e mais distantes, as mulheres negras e as mulheres brancas. As mulheres são aquelas que mais concluem os cursos, com uma pequena vantagem das brancas sobre as negras. Nos anos seguintes à adoção das cotas, nenhum grupo ampliou seu percentual de evasão. Com isso, não há evidências de que homens negros e mulheres negras ingressantes após as cotas seriam mais propensos a evasão.

Gráfico: Percentual de ingressantes segundo gênero e raça que evadiram do curso por ano

Os ingressantes de 2012 com baixa renda (de até um 1,5 salário mínimo per capita) tinham maiores percentuais de evasão do que aqueles com renda superior. Nos dois anos seguintes à adoção das cotas, ainda são os mais pobres que têm o maior percentual, no entanto, não houve ampliação da evasão. Não temos, novamente, nenhuma indicação de que após a implantação das cotas houve mudanças no indicador de evasão dos ingressantes por renda.

Gráfico: Percentual de ingressantes segundo faixa de renda que evadiram do curso por ano

Os cursos da área de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática centrados em matemática e física (STEM I) têm maior percentual de evasão e os cursos da área de Humanidades mais seletivas (HUM I) têm o menor percentual. Entre as duas áreas, estão os cursos das áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática centrada em biologia e química (STEM II), Técnicos e de informação (TEC) e Humanidades menos seletiva (HUM II). Esta ordem se mantém nos três anos analisados, mas, chama atenção que a expansão das cotas em 2014 parece afetar negativamente a área de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática centrada em matemática e física (STEM I).

Gráfico: Percentual de ingressantes segundo área do conhecimento que evadiram do curso por ano

Entre 2013 e 2014, os ingressantes por cota de escola pública com renda acima de 1,5 salário mínimo (EP) mantiveram o menor percentual de evadidos do curso, seguidos pelos ingressantes via ampla concorrência (AC) e ingressantes via cota de escola pública com renda de até 1,5 salário mínimo (EP+R). As variações ocorridas não permitem apontar tendências, mas apenas indicar que: i) os ingressantes por cota de escola pública, raça e renda de até 1,5 salário mínimo (EP+PPI+R) e por cota por escola pública, raça e renda acima de 1,5 salários mínimos (EP+PPI) apresentam maiores percentuais de evasão que as demais formas de ingresso; e ii) que os ingressantes por cota de escola pública sem a cota da raça e ampla concorrência (AC) exibem percentuais de evasão mais próximos. Será necessário manter o acompanhamento da situação da matrícula nos próximos anos para verificar se é uma tendência e trata do efeito da maior evasão dos homens negros apresentada acima.

Gráfico: Percentual de ingressantes segundo modalidade de ingresso que evadiram do curso por ano

Para observar a variação da evasão nas áreas de conhecimento segundo a forma de ingresso, elegemos o ano de 2014. Na área de Ciência, tecnologia, engenharia e matemática centrada em matemática e física (STEM I) os cotistas por raça e renda (EP+PPI+R) são aqueles que mais evadem, seguidos pelos cotistas de escola pública com renda acima de 1,5 salário mínimo (EP), e os cotistas de escola pública com renda abaixo de 1,5 salário mínimo são aqueles que menos evadem. Os ingressantes pela ampla concorrência e cotistas por escola pública e raça (EP+PPI) estão próximos e entre os dois pólos.

Na área de Ciência, tecnologia, engenharia e matemática centrada em ciência e biologia (STEM II), cotistas de escola pública e raça (EP+PPI) são os que mais evadem e cotistas de escola pública com renda acima de 1,5 salário mínimo (EP) os que menos evadem.

Na área de Humanidades mais seletivas (HUM I), diferente das demais áreas de ciência e tecnologia, os cotistas têm percentuais próximos de evasão e distintos da ampla concorrência. Embora, olhar para um único ano não permita aprofundar as análises e identificar tendências, é importante destacar que, entre as áreas mais seletivas, quando se trata das áreas de ciência e tecnologia, o tipo de cota parece impactar na evasão.

Gráfico: Percentual de ingressantes segundo modalidade de ingresso que evadiram do curso por área, 2014

No contexto de adoção da Lei 12.711, a evasão dos grupos de gênero e raça e por renda é desigual e persistente, mas não amplia. Por área, observamos que a área de Ciência, tecnologia, engenharia e matemática centrada em matemática e física, que já tinha o maior percentual de evasão, amplia a evasão. A forma de ingresso também traz indicações importantes: os ingressantes por cota de escola pública e raça são mais propensos a evadir do que os demais ingressantes por cotas de escola pública e ampla concorrência.

Diante da ampliação da evasão na área de ciência e tecnologia centrada em matemática e física e variação da evasão segundo forma de ingresso, procuramos olhar mais de perto para a evasão nas áreas segundo a forma de ingresso. Observamos que há variações na evasão segundo o tipo de ingresso, em especial nas áreas de ciência e tecnologia. A persistência da evasão e o efeito do tipo de ingresso na evasão em algumas áreas merecem ser melhor analisadas para estimular políticas de permanência focalizadas.

Felícia Picanço é professora do Departamento de Sociologia e do PPGSA (Programa de Pós-graduação em Sociologia e Antropologia) da UFRJ e coordenadora do LeDdE (Laboratório de Estudos sobre Diferença, Desigualdade e Estratificação).

Marianna Assis é doutoranda do PPGSA e membro do LeDdE.

Daniela Santa Izabel é mestranda do PPGSA e assistente de pesquisa do LeDdE.

Vivian Nascimento é mestranda do PPGCE-UERJ e assistente de pesquisa do LeDdE.

Gustavo Bruno de Paula é doutor em educação e atualmente é professor contratado do Departamento de Educação, Informação e Comunicação da FFCLRP/USP e pós-doutorando no PPGSA/IFCS-UFRJ.

Este texto faz parte da série de publicações no Nexo Políticas Públicas do “Consórcio de Acompanhamento das Ações Afirmativas 2022”, coordenado pelo Núcleo Afro do Cebrap e pelo Gemaa do Iesp-Uerj.

Os artigos publicados na seção Opinião do Nexo Políticas Públicas não representam as ideias ou opiniões do Nexo e são de responsabilidade exclusiva de seus autores.

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