O quê o ativismo trans e travesti nos ensina sobre o futuro da democracia brasileira

Alvaro Jarrín
Ao sair do lugar abjeto no qual a sociedade as colocava, as pessoas trans e travestis transcendem a velha política e podem adotar discursos revolucionários que pedem por mudanças radicais e duradouras

A democracia brasileira parece estar numa situação particularmente precária. O presidente Jair Bolsonaro deixou claro que não aceitará o resultado das próximas eleições, e recentemente vários militares começaram a questionar o sistema eleitoral brasileiro. A admiração deles pela ditadura brasileira deixa claro que o fascismo nunca desapareceu como um projeto de poder no Brasil, e os processos democráticos estão em xeque.

Como eu e os outros organizadores do livro “Democracia Precária” 1 afirmamos, a vitória de Bolsonaro em 2018 não foi um triunfo de sua retórica ou de suas propostas políticas (pois ele tinha poucas). O que venceu foi um sentimento generalizado de desilusão, que pode ser interpretado como uma rejeição afetiva da política tradicional, após os brasileiros experimentarem uma profunda decepção em relação à corrupção, ao crime e aos custos exorbitantes das Olimpíadas e da Copa do Mundo. A frágil ascendência econômica experimentada pelos brasileiros de classe trabalhadora se tornou ameaçada pela instabilidade econômica e política, e Bolsonaro conseguiu capturar e redirecionar esses medos e inseguranças ao criar um pânico moral sobre direitos LGBTQIAP+, retratando-os como uma ameaça à masculinidade e à nação. Ele se projetou como um patriarca tradicional de “mão dura” que devolveria a ordem à nação, fazendo apelo a uma política abertamente fascista.

Essas candidaturas são marcadas por um viés interseccional, já que a grande maioria de pessoas trans e travestis não são brancas, vêm de famílias trabalhadoras e conhecem os preconceitos de gênero, de raça e de classe na própria pele

No entanto, quatro anos depois, a incompetência de Bolsonaro é evidente, e sua política revelou-se ainda mais corrupta do que a política tradicional, marcada por “rachadinhas” que beneficiaram todo seu clã. O país está numa situação de extrema precariedade, com a inflação e o desemprego disparando, e mais de meio milhão de brasileiros morreram sem necessidade por covid, num país que possuía os recursos e o conhecimento médico para enfrentar a pandemia de frente, se não fosse por um governo inepto e negacionista.

Nestes tempos de desgoverno, talvez valha a pena olhar para o ativismo trans e travesti brasileiro como um exemplo da democracia alternativa e plena que o país pode potencialmente atingir um dia. As ativistas trans e travestis vêm se organizando politicamente há décadas, desde a época da ditadura (sob a qual sofreram perseguição genocida), mas até pouco tempo atrás teria sido impensável imaginar que em 2022 trans e travestis ocupariam tantos espaços de poder antes negados a elas. Em 2020, quase trezentas pessoas que se identificam como trans ou travesti concorreram a cargos políticos, e 30 foram eleitas para cargos municipais, muitas delas com número recorde de votos. Duda Salabert foi a vereadora mais votada na história de Belo Horizonte, e Erika Hilton em São Paulo se tornou a vereadora mulher mais votada em todo o país. Estes números expressivos demonstram que atores políticos trans e travestis têm um atrativo imenso, mesmo que sua política seja diretamente contrária à política bolsonarista.

Embora Lula da Silva seja a melhor esperança contra Bolsonaro na eleição de outubro, essa eleição também vai ser marcada por um recorde de candidaturas de pessoas trans e travestis, muitas delas visando entrar no Congresso Nacional, entre elas Erica Malunginho, Robeyoncé Lima e Symmy Larrat. Essas novas candidaturas representam um novo futuro e uma nova forma de fazer política, muito além de uma pauta simplesmente identitária. Essas candidaturas são marcadas por um viés interseccional, já que a grande maioria de pessoas trans e travestis não são brancas, vêm de famílias trabalhadoras e conhecem os preconceitos de gênero, de raça e de classe na própria pele. Essas experiências de vida fazem delas verdadeiras guerreiras, e seus objetivos políticos são confrontar as desigualdades brasileiras de frente, usando o poder do Estado para garantir a dignidade de todos os brasileiros, não importa qual sua origem. As propostas políticas dessas candidatas atingem as necessidades dos brasileiros mais pobres e mais necessitados.

Ao sair do lugar abjeto no qual a sociedade as colocava, as pessoas trans e travestis transcendem a velha política e podem adotar discursos revolucionários que pedem por mudanças radicais e duradouras. Como Erika Hilton falou numa entrevista recente: “a política como conhecemos é quadrada, cafona, chata, feita da mesma maneira durante muito tempo e pensada e formulada pelos mesmos grupos. Quando outros grupos vão se apropriando desse lugar, o fazer político vai renascendo. A política precisa ser renovada porque a forma hegemônica de fazer política sempre atende apenas aos interesses dos políticos e da elite econômica do Brasil” 2.

Outro motivo para o sucesso de candidaturas trans e travestis é o sucesso do movimento trans e travesti de forma mais ampla, conseguindo mudar a percepção da sociedade em relação às minorias de gênero. O artivismo de cantoras como Linn da Quebrada, Majur e Liniker, ou de dramaturgas como Ave Terrena, Renata Carvalho e Verônica Valenttino, tem conseguido mudar a percepção pública das identidades trans e travestis. Embora muitas pessoas trans e travestis ainda vivam em situações muito precárias, marcadas por violência estrutural e falta de oportunidades de emprego, agora podemos ver milhares de pessoas trans e travestis lutando para representar essas identidades em novas esferas, como o mundo acadêmico e o mundo empresarial.

No Brasil de Bolsonaro, ainda é muito difícil ser trans ou travesti. O Brasil é ainda o país que mais mata pessoas trans e travestis no mundo. Benny Briolly, uma travesti eleita como vereadora da cidade de Niterói, sofreu tantas ameaças de morte que teve que deixar o país temporariamente, até que suas exigências de uma escolta policial permanente fossem atendidas. Porém, Benny e outras mulheres como ela não se amedrontam, e é essa garra e coragem que fazem delas uma esperança para um futuro mais promissor para o Brasil, onde as que mais sofreram abusos ocupam espaços de poder antes negados a elas. O movimento trans e travesti já está se organizando para responder à tentativa de golpe que Bolsonaro está querendo aprontar, e sua liderança vai ser central para proteger a democracia no Brasil.

Alvaro Jarrín é antropólogue, professore do College of the Holy Cross, Radcliffe Fellow da Universidade de Harvard e autore de dois livros a serem publicados em português em 2022, “A Biopolítica da Beleza” (Editora Fiocruz) e “Democracia Precária” (Editora Zouk).

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