Falsas soluções e reducionismos no debate sobre “proteínas alternativas” e sustentabilidade

Cecília Rocha
Relatório alerta que diagnósticos enganosos e simplistas levam a conclusões equivocadas em relação aos nossos sistemas alimentares, como afirmação frequente de que proteínas alternativas são uma solução que beneficia triplamente o planeta, as pessoas e o bem-estar animal

Proteína animal é um fator importante para a nutrição, mas vai muito além disso. Trata-se de um fator econômico essencial nos sistemas alimentares ao redor do mundo. Apenas a pecuária contribui para a subsistência de 1,7 bilhão de pequenos agricultores no Sul Global e o setor, como um todo, representa entre 40-50% do PIB agrícola mundial. No entanto, o crescimento da produção e do consumo de carne tem despertado preocupações em relação a seus efeitos sobre o meio ambiente e a saúde como um todo.

A FAO (Organização para a Alimentação e a Agricultura das Nações Unidas) estima que a pecuária seja responsável por 14,5% das emissões globais de gases de efeito estufa, contribuindo para as mudanças climáticas. Além disso, o uso excessivo de antibióticos pelos grandes produtores industriais é um dos principais fatores que levam ao aumento de infecções por agentes patogênicos resistentes aos antibióticos. E enquanto o consumo excessivo de carne e laticínios está associado a taxas crescentes de obesidade e doenças crônicas, populações mais pobres não conseguem ter acesso a uma alimentação saudável e adequada. Só no Brasil, mais da metade dos domicílios brasileiros convivem com algum grau de insegurança alimentar.

Dessa forma, há um debate crucial sobre o papel da carne – e da proteína animal em geral – na saúde das pessoas e do meio ambiente. Há uma pressão crescente para o desenvolvimento de políticas públicas que possam lidar com esses problemas. Mas quais seriam os melhores caminhos a serem seguidos? Como em todo debate público, grupos de interesses distintos e, muitas vezes, opostos tentam influenciar as direções do debate e suas resoluções.

Um novo relatório do IPES-Food (Painel Internacional de Especialistas em Sistemas Alimentares Sustentáveis) analisa alguns dos principais argumentos que têm embasado o debate sobre proteínas e que orientam a busca por soluções. Algumas alegações são enganosas, como, por exemplo, a ideia de que precisamos produzir mais proteína no mundo para alimentar uma população em crescimento. Já outras alegações são reducionistas, como a noção de que a pecuária é incompatível com objetivos de sustentabilidade.

Dessa forma, o relatório alerta que diagnósticos enganosos e simplistas levam a conclusões equivocadas em relação aos nossos sistemas alimentares, como a afirmação frequente de que as proteínas alternativas são uma solução que beneficia triplamente o planeta, as pessoas e o bem-estar animal. Na verdade, as “carnes vegetais” – e outras soluções tecnológicas como a carne cultivada em laboratório – não têm capacidade de resolver o problema dos impactos ambientais negativos relacionados à alimentação, como demonstra o relatório, e podem criar um mercado altamente concentrado, dominado por corporações e atrelado ao sistema financeiro. No cenário brasileiro, JBS e BRF são duas das empresas que já entraram no mercado de carne cultivada em laboratório.

As maiores preocupações com relação à carne estão intimamente ligadas à produção em escala industrial, como o desmatamento e o uso excessivo de antibióticos, por exemplo, mas formas agroecológicas de produção podem evitar tais problemas

A ideia generalizada de que “precisamos de mais proteína e menos carne” representa a combinação de algumas dessas alegações enganosas e simplistas. É uma ideia falsa. Primeiro, porque não existe uma “lacuna proteica” em termos de oferta global de proteína. O que existe são pessoas em condição de pobreza que não conseguem ter acesso a uma alimentação adequada que inclua proteína animal. A insegurança alimentar e a fome são causadas por essa condição e não por uma suposta falta de quantidade disponível de proteína no mundo.

Outra parte problemática dessa ideia é que não considera situações diferentes ao redor do mundo. O consumo de proteína animal – tanto em quantidade, quanto tipo e frequência – não é o mesmo em todas as partes, e tem um lugar distinto em várias culturas. Assim como sua produção. No Brasil, por exemplo, populações indígenas, ribeirinhas e quilombolas têm relações bem distintas com a produção e o consumo de proteínas animais.

Além disso, a afirmação generalizada – “precisamos de mais proteína e menos carne” – não considera como os alimentos são e podem ser produzidos de diversas maneiras, respeitando as características socioambientais de regiões específicas. Condições territoriais diversas apontam para potenciais distintos na produção variada de proteína animal. As maiores preocupações com relação à carne estão intimamente ligadas à produção em escala industrial, como o desmatamento e o uso excessivo de antibióticos, por exemplo, mas formas agroecológicas de produção podem evitar tais problemas. No contexto brasileiro, esse é um debate fundamental em relação à produção e exportação de soja e milho utilizados como ração de animais. Estima-se que aproximadamente um quinto da soja exportada para a União Europeia está ligada ao desmatamento ilegal, e as exportações de soja para a China também são um dos principais motores do desmatamento no Brasil.

O relatório do IPES-Food conclui com recomendações para evitar diagnósticos simplistas, enganosos e generalizados, que tendem a favorecer certos grupos de interesse em detrimento a outros grupos com menos poder político e voz nesse debate. Para promover uma verdadeira transformação sustentável e saudável dos sistemas alimentares, o Painel recomenda mudar a abordagem reducionista de olhar apenas para as proteínas e adotar uma abordagem mais holística do sistema como um todo. Isso significa priorizar possibilidades de reforma que se traduzam em todos os aspectos ambientais, começando pelo nível territorial, e incentivar políticas públicas que tratem os sistemas alimentares como um bem público. O relatório enfatiza a importância de processos que sejam capazes de abarcar espaços de consulta e decisão democráticos que incluam perspectivas de atores como agricultores familiares e populações marginalizadas (que no Brasil inclui indígenas, ribeirinhas e quilombolas). A ideia é criar caminhos justos, eficientes e duradouros para colocar uma mudança transformadora em prática.

Cecília Rocha é membra do IPES-Food (Painel Internacional de Especialistas em Sistemas Alimentares Sustentáveis). É professora de nutrição na Universidade Ryerson, Canadá.

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