Aos pobres, as salsichas

Arnoldo de Campos, Patrícia Jaime e Tereza Campello
A alimentação saudável está ficando muito mais cara para a população a cada dia, empurrando o consumidor mais pobre para o consumo de alimentos de pior qualidade nutricional. Custos de produção, crise climática e - principalmente - omissão do governo estão entre as causas

O IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), principal índice de inflação do país, registrou alta de 1,06% no mês de abril, marcando o maior valor para o mês desde 1996. O resultado negativo foi influenciado principalmente pela alta nos preços dos alimentos e bebidas (2,06%) e, dentro deste grupo, pela alta na alimentação no domicílio (2,59%).

No ano, até abril, os preços já subiram 4,29% e a alimentação no domicílio, 9,05%, mais que o dobro do índice geral. Nos últimos 12 meses, a inflação dos alimentos consumidos em casa já bateu em 16,12%. E o cenário para os próximos meses não é favorável e pode piorar ainda mais com os efeitos da forte frente fria que está afetando o país neste mês de maio.

Essa situação afeta principalmente a população mais pobre, que consome uma parcela maior dos seus rendimentos com a alimentação. Não bastasse isso, o transporte e os remédios também estão mais caros, diminuindo o poder de compra e fazendo com que as escolhas entre alimentação, transporte e medicar-se sejam cada vez mais difíceis, num cenário de salários congelados, empregos precarizados e queda da renda média dos brasileiros.

Como destacado no Guia Alimentar para a População Brasileira, publicado pelo Ministério da Saúde em 2014, o alto custo dos alimentos influencia negativamente as escolhas alimentares

A inflação acumulada no ano revela outra situação preocupante em relação à segurança alimentar e nutricional da população brasileira. Os alimentos mais saudáveis, aqueles com maiores qualidades nutricionais, estão no topo das altas de preços. Das 20 maiores altas de preços acumuladas este ano até o mês de abril, 19 foram de alimentos in natura, com destaques para a cenoura, que já subiu mais de 150% este ano, para a batata, com alta 68%, legumes, raízes e tubérculos, que subiram 52,5%. Nem a saladinha mais comum do dia a dia escapou. O tomate subiu 48,9% e a alface 47,6% em apenas quatro meses. A 20ª maior alta foi justamente para um dos causadores principais dessa elevação, o óleo diesel.

Por outro lado, os alimentos de mais baixa qualidade nutricional, como os alimentos ultraprocessados, que em geral estão associados a uma alimentação de pior qualidade, variaram abaixo da média da inflação nestes primeiros meses de 2022. São os casos do macarrão instantâneo, da salsicha, dos biscoitos, da mortadela e do suco em pó, sendo que alguns deles estão entre os que menos subiram de todos os 457 itens ou grupos de produtos avaliados pelo IPCA.

Ou seja, a alimentação saudável está ficando muito mais cara para a população a cada dia, empurrando o consumidor mais pobre para o consumo de alimentos de pior qualidade nutricional, uma vez que os preços deste tipo de alimento estão mais acessíveis quando comparados às opções mais saudáveis.

Contribuem para esta situação diversos fatores, sendo três deles destacados como os principais:

Elevação nos custos de produção

Os preços dos fertilizantes, transporte, sementes e mudas, entre outros, tem subido muito nos últimos meses. Neste caso, dois fatores merecem destaque: os efeitos da dependência do país de insumos externos para a agricultura e a política de preços dos combustíveis que estabelece paridade de preços internacionais à revelia dos custos internos de produção e em detrimento dos interesses nacionais.

Prejuízos decorrentes do clima

A crise climática está impactando a produção de alimentos no país. Já estamos observando secas mais intensas e frequentes, chuvas, calor ou frio extremo. Este ano, já ocorreram todos estes fenômenos em diferentes regiões, sempre afetando a produção, em particular dos alimentos mais sensíveis ao clima, como os hortifrutigranjeiros.

Inexistência de uma política agrícola e de segurança alimentar e nutricional

O Brasil está diante de um desgoverno que tem uma visão neoliberal da economia, se comporta de maneira irresponsável e descomprometida em relação à defesa dos interesses nacionais.

Esta situação leva setores estratégicos do país, como alimentos e combustíveis, a se comportarem exclusivamente ao sabor dos mercados, sem planejamento, sem proteção da produção e do abastecimento nacional, sem política agrícola para estimular a produção de alimentos e proteger a renda dos produtores e sem uma política de soberania e segurança alimentar e nutricional para garantir o direito humano à alimentação da população.

O resultado não poderia ser pior. Por um lado, observa-se o aumento da fome e da insegurança alimentar. Por outro, agravam-se os riscos alimentares relacionados à obesidade e às doenças crônicas, como diabetes e hipertensão.

A alimentação inadequada lidera o ranking dos fatores de risco relacionados às doenças no Brasil, contribuindo com 12,2% dos anos de vida perdidos por incapacidade nos homens e 11,1% nas mulheres.

Importante lembrar que a dieta saudável não depende apenas da vontade das pessoas. Como destacado no Guia Alimentar para a População Brasileira, publicado pelo Ministério da Saúde em 2014, o alto custo dos alimentos influencia negativamente as escolhas alimentares. Ao mesmo tempo, o sistema agroalimentar segue contribuindo para o agravamento da crise climática, econômica e social do país.

Arnoldo de Campos é economista, ex-Secretário Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional.

Patricia Jaime é nutricionista, professora titular da Faculdade de Saúde Pública da USP.

Tereza Campello é economista, titular da Cátedra Josué de Castro/USP, ex-Ministra de Desenvolvimento Social e Combate à Fome.

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