A condição de cotista da Uerj como um ponto de virada para a compreensão do racismo

Jefferson Belarmino de Freitas e João Feres Júnior
A vida na instituição de ensino superior pós-ingresso contribui para o aprendizado e disseminação de valores antirracistas produzidos pelas políticas de cotas

As cotas representam muito na vida dos estudantes da Uerj, principalmente daqueles(as) que são os(as) primeiros(as) da família a ingressar na universidade, feito que possibilita a quebra de um ciclo de desigualdades educacionais de longa duração 1. Contudo, para além desse fator, as cotas na Uerj também geram um ganho simbólico que não é facilmente apreensível por pesquisas puramente quantitativas, mas que recorrentemente vêm à tona quando entrevistamos os(as) beneficiários(as) da política: a tomada de consciência sobre o papel do racismo em suas vidas. Tal conscientização, mesmo quando já existente no momento anterior ao ingresso na universidade, tende a ser acentuada e sistematizada a partir desse marco.

Quando conversamos com os(as) cotistas, ouvimos frequentemente que o racismo se tornou mais perceptível em suas vidas na medida em que passaram a circular por espaços nos quais a presença de negros(as) é minoritária. Isso aconteceu com Luciano, 26 anos, cotista racial do curso de psicologia. Originário da favela da Pedreira, na Pavuna, zona norte do Rio, ele relata que as pessoas da favela onde cresceu não ligavam diretamente a destituição material que marca suas vidas à sua condição racial: “você olha pro seu vizinho, e o seu vizinho também é preto. Então, assim, a gente vai falar: “ah, a gente tá sofrendo porque, né, a gente é preto?”. Não: “a gente tá sofrendo porque a gente tá fodido mesmo, que a gente mora na periferia”. Então... “essa discussão de vamos levar isso à frente porque somos pretos, só depois de muito tempo, só depois de muito ... na faculdade pra me racializar”.

Márcio é cotista racial do curso de engenharia e tem 28 anos. Sempre foi morador da favela de Vigário Geral, situada na Zona Norte carioca, dividindo o lar com a mãe, responsável por sustentar a família sozinha durante toda sua infância, e com os irmãos. Em seu depoimento, ele aborda estigmas raciais que recaem sobre os homens negros moradores de favela, que comumente lidam com violências como a policial. Essa ameaça era uma constante preocupação para a sua mãe, e hoje Márcio pondera a pressão que ela sofria ao enfrentar sozinha a responsabilidade de criá-lo junto com os irmãos. Sua preocupação maior era que Márcio “não virasse a cabeça”, frase que ganhou muito mais peso para ele após o ingresso na Uerj: “depois que eu entrei na universidade, comecei a ter uma percepção diferente do mundo, a pressão que a sociedade colocava nela”.

As cotas na Uerj geram um ganho simbólico que não é facilmente apreensível por pesquisas puramente quantitativas, mas recorrentemente vêm à tona quando entrevistamos os(as) beneficiários(as) da política: a tomada de consciência sobre o papel do racismo em suas vidas

O conhecimento adquirido na universidade também pode assumir um papel transformador, como registra Aziza, 25 anos, cotista racial do curso de psicologia que se identifica como uma pessoa não binária. Hoje mora em Vila Isabel, zona norte da cidade do Rio de Janeiro, mas, por conta da separação dos pais, já residiu em diferentes municípios da Baixada Fluminense, como Belford Roxo. Apesar de Aziza declarar que já tinha a sensação de que o racismo existe, e de que ele trazia efeitos negativos para a sua vida, conseguiu interpretá-lo de modo mais amplo apenas quando se tornou cotista da Uerj. O ponto de virada para Aziza se deu, mais precisamente, em uma das primeiras palestras que assistiu na universidade, cujo tema principal era o racismo: “muita coisa que foi dita ali eu me reconheci. Eu saí de lá chorando, chorando horrores. A primeira coisa que eu fiz foi procurar um aluno negro da psicologia que tava na época começando a fundar o Coletivo Negro”.

Diferentes fatores fazem com que os(as) cotistas interpretem de modo distinto o impacto da universidade em suas vidas, e o etário é um deles. Hoje aos 35 anos, Marcela ingressou na Uerj com idade acima da média do alunado, como cotista de escola pública do curso de direito. Mãe, ela divide o tempo dedicado à universidade com as tarefas de cuidado de seu bebê. A entrevistada ressalta que seu núcleo familiar é composto por mulheres moradoras de Campo Grande, bairro da Zona Oeste do Rio, o qual sempre precisou se organizar para fazer valer os seus direitos, principalmente entre os vizinhos homens, que tendiam a tratar com descaso sua família, liderada pela mãe divorciada. Se desigualdades de gênero já faziam parte de suas preocupações desde cedo, ela só veio a refletir mais detidamente sobre o papel do racismo em sua trajetória de vida na Uerj, por meio da amizade com as colegas cotistas de curso mais jovens que ela, e também moradoras do subúrbio carioca. Em sua avaliação, o engajamento político das colegas tem a ver com “uma questão de geração, né? Porque eu ainda vi o racismo que era velado, inexistente. Eu de criança tenho essa memória de ouvir muito essa fala de: “não, o Brasil é um país miscigenado”.

A construção social da beleza está no centro das reflexões de Dalyla, 22 anos. Isso reforça a tese de que mulheres negras sofrem mais com o racismo ligado a essa construção do que os homens negros (Penha-Lopes, 2007). Enquanto cotista de escola pública do curso de engenharia vinda de Saquarema, cidade da Região dos Lagos do estado do Rio de Janeiro, Dalyla apreendeu o modus operandi dos estigmas raciais que envolvem a estética negra feminina apenas quando chegou à universidade. Ainda que tenha a pele clara, foi também nesse contexto que começou a repensar mais agudamente sua identidade racial, e, pouco a pouco, a valorizá-la: “Quando eu era pequena, tinha muita questão, tipo, do meu cabelo não ser visto como bonito, porque era ‘cabelo de bandido’: “ou tá preso ou tá armado”... Então, eu queria ter o cabelo liso ... É .. e depois, na faculdade, eu comecei a enxergar a beleza do meu cabelo, da minha cor, e também me envolver mais com essas questões, que não são tão fortes ainda na minha cidade”.

Relatos como esses se multiplicam e, se registrados na forma escrita, ganhariam dimensões enciclopédicas. Eles revelam que situações de racismo são um elemento presente para os(as) entrevistados(as), ocorrendo de diferentes formas e em distintas etapas de suas vidas. É também marcante o testemunho acerca do processo de aprendizado social que os(as) levam a compreender a origem e a amplitude do problema. O preparo para ingressar na universidade pela via das cotas, e, acima de tudo, a vida na instituição de ensino superior pós ingresso, contribuem em muito para esse entendimento. É digno de nota o fato de as entrevistas convergirem ao indicar os laços de solidariedade criados entre cotistas como fundamental para essa tomada de consciência.

Somados, esses fatores constituem uma contribuição importante que universidades plurais e inclusivas trazem não apenas para a vida dos(as) cotistas, mas para a sociedade como um todo. Embora a experiência na universidade seja uma etapa passageira em suas trajetórias, ela impacta em uma série de atividades como as laborais, além de impactar de forma direta as relações interpessoais com seus familiares e com os demais grupos sociais com os quais interagem. Por conta disso, não podemos ignorar os efeitos sociais e políticos de disseminação de valores antirracistas produzidos pelas cotas.

BIBLIOGRAFIA

Penha-Lopes, Vânia. Cotas universitárias e identidade racial: o caso dos primeiros cotistas da UERJ. Cadernos Penesb, n. 9, p. 127–155, 2007.

Jefferson Belarmino de Freitas é doutor em sociologia pelo Iesp-Uerj e pesquisador associado ao Gemaa.

João Feres Júnior é cientista político da Uerj e coordenador do Gemaa.

Este texto faz parte da série de publicações no Nexo Políticas Públicas do “Consórcio de Acompanhamento das Ações Afirmativas 2022”, coordenado pelo Núcleo Afro do Cebrap e pelo Gemaa do Iesp-Uerj.

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