“A favela venceu?” ou “Pretos no topo” desde quando?

Filipe Juliano
Qual a relação destes jargões com a história do movimento negro e do antirracismo no Brasil

O debate sobre as atuais condições materiais da população negra, suas chances de vida e acesso à bens e serviços tem mobilizado jovens artistas do funk e do trap, ativistas negros, influencers e outros profissionais. Frases de efeito inundam as plataformas de vídeo e streaming, podcasts e redes sociais, e transbordam para manifestações em formaturas, shows, shoppings. Uns afirmam que os negros continuam na base da hierarquia social, apoiados nos números sobre letalidade policial, encarceramento de jovens negros, e aumento da desigualdade e empobrecimento da população. Outros focam no lado positivo de jovens negros e negras que buscam o sucesso material empreendendo na música e nas redes sociais, além daqueles que estão a terminar a faculdade, buscando se inserir no mercado.

Mas o que os jargões “A favela venceu!” ou “Pretos no topo!”, que ditam as conversas sobre as condições materiais e de inserção da população negra, têm a ver com a história do movimento negro/antirracismo no Brasil?

O movimento negro que se reorganizava em todo o país, e especialmente no Rio de Janeiro, em fins dos anos 1970 e início dos anos 1980 debateu intensamente sobre a ascensão e a mobilidade social, a formação de uma classe média negra, seus comportamentos políticos e culturais. Num primeiro momento, estiveram preocupados com o potencial da pequena classe média negra em organizar-se e levar adiante a bandeira antirracista. Logo depois, as discussões visavam desmistificar um suposto perfil de profissional negro ascendente que virava as costas à comunidade negra e incentivar a organização de iniciativas pró-empreendedorismo negro.

Este debate aconteceu nas cinco edições do Sinba (órgão de divulgação da Sociedade de Intercâmbio Brasil-Áfica, fundada em 1974), publicadas entre 1977 e 1980, e ao menos em duas publicações do Instituto de Pesquisas das Culturas Negras, principal espaço do movimento negro carioca da época, fundado em 1975. Os jornais Sinba, SOS Racismo e Contrastes marcam o início e o fim de um momento paradigmático para o movimento negro – a década de 1980. O primeiro é visto como um jornal que cunhou conceitos e a agenda do movimento, abrindo um período de muita combatividade, ainda sob a repressão da ditadura. O SOS Racismo e o Contrastes, as duas publicações do IPCN, marcam o fim deste período, após o qual o movimento negro passaria por muitas mudanças.

Há muito ainda a se conquistar, mas – dado o desenvolvimento político do antirracismo brasileiro – são inegáveis os avanços que o movimento negro alcançou para a comunidade negra nos últimos 40 anos

O Sinba, que tinha como objetivo maior fazer a crítica do movimento negro e torná-lo um “movimento de massas”, deu grande atenção aos temas da “classe média negra” e sua ascensão: ao todo são 28 textos nas cincos edições. Neles há uma grande mudança entre o primeiro e último número. Opondo-se ao “elitismo” da estratégia de fomentar uma “elite negra”, ele vai de uma crítica acre à esperança de que a “classe média negra”, em ascensão nos anos 1970, fosse a responsável por tornar o movimento negro um movimento de massas na década de 1980.

Esta virada acontece a partir da quarta edição do Sinba no texto da militante Pedrina de Deus. Respondendo ao provocativo artigo intitulado “A omissão da mulher negra” publicado na terceira edição, que reconhecia a “dupla discriminação”, mas recorria à crítica moralista à paquera e “curtição” no movimento negro, Pedrina elucida a articulação entre machismo, racismo e capitalismo. É ela quem reconhece que “uma pequena classe média negra faz suas reivindicações parecerem representativas das mulheres negras” e abre espaço para este segmento se tornar a esperança de massificação do movimento, prevista no artigo da quinta e última edição: “Movimento Negro – Movimento Social”. A classe média negra ao alargar-se e acumular algum poder, criaria as condições para o movimento negro se tornar um movimento de massas, ou na visão dos ativistas um “movimento social de verdade”.

Os jornais do IPCN/SOS Racismo, publicados em maio de 1988 e setembro de 1989, traziam a assinatura do SOS Racismo que era o principal projeto do IPCN desde 1987. O primeiro jornal, sob a rubrica SOS Racismo, trouxe um longo relato autobiográfico de Abdias do Nascimento. Nele, o velho militante afirmava a necessidade de o negro ser autossuficiente economicamente e criar instrumentos para emancipar-se. No “capitalismo selvagem”, enquanto o negro estivesse na periferia da sociedade não conseguiria fazer nada de sério, segundo Abdias. Neste jornal, ainda há a notícia da criação do “SOS Comunidade”, um projeto que oferecia a ajuda do IPCN aos favelados atingidos pelas chuvas de verão de fevereiro de 1988, desmistificando o suposto “elitismo” e “distância” dos movimentos negros da massa negra proletarizada.

O segundo jornal do IPCN, publicado com o nome de Contrastes reúne textos que demonstram a visão dos seus dirigentes sobre a ascensão de profissionais e empresários negros. O texto mais direto foi uma nota escrita pelo sociólogo Marcos Romão na qual, definindo algumas agendas para o movimento, afirma que o “discurso” de que “existem negros lutando pela ascensão individual e negros lutando pela transformação social” era, na verdade, um grande “besteirol” já que não haveriam negros possuidores de capital no Brasil. Definindo o racismo como a despossessão de condições materiais de vida, o movimento deveria focar na falta de “acesso ao trabalho e aos meios de possuir conhecimento tecnológico, para conquistar seu espaço na sociedade”.

Uma direção para esta ação surge em dois textos que são o registro histórico do nascimento das organizações de empreendedorismo negro no Brasil. A primeira é uma entrevista com Jorge Aparecido Monteiro, fundador do CEM-IPDH (Centro de Estudos e Assessoramento aos Empresários – Instituto Palmares de Direitos Humanos) – primeira organização de empreendedorismo negro do Rio – sobre uma pesquisa realizada por ele junto aos seus colegas de Furnas para compreender a experiência negra numa empresa estatal. Esta pesquisa foi o embrião do CEM-IPDH, entre 1989-91, e marca o início do empreendedorismo negro no Brasil que tem o seu último desenvolvimento representado pela Reafro (Rede Brasil Afroempreendedor), criada em 2015. A segunda matéria relata a história da criação do Cace (Centro de Assessoramento e Coordenação Empresarial) por Antonio Roberto Cruz, em São Paulo, organização que, apesar do entusiasmo e visão dos integrantes, teve uma história breve.

É longa a luta dos negros para vencer e chegar ao topo desde a primeira recusa ao racismo e ao escravismo. Muitos dos argumentos atuais sobre a ascensão social dos negros, como vimos, estão remetidos aos históricos debates do movimento negro brasileiro. Tais argumentos não surgiram na década de 1970 e também estão remetidos a momentos anteriores. A “favela venceu?”, ou não, desde então? Certamente há muito ainda a se conquistar, mas – dado o desenvolvimento político do antirracismo brasileiro – são inegáveis os avanços que o movimento negro alcançou para a comunidade negra nos últimos 40 anos.

Filipe Juliano é doutorando em antropologia pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional com o apoio do Brazil LAB da Universidade de Princeton. Mestre em antropologia pela Universidade Federal Fluminense, possui bacharelado e licenciatura em ciências sociais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Atualmente é pesquisador do Núcleo de Pesquisas em Economia e Cultura (Nucec - PPGAS-MN) estudando movimentos de empreendedorismo negro no Brasil.

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