Tensões raciais em cena nos esportes

Maria Júlia Ananias e Paulo César Ramos
Atletas seguem firmes no esforço de fortalecer as lutas sociais ao trazerem à tona o antirracismo como eixo fundamental das mudanças capazes de garantir melhores e mais igualitárias condições para as futuras gerações

Entidades olímpicas tentaram proibir manifestações políticas, mas a Olimpíada de Tóquio 2020 colocou em pauta importantes debates. O judoca argelino Fethi Nourine desistiu de competir para evitar luta contra atleta israelense em demonstração de apoio à causa palestina. Raven Saunders, arremessadora de peso, fez um “X” com os braços acima da cabeça ao receber a medalha de prata, afirmando que o gesto representa a “interseção onde todas as pessoas oprimidas se encontram”. Seleções do futebol feminino se ajoelharam em campo antes das partidas. As jogadoras foram inspiradas por Colin Kaepernick, que em 2016 passou a se ajoelhar durante o hino nacional estadunidense na NFL (liga de futebol americano) afirmando ser incapaz de se levantar pela bandeira de um país que oprime e mata pessoas negras.

Resultado dos protestos que colocam a luta pelas vidas negras na pauta dos meios de comunicação, o debate sobre raça e racismo está passando por uma inflexão, e o mundo dos esportes não fica ileso a esta transformação do entendimento coletivo. As Olimpíadas levantaram a questão do racismo e da racialização da mobilização de categorias que lhe são muito caras – nação e nacionalidade. Vemos conflitos gerados pelos desafios pessoais e relações interpessoais envolvidos nas competições, além da relação que os esportes e esportistas têm com o mundo fora das linhas das quadras, pistas, tatames etc.

Após o assassinato de George Floyd, os EUA tornou-se o epicentro de uma série de manifestações antirracistas transnacionais, causando a maior onda de protestos na história do país, mesmo se comparada ao período mais intenso do Movimento por Direitos Civis, em 1960. Em 1968, os Jogos da Cidade do México, Tommie Smith e John Carlos subiram no pódio dos 200 metros rasos com punhos cerrados e luvas pretas contra a segregação racial.

Os esportes são meio e espaço de expressão e reprodução das desigualdades, e atletas negras e negros do Brasil e do mundo vêm fortalecendo a luta antirracista, pautas no direito à igualdade, à liberdade e à vida

Recentemente, abriu-se um novo período para o ativismo nos esportes, com atletas demandando mudanças por parte das franquias e entidades esportivas. Em apoio ao movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam), a atual geração de atletas negros alinhou-se aos protestos impulsionados em maio de 2020 com astros dos esportes indo às ruas contra o racismo e pelo fim da violência policial.

Equipes da NBA e WNBA, ligas de basquete nos EUA, não entraram em quadra durante algumas rodadas em protesto e homenagem a Jacob Blake, homem negro alvejado sete vezes por policiais na frente de sua esposa e três filhos, ecoando nos campeonatos de futebol, beisebol e hockey no gelo. Naomi Osaka, jovem tenista, disse que não poderia jogar por entender que “como mulher negra, sinto que há questões muito mais importantes que precisam de atenção, em vez de me verem jogar tênis”.

Os boicotes e declarações revelaram como o esporte não está imune às tensões sociais e pode caminhar junto às lutas políticas de seu tempo, sendo um poderoso vetor de visibilidade e debates. Além disso, expressam a capacidade do ativismo negro de se espraiar pela sociedade com a missão de combater a violência racial e difundir a luta por justiça e igualdade.

E o Brasil com isso?

O esporte brasileiro, sobretudo o futebol, ocupa um lugar estratégico no imaginário social, sendo mobilizado na construção do projeto hegemônico de nação. Apesar de clubes terem recusado ou limitado a participação de jogadores negros, durante a ditadura, militares viram no esporte a possibilidade de projetar uma identidade nacional livre de preconeito e discriminação racial.

Atletas de diversas modalidades se posicionaram recentemente sobre questões políticas e denunciaram o racismo que enfrentam cotidianamente. Um momento marcante dessa Olimpíada foi a comemoração de Paulinho, que ao marcar um gol comemorou simulando atirar um arco e flecha, em homenagem ao orixá Oxóssi, com narração de Gustavo Villani dizendo “pra exú aplaudir!” em rede nacional de um país que insiste em propagar ódio contra as religiões de matriz africana. Em entrevista à revista The Players Tribune, o jogador afirmou que se sente responsável por usar sua influência para denunciar as desigualdades sociais e a intolerância religiosa.

A ex-ginasta Daiane dos Santos, relatou situações em que sofreu racismo dentro da seleção olímpica, dizendo que por vezes as pessoas não queriam usar o mesmo banheiro que ela. O também ginasta Ângelo Assumpção, promessa da ginástica brasileira, foi demitido e permanece desempregado após denunciar ofensas racistas de colegas de equipe no Clube Pinheiros, evidenciando a cultura de punição por parte de clubes, empresas e órgãos representativos. Por outro lado, Arthur Nory, que comparou a cor da pele de Ângelo com um saco de lixo, seguiu treinando e pôde participar da Olimpíada de Tóquio.

Essas medidas punitivas não são exclusividade do Brasil. Nourine e seu técnico foram suspensos pela Federação Internacional de Judô por se retirarem da competição. Ainda que tenha se tornado uma importante figura da luta por igualdade racial nos EUA, Kaepernick segue sem jogar desde o final da temporada de 2017, quando iniciou os protestos. Smith e Carlos foram expulsos por usarem a competição para realizar protesto político.

A discriminação racial nos esportes escancara as falhas e perigos de uma suposta identidade nacional homogênea, construída sobre a recusa de encarar as tensões raciais características de países marcados pela colonização e escravização. Isso aponta a urgência de transversalizar as pautas de igualdade social e racial na formação de jovens esportistas brasileiros, que há tempos sofrem com poucos investimentos e políticas públicas.

A chegada de atletas negros ao estrelato conflita com as posições consideradas “inerentes” ao grupo social negro. Por um lado, negras e negros são propagandeados como modelos de ascensão social e mérito, mas não estão imunes à estrutura racial, nem alcançam cargos de liderança e gestão.

Os esportes são meio e espaço de expressão e reprodução das desigualdades, e atletas negras e negros do Brasil e do mundo vêm fortalecendo a luta antirracista, pautas no direito à igualdade, à liberdade e à vida. Com isso, esperamos que os próximos Ângelos, Paulinhos, Daianes e Naomis possam trilhar caminhos livres de discriminação, usufruindo com plenitude da possibilidade de representar seu país em seus esportes.

Maria Júlia Ananias é estudante de ciências sociais na USP e assistente de pesquisa no Projeto Memória e Identidade Afro-Brasileira, parceria entre AfroCebrap (Núcleo de Pesquisa e Formação em Raça, Gênero e Justiça Racial do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), Center for African Studies da Universidade da Pensilvânia e o Arquivo Edgard Leuenroth/Unicamp.

Paulo César Ramos é cientista social, especialista em ciência política, mestre e doutor em sociologia. Seus principais temas de pesquisa são relações raciais, movimentos sociais, violência e juventude. É coordenador do projeto Reconexão Periferias (Fundação Perseu Abramo) e o pesquisador responsável pelo projeto Memória e Identidade Afro-Brasileira, parceria entre AfroCebrap (Núcleo de Pesquisa e Formação em Raça, Gênero e Justiça Racial do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), Center for African Studies da Universidade da Pensilvânia e o Arquivo Edgard Leuenroth/Unicamp.

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