Tem veneno nesse pacote

Teresa Liporace, Janine Coutinho e Rafael Rioja
Pesquisa inédita do Idec identifica a presença de resíduos de agrotóxicos em ultraprocessados

A extensão do uso indiscriminado de agrotóxicos no Brasil não é novidade. Os leitores mais familiarizados com o assunto já devem estar atentos aos recordes de aplicação e liberação de registros de agrotóxicos, da recente flexibilização de normas, da presença de resíduos de agrotóxicos em alimentos in natura, água e solo. O ano de 2020 foi recorde no número de aprovações de agrotóxico no Brasil. Quase um terço dos mais de 3 mil produtos agrotóxicos comercializados no Brasil receberam registro durante 2019 e 2020.

Para além da presença de agrotóxicos em alimentos in natura, nós descobrimos mais uma verdade indigesta. Estes venenos também estão presentes nos UPP (produtos ultraprocessados).

No final de 2019, o Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor) reconhecendo, com base nas evidências científicas, a relação entre o consumo de ultraprocessados, obesidade e doenças crônicas não transmissíveis, se debruçou em buscar, por meio de pesquisas, o potencial cumulativo dos agrotóxicos nos UPP. Partindo do princípio de que os ultraprocessados são compostos em grande parte pelas commodities agrícolas como soja, milho, trigo e cana de açúcar, que por sua vez, recebem a maior parte da aplicação de agrotóxicos no campo, decidimos investigar a presença destes resíduos nos produtos finais encontrados nos supermercados.

Foram selecionados 27 produtos de diferentes marcas, divididos em 8 categorias: refrigerantes, néctares, bebidas de soja, cereais matinais, salgadinhos de pacote, biscoitos de água e sal, biscoitos recheados e pães de trigo. Com exceção das duas primeiras, encontramos resíduos de agrotóxicos em todas as outras 6 categorias. Do total, 59,3% dos produtos apresentaram resíduo de ao menos um agrotóxico, e 51,8% apresentaram resíduos de glifosato e glufosinato, os mais utilizados no Brasil e no mundo.

Ainda que neste grupo de 16 produtos onde encontramos agrotóxicos nenhum tenha ultrapassado os LMRs (limites máximos de resíduos) para os principais ingredientes - culturas de soja, milho, trigo e cana de açúcar - consideramos os achados bastante preocupantes. Primeiramente, os limites estabelecidos pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) são para os alimentos in natura ou minimamente processados, ou seja, o trigo (farinha) e o milho (fubá) por exemplo. O segundo ponto é que mais da metade dos produtos testados continham resíduos de agrotóxicos. Uma terceira consideração, e a mais preocupante de todas, é que em um mesmo produto chegamos a encontrar resíduos de até 8 agrotóxicos distintos. Em princípio, ninguém imaginaria a presença de tantos agrotóxicos em uma bisnaguinha, produto alimentício que muitos pais oferecem a seus filhos diariamente, sem ter a clareza de todos os riscos à saúde. Há que se realizar pesquisas que analisem o impacto na saúde das pessoas da composição perigosa e desconhecida de um coquetel de agrotóxicos nestes produtos.

Os agrotóxicos estão presentes nos produtos ultraprocessados em função da sua aplicação no campo, fruto da expansão de monoculturas, associadas a modelos insustentáveis de produção de alimentos. E, mesmo após longo processo entre a colheita, transporte, processamento industrial intensivo, vida de prateleira nos supermercados, e, finalmente, com a chegada dos pacotes dentro de casa, a população ainda continua exposta aos resíduos de agrotóxicos nos produtos para o consumo.

Os agrotóxicos estão presentes nos produtos ultraprocessados em função da sua aplicação no campo, fruto da expansão de monoculturas, associadas a modelos insustentáveis de produção de alimentos

Precisamos enquadrar os achados à luz da produção e consumo de alimentos na atualidade. As discussões sobre sistemas alimentares saudáveis e sustentáveis ganham corpo no âmbito regional e global, e apesar da complexidade e diversidade que envolve o tema, existe ao menos um consenso: o sistema alimentar hegemônico tem sido incapaz de promover saúde e de respeitar os limites planetários relacionados ao meio ambiente, e precisa de mudanças urgentes e radicais.

Essa constatação vem sendo feita em relatórios e publicações pelas mais respeitadas organizações e institutos. Destacamos uma valiosa contribuição trazida por uma comissão, The Lancet, em 2019, umas das mais renomadas e respeitadas revistas científicas do mundo. O grupo de pesquisadores cunhou o termoSindemia Global” para refletir o momento que vivemos. Ela é desencadeada a partir da junção de três pandemias: obesidade, desnutrição e mudanças climáticas que interagem entre si e se retroalimentam.

Neste momento, você pode estar se perguntando sobre como situações tão distintas, e aparentemente antagônicas, como a falta de acesso a alimentos e o excesso de consumo de produtos não saudáveis, por exemplo, podem coexistir no mesmo espaço e tempo? Ou o que a alimentação tem a ver com mudanças climáticas? Essas fraturas globais aterrissam na nossa realidade e são visíveis. No Brasil de 2021, 9% da população brasileira passa fome, no outro extremo, 26,8% da população adulta está convivendo com a obesidade. Em relação aos impactos ambientais da produção e consumo de alimentos, a agricultura e os usos do solo correspondem por 23% das emissões dos gases de efeito estufa, ocasionados pelo desmatamento, criação animal e uso de químicos como agrotóxicos associados à diminuição da biodiversidade.

Importante destacar que ao trazermos os números, estamos falando de pessoas e de uma sociedade que vem sofrendo as consequências deste modelo de produção e consumo. É nesse ponto que os autores da Sindemia Global fazem um chamado para enfrentarmos de forma estrutural e sistêmica o que chamam de “inércia política”, entendida como o conjunto de produtos e práticas nocivas das indústrias de alimentos, especialmente de agrotóxicos e ultraprocessados, e pela ausência de políticas públicas efetivas que transformem profundamente os sistemas alimentares pensados para a coletividade.

O jargão diz que para problemas complexos não existem soluções simples. E, certamente, diante da magnitude dos desafios, diferentes atores da sociedade podem, e devem, se colocar a serviço das transformações necessárias. Alertamos, no entanto, que visões e práticas reducionistas que tentem desviar a relevância das evidências para tratar da alimentação como mercadoria ou responsabilidades individuais, e não como um direito humano, continuarão a perpetuar as estruturas de um sistema alimentar que gera desigualdades, doenças e agravos ambientais.

Para não corrermos o risco de nos perdermos diante da complexidade, é também importante que tenhamos elementos concretos para analisar as partes. É neste pedaço que o Idec traz uma importante contribuição com os achados de nossa pesquisa. Já temos um vasto e robusto conjunto de evidências demonstrando a associação do consumo de ultraprocessados com obesidade e doenças correlacionadas e, portanto, a sua disseminação como um dos responsáveis pelo comprometimento da saúde. Ao encontrar agrotóxicos nos ultraprocessados, enxergamos mais uma camada que pode sugerir não apenas os impactos à saúde, mas uma relação com um sistema de produção que gera externalidades ambientais a partir do uso indiscriminado de agrotóxicos, se fazendo presente também nesses produtos.

Com estes achados, não temos ainda a dimensão da extensão do problema, mas inquestionavelmente jogamos luz em uma questão que não pode mais ficar escondida dentro dos pacotes. Comecemos por demandar que a Anvisa monitore os resíduos de agrotóxicos em ultraprocessados. A população brasileira tem o direito de saber o que come. Paralelamente, reforçamos a necessidade de uma guinada nas políticas públicas para que promovam sistemas alimentares verdadeiramente saudáveis e sustentáveis

Teresa Liporace é diretora executiva do Idec. Engenheira química (UFRJ), mestre em engenharia de produção com foco em inovação tecnológica e qualidade pela Coppe/UFRJ e especialização em regulação e participação social (George Washington School of Business). Tem ampla experiência no campo das organizações da sociedade civil no Brasil, com foco na elaboração e monitoramento de políticas públicas.É pesquisadora convidada da Cátedra J. Castro/USP (Cátedra Josué de Castro de Sistemas Alimentares Saudáveis e Sustentáveis).

Janine Giuberti Coutinho é coordenadora do Programa de Alimentação Saudável e Sustentável no Idec. Sanitarista. Mestre e doutora em nutrição humana. Ativista pela alimentação saudável e saúde universal. Membro da Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável. É pesquisadora convidada da Cátedra J. Castro/USP (Cátedra Josué de Castro de Sistemas Alimentares Saudáveis e Sustentáveis).

Rafael Rioja Arantes é analista em regulação do Programa de Alimentação Saudável e Sustentável no Idec. Mestrando em nutrição em saúde pública (USP) e membro do Nupens (FSP/USP). É ativista pelo movimento Slow Food Brasil e Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável. É pesquisador convidado da Cátedra J. Castro/USP (Cátedra Josué de Castro de Sistemas Alimentares Saudáveis e Sustentáveis).

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