Tapa do dia: sem biodiversidade não há negócios

Rafael Loyola
Com eventos climáticos extremos cada vez mais comuns e uma crise global de saúde, o tapa na cara das empresas chegou forte em 2021. O resumo da ópera: não dá mais para fingir que não é com você

Este ano, relatórios de alta credibilidade foram publicados pelas Nações Unidas (Making Piece with Nature), governo do Reino Unido (The Economics of Biodiversity: the Dasgupta Review) e Instituto Swiss Re (The Economics of Climate Change: no action not an option). Todos são unânimes: os riscos ambientais devem ser encarados urgentemente, pois se tornaram altos demais para a viabilidade dos negócios.

Muito da literatura sobre biodiversidade e negócios está centrada no relacionamento tóxico entre esses dois mundos. Globalmente, existe regramento para mediar esse conflito: leis que obrigam que empresas avaliem e monitorem seu impacto na natureza. Contudo, pouco se elabora sobre a dependência que os negócios têm da biodiversidade.

Ferramentas adequadas para medir essa dependência são fundamentais porque permitem que empresas estimem o quanto seu lucro e outros múltiplos estão, de fato, atrelados à natureza. Elas também promovem a responsabilidade pública, informando agências reguladoras e orientando investimentos financeiros sobre os riscos ambientais associados aos negócios. Aliás, hoje em dia esses riscos não são apenas materiais, mas também de reputação. Estimar, controlar e eliminar esses riscos fará, cada vez mais, parte do planejamento estratégico dos negócios para desenvolver um “business case” de sucesso.

Nessa conversa toda, três letras têm sacudido o mundo corporativo: ESG. O assunto está “bombando” globalmente e no Brasil também. ESG é uma agenda que busca integrar critérios ambientais (E de environmental, em inglês), sociais (S) e de governança corporativa (G) em avaliações sobre a pertinência e risco de investimento em negócios.

Não é nada realmente novo. Isso já é discutido há mais de 20 anos e é um desdobramento de conceitos como “resultado triplo” (tripple bottom line) - planeta, pessoas e “profit” (lucro, em inglês – e “responsabilidade social empresarial ”. Mas, especialmente com os impactos da pandemia, esses conceitos alinharam-se à ideia do capitalismo consciente e da inclusão de “stakeholders” na visão estratégica dos negócios.

A agenda ESG tem reforçado a ideia de que empresas sem comprometimento socioambiental e sem cuidado em sua governança sairão de campo no futuro e serão substituídas por aquelas com a sustentabilidade incorporada em seu DNA. Entretanto, há um longo caminho para essa troca de jogadores.

Sobretudo no Brasil, o grande gargalo está no “G”. Muitos negócios ainda não entenderam que o “E” deve ser algo transversal. Políticas e práticas de sustentabilidade não podem ficar restritas a um comitê ou departamento. Elas devem permear todos os setores da empresa, da liderança à produção. Enquanto a sustentabilidade não for incorporada na governança das empresas, será difícil convencer alguém de que ela realmente tem uma cultura ESG.

A agenda ESG tem reforçado a ideia de que empresas sem comprometimento socioambiental e sem cuidado em sua governança sairão de campo no futuro e serão substituídas por aquelas com a sustentabilidade incorporada em seu DNA

Outro problema é o “ESG-whashing”, ou seja, uma imensa incoerência entre o falar e o fazer. O caso recente e mais emblemático é de uma grande empresa automotiva que criou um software que mantinha os níveis de poluição dos veículos dentro de limites legais, mas apenas durante os testes. No asfalto, a história era outra. O risco reputacional desses comportamentos é cada vez maior e o setor privado tem se dado conta disso, a duras penas.

Associado à propaganda enganosa, um problema real vem sendo discutido: quais as métricas e indicadores padronizados que podem permitir comparações justas entre diferentes negócios? Onde exatamente o impacto positivo para o ambiente, sociedade e governança deve ser medido?

É certo que critérios, métricas e indicadores validados e padronizados facilitam uma governança ambiental eficiente, transparente e justa. Além disso, para saber se um negócio tem impacto positivo, a avaliação desse impacto deveria estar relacionada a sua atividade fim. Quer um exemplo? Uma empresa produtora de commodities – por exemplo, minério – terá muita dificuldade em se encaixar em um mundo ESG, por razões óbvias: sua atividade fim é extremamente impactante para o meio ambiente. Seguir a legislação, compensar seus impactos e fazer programas de recuperação não seriam suficientes, pois não trariam adicionalidade.

Essa discussão sobre o impacto positivo adicional e associado à atividade fim do negócio visa desestimular ações pontuais em ESG que possam ser “vendidas” como impacto positivo. Existem iniciativas que vêm discutindo a padronização de indicadores e critérios e como eles devem ser reportados. Os resultados dessas discussões vêm sendo publicados em documentos como o Measuring Stakeholder Capitalism, proposto pelo Fórum Econômico Mundial em parceria com grandes empresas de auditoria e o Taxonomy Technical Report, desenvolvido por países da comunidade europeia. Ambos os documentos visam estipular boas regras de conservação ambiental, transparência contábil, controle de poluição e de relatoria em seus relatórios anuais e de sustentabilidade.

Finalmente, há bons casos de sucesso – ou “benchmarks”, em linguagem corporativa – que demonstram que investir em uma cultura e estrutura ESG é um bom negócio para empresas, principalmente por se alinharem ao alcance dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Alguns setores, como o agronegócio brasileiro têm a faca e o queijo na mão. Relatar esses "benchmarks" pode ser o objeto de uma próxima coluna. Em última instância, daqui a poucos anos, o custo de oportunidade para quem não se adequar a essa nova realidade será tão alto que a transição se tornará praticamente impossível.

Rafael Loyola é biólogo, doutor em ecologia. É diretor científico da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável, professor da Universidade Federal de Goiás e membro da Academia Brasileira de Ciências.

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