Restauração ecológica com fins econômicos: benefícios para a natureza e para as pessoas

Nino Tavares Amazonas
O Brasil pode liderar o movimento mundial de restauração florestal e conquistar, além de ganhos ambientais, retorno econômico e até garantir lucro

A substituição de áreas naturais por lavouras e pastagens trouxe muitas riquezas monetárias ao Brasil, às custas de desequilíbrio ambiental e ameaças à biodiversidade. Além do seu valor intrínseco, a diversidade biológica e um meio ambiente equilibrado também oferecem benefícios que ainda estamos aprendendo a valorar, a exemplo dos serviços ecossistêmicos. Correr atrás do prejuízo e reparar os danos, tornou-se mandatório e uma demanda global. A Organização das Nações Unidas decretou o período de 2021 a 2030 como a Década da Restauração de Ecossistemas, além disso, compromissos de restauração ecológica vêm sendo assumidos por diversos países para recuperar seus ecossistemas degradados. Restaurar um ecossistema degradado é atuar para promover e acelerar os processos naturais da sucessão secundária com a intenção de ter de volta, na maior extensão possível, sua estrutura, seu funcionamento, sua composição de espécies e sua diversidade genética.

Apesar de ser necessário reverter o quadro de degradação ambiental, promover transformações no uso da terra demanda tempo, esforço, energia e recursos. Os custos muitas vezes estão entre os maiores obstáculos ao alcance da restauração em larga escala. Nos casos mais simples, o simples isolamento (proteção) da área é suficiente para promover a regeneração natural e deixar a natureza seguir seu curso. Entretanto, nos casos mais complicados, as operações de cercamento, preparo da área, plantio e manutenção das mudas até que uma floresta jovem esteja formada chegam a custar dezenas de milhares de reais por hectare.

A restauração é vista por muitos proprietários como um ônus sem qualquer bônus, por geralmente não ser associada a retorno econômico diretamente proveniente da área, mas também por não considerarem os retornos indiretos e de longo prazo, como os serviços ecossistêmicos. Uma das formas de se contornar os altos custos da restauração florestal é a exploração econômica de áreas, seja visando lucrar ou apenas cobrir parte ou até a totalidade dos custos de implantação. Parece utópico à primeira vista, mas é possível obter retorno econômico de áreas em restauração.

A restauração é vista por muitos proprietários como um ônus sem qualquer bônus, por geralmente não ser associada a retorno econômico diretamente proveniente da área, mas também por não considerarem os retornos indiretos e de longo prazo, como os serviços ecossistêmicos

Dentro do que é permitido pela legislação brasileira, e guardadas as devidas diferenças entre Áreas de Preservação Permanente e áreas de Reserva Legal e entre grandes e pequenas propriedades rurais, é possível produzir cultivares agrícolas e madeira, comercializar esses produtos e obter retorno econômico direto das áreas de restauração. Em curto prazo, as cultivares agrícolas podem ser produzidas em sistemas agroflorestais, plantadas nas entrelinhas de mudas de árvores nativas durante os primeiros anos, enquanto as árvores ainda não tiverem sombreado toda a área. Em médio e longo prazos, é possível explorar economicamente a madeira de espécies nativas plantadas e de espécies de árvores exóticas em consórcio com as nativas.

O cultivo intercalado de árvores exóticas e árvores nativas para a recuperação de áreas degradadas foi um dos pontos polêmicos na nova Lei de Proteção da Vegetação Nativa (lei federal n. 12.651/12). Essa proposta foi posta à prova por algumas iniciativas, dentre elas, projetos de pesquisa da Universidade de São Paulo patrocinado pelo Programa BIOTA da FAPESP, que investigaram plantios consorciados de mudas de eucalipto e árvores nativas da Mata Atlântica para a restauração de áreas de Reserva Legal. Nesses sistemas, as mudas de eucalipto juntamente com uma alta diversidade de árvores nativas são todas plantadas ao mesmo tempo. O eucalipto cresce mais rapidamente, enquanto as vizinhas nativas crescem em ritmo mais lento, com grande variação da taxa de crescimento entre as espécies. A proposta é a produção da madeira do eucalipto por uma ou algumas rotações, até que o retorno econômico desejado seja obtido e as nativas já tenham crescido o suficiente. Após a última rotação, os eucaliptos devem dar espaço para novas mudas de nativas, sejam elas provenientes da regeneração natural ou plantadas.

As pesquisas realizadas apontam que o plantio consorciado de eucalipto e espécies nativas da Mata Atlântica é viável tanto do ponto de vista silvicultural como também ecológico e econômico. A presença do eucalipto não afeta de maneira significativa a sobrevivência das mudas de nativas, mas reduz o crescimento de algumas espécies. A aposta é de que o atraso no crescimento de algumas árvores nativas seja compensado por uma aceleração de crescimento após a colheita do eucalipto.

O retorno econômico desses plantios consorciados depende de vários fatores, como a espécie plantada para obtenção de madeira (a exemplo das muitas espécies, híbridos, variedades e clones de eucalipto disponíveis no Brasil), o uso pretendido da madeira, a distância até o mercado consumidor, as condições de sítio, o manejo adequado etc. Segundo estimativas, o retorno econômico obtido com a exploração da madeira do eucalipto pode cobrir boa parte dos custos de implantação da área de restauração com até quatro rotações dentro do período de 20 anos, o que corresponde ao prazo para o proprietário rural restaurar a Reserva Legal. Nos cenários mais promissores e em sítios onde o eucalipto atinge alta produtividade, é possível pagar por toda a restauração e ainda obter lucro.

Além do eucalipto, outras espécies exóticas ou nativas podem desempenhar esse papel de espécie pioneira comercial, funcionando como “carro-chefe” do retorno econômico nas áreas de restauração e, além da madeira, o retorno econômico pode vir de outros produtos madeireiros e não-madeireiros, mas tudo isso ainda precisa ser mais bem estudado. O fato é que restaurar áreas degradadas é urgente e os custos podem ser muito altos (pelo menos, muito mais altos do que os proprietários das terras gostariam que fossem) e precisamos encontrar alternativas que viabilizem a restauração florestal em larga escala no Brasil e no mundo. Muitas espécies podem ser utilizadas temporariamente para esse fim, lembrando que o objetivo final é a restauração ecológica que, por sua vez, é uma ferramenta para a conservação da natureza. Em resumo: 1) é possível obter retorno econômico em áreas de restauração florestal; 2) se forem utilizadas espécies exóticas em consórcio com nativas, o ideal é que a exótica esteja presente no sistema apenas por uma ou algumas rotações; e, 3) após a última colheita da espécie exótica, a floresta deve ser composta apenas por espécies nativas em alta diversidade.

BIBLIOGRAFIA

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BRANCALION, PEDRO H.S.; AMAZONAS, NINO T.; CHAZDON, ROBIN L.; VAN MELIS, JULIANO; RODRIGUES, RICARDO R.; SILVA, CARINA C.; SORRINI, TAÍSI B.; HOLL, KAREN D. Exotic eucalypts: from demonized trees to allies of tropical forest restoration? JOURNAL OF APPLIED ECOLOGY, v. 00, p. 1-12, 2019.

BRASIL. Lei n. 12.651, de 25 de maio de 2012. Dispõe sobre a proteção da vegetação nativa; altera as Leis ns. 6.938, de 31 de agosto de 1981, 9.393, de 19 de dezembro de 1996, e 11.428, de 22 de dezembro de 2006; revoga as Leis ns. 4.771, de 15 de setembro de 1965, e 7.754, de 14 de abril de 1989, e a Medida Provisória n. 2.166-67, de 24 de agosto de 2001; e dá outras providências. Diário Oficial da União, 2012.

Nino Tavares Amazonas é biólogo (UFPB), mestre e doutor em recursos florestais (USP/ESALQ), especializado em restauração ecológica de florestas tropicais; membro da Sociedade Brasileira de Restauração Ecológica; e sócio fundador da consultoria MN Socioflorestal.

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