Por que os bolsonaristas fiéis não abandonam o capitão

Caio Barbosa
Três pilares sustentam o apoio mais convicto: o militarismo, o antipetismo e o conservadorismo moral. Já a corrupção não é uma pauta decisiva

A pesquisa Datafolha realizada nos dias 7 e 8 de julho demonstra que Bolsonaro atingiu o seu nível mais alto de reprovação: 51%. Apesar do avanço da Comissão Parlamentar de Inquérito em revelar o descaso do governo federal ao lidar com a pandemia, a sua avaliação positiva se manteve estável em 24%, embora seja também o índice mais baixo registrado pelo instituto. Considerando a quantidade de infortúnios, como o dólar acima de R$ 5,00 reais, inflação alta, desemprego em alta, e as mais de 500 mil mortes por covid-19, chega a ser surpreendente que Bolsonaro ainda mantenha índices de apoio acima de 20%.

O instituto ainda revela em quais setores da população Bolsonaro retém mais apoio. O presidente é mais bem avaliado, com respostas de ótimo/bom, entre homens (28%), entre os que se declaram como brancos (31%), entre os mais velhos (32% entre aqueles com mais de 60 anos), entre os mais ricos (34% entre quem recebe de 5 a 10 salários mínimos, e 32% entre quem recebe acima de 10 salários mínimos), entre moradores das regiões Sul (30%) e Centro-Oeste/Norte (34%), entre evangélicos (34%) e entre empresários (49%).

Ainda de acordo com o Datafolha, 15% do eleitorado declara “confiar sempre” em Bolsonaro, grupo que podemos chamar de “núcleo duro” de apoio ao governo – e um dos focos da minha pesquisa de doutorado, na qual realizei entrevistas semiestruturadas com bolsonaristas mais convictos ao longo dos anos de 2019 e 2020. Não significa que essas pessoas pensam que as coisas estão boas no país – não estão, elas reconhecem. No entanto, o culpado é sempre o outro: é o legado do PT, que quebrou o país; é a mídia, que desinforma; são o Supremo Tribunal Federal e o Congresso Nacional, que não deixam o presidente governar; é a pandemia, que interrompeu a retomada da economia promovida por Paulo Guedes; ou é todo mundo que simplesmente torce contra. Como dizem muitos bolsonaristas entrevistados: “o governo é bom (e, por vezes, até mesmo regular); só não é ótimo porque não o deixam governar”.

Se o fim da era Bolsonaro é inevitável, de uma forma ou de outra, a sua ascensão marcou o fracasso da Nova República em afastar definitivamente os fantasmas do autoritarismo e do militarismo da política brasileira

Esse eleitorado fiel surge de um reencontro da direita com si mesma. Diferentemente da “direita envergonhada” do final dos anos 1980 – reflexo do fim do regime militar – a direita que chegou a 2018 retomou o orgulho de ser de direita – entendida pelos seus adeptos como ser liberal na economia e conservador nos costumes. Sentindo-se alijado anteriormente da disputa política – polarizada entre PT e PSDB desde 1994 –, esse eleitorado encontrou em Bolsonaro o seu legítimo representante, como não encontrava há muito tempo.

Em minha pesquisa etnográfica realizada em São Paulo, frequentando manifestações bolsonaristas em 2019, o perfil mais comum dos manifestantes confirmava as pesquisas quantitativas: homem, branco, mais velho e de renda média familiar de cinco salários mínimos ou mais. Posteriormente, realizando as entrevistas com apoiadores do presidente, pudemos entender melhor o que motivou esses eleitores a depositar suas fichas no ex-capitão do Exército.

Encontramos, no geral, três pilares que sustentam a motivação dos bolsonaristas. O primeiro pilar é o militarismo, pois enxergam a ascensão de Bolsonaro como uma espécie de retorno dos militares, seja pela sua relação com o Exército, seja pela participação dos mesmos no governo. Isso significa também que eles possuem uma visão positiva do regime militar de 1964-1985, tempo no qual, de acordo com eles, havia “ordem”, “patriotismo”, “respeito”. O segundo é o antipetismo, cujo discurso oscila desde um argumento moralista pela luta contra a corrupção, passando pela crítica à política econômica e social dos governos petistas por ser demasiado assistencialista, até a completa aversão à qualquer ideia, figura ou grupo que venha do que se entende por esquerda (o que inclui setores como a mídia, intelectuais, artistas, etc), em uma reedição do histórico anticomunismo, agora repaginado pelo medo de “Venezuelização” do Brasil. Por fim, o terceiro pilar é o conservadorismo moral, que se manifesta como uma reação ao avanço das lutas feministas, do movimento negro – em particular, em oposição a cotas para afrodescendentes – e, especialmente, do movimento LGBTQIA+, justificada aqui na “defesa da família”, o que tem apelo principalmente entre os eleitores mais religiosos, em particular os evangélicos.

Considerando essas questões, não é surpresa que os bolsonaristas se mantenham satisfeitos: recorde de militares no governo; retórica antipetista afiada, colocando-se como o último bastião na defesa contra o retorno de Lula ao poder; e discurso sempre conservador, religioso, começando pelo bordão: “Deus acima de todos”. Alguém pode se perguntar sobre as notícias de corrupção no governo; porém, a verdade é que a corrupção – apesar de ser a base do argumento moral contra o PT – não é realmente uma pauta central para os bolsonaristas mais convictos. Notícias de corrupção envolvendo o governo ou os filhos do presidente são rapidamente minimizadas com argumentos como “um pouco de corrupção sempre vai ter” ou “eu votei no pai, não nos filhos”.

Apesar da popularidade em queda, Bolsonaro dificilmente cairá a índices de um dígito como Dilma Rousseff e Michel Temer obtiveram. Se ele conseguir superar este ano e recuperar parte de seu apoio para em torno de um terço do eleitorado, isso significa que seguirá competitivo para a eleição de 2022. Por outro lado, caso sofra impeachment, se torne inelegível pelo Tribunal Superior Eleitoral ou simplesmente seja derrotado em 2022, é de se esperar que ele e seus apoiadores tentem algo similar – ou pior – ao que Trump tentou com a invasão do Capitólio no dia 6 de janeiro deste ano.

Se o fim da era Bolsonaro é inevitável, de uma forma ou de outra, a sua ascensão marcou o fracasso da Nova República em afastar definitivamente os fantasmas do autoritarismo e do militarismo da política brasileira. Isso se deve em parte aos efeitos da anistia que evitou a punição de militares por seus crimes durante o regime ditatorial, o que deu passe livre a Bolsonaro – e tantos outros – para louvar publicamente os horrores daquele período. Os bolsonaristas convictos seguirão acreditando que o governo Bolsonaro tem tudo para dar certo, mesmo que não dê, pois querem acreditar nisso. Sem abandonar o barco, seguirão apoiando o seu capitão, pelo menos até o apagar das luzes. A pergunta que fica é como lidaremos quando este momento chegar: aprenderemos a lição e passaremos a história a limpo desta vez, ou jogaremos panos quentes enquanto aguardamos – novamente – o futuro repetir o passado?

Caio Barbosa é doutorando em ciência política pela Universidade de São Paulo e pesquisador visitante no Department of Government da Harvard University. Atualmente, pesquisa o bolsonarismo e o ressurgimento do populismo de direita no Brasil.

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