Os Campos Sulinos: conservar para produzir e produzir conservando

Gerhard Ernst Overbeck, Filipe Ferreira da Silveira e Luciana da Silva Menezes
Economia, sociedade e meio ambiente são os três pilares da sustentabilidade. A pecuária extensiva nos Campos Sulinos é um modelo de produção sustentável, mas a rápida conversão dos ecossistemas naturais na região em outros usos compromete este potencial

No município de Quaraí, no bioma Pampa, encontramos, no âmbito de um projeto de pesquisa, o recorde de 56 espécies de plantas em um único metro quadrado. A descoberta científica revela que o metro quadrado mais rico em plantas no Brasil pode estar localizado na região dos Campos Sulinos. Num primeiro olhar, o dado talvez possa surpreender: ainda que o Brasil seja o país mais biodiverso do mundo, para muitos essa biodiversidade é associada aos ambientes florestais. No entanto – e não questionando a enorme relevância das florestas tropicais com sua biodiversidade e seu papel importantíssimo para o clima global – os ecossistemas abertos do país também possuem biodiversidade alta, singular, e não menos importante.

É sabido que as condições de clima e de solo são fatores-chave para o desenvolvimento dos diferentes ecossistemas. No caso dos campos e savanas, existe um outro fator que interage com estes primeiros: estes sistemas evoluíram sob e são mantidos por distúrbios – termo utilizado por ecólogos para processos como o fogo e o pastejo que ocorrem de forma esporádica ou constante. Ambos possuem importante papel em reduzir a biomassa das plantas dominantes (na grande maioria plantas perenes que logo recuperam suas estruturas), assim possibilitando a coexistência de muitas espécies, bem como gerando heterogeneidade de habitat. Se numa floresta tropical o fogo e o gado geralmente são considerados fatores que causam degradação, nos ecossistemas abertos como as savanas do Cerrado ou os Campos Sulinos esses fatores são, de fato, necessários para a manutenção das características ecológicas e a biodiversidade típica destes sistemas. É na ausência destes “distúrbios” que o ecossistema se degrada.

Na região dos Campos Sulinos - a região campestre dos três estados do sul do Brasil - , os grandes herbívoros nativos foram extintos há mais de 10.000 anos e o fogo não possui grande relevância nas atuais condições climáticas. Ainda assim, as características ecológicas das plantas, em função do seu histórico evolutivo, e o alto valor forrageiro da vegetação, junto com o clima favorável, fazem com que os campos da região possuam uma grande vocação para servir de base para o pastoreio extensivo.

Com base no uso sustentável do campo nativo, a conservação ambiental e a produção pecuária podem ser aliados nos Campos Sulinos

Em oposição a muitas outras regiões do Brasil, onde o gado é criado em pasto plantado, no Sul do país, é o campo nativo que é a base para a pecuária de corte. Com isso, temos, de fato, uma “economia verde” onde se pode produzir de maneira sustentável, conservando os recursos naturais através do uso humano. E mais: a carne proveniente destes sistemas de pecuária extensiva, com campo nativo como base da alimentação, é mais saudável (e, diga-se de passagem, mais saborosa) do que a carne produzida de outras formas. Ao mesmo tempo, este uso da terra é uma prática secular que está na base da cultura da região e evidencia a estreita relação entre o homem e a natureza. A figura do gaúcho nasceu nos ecossistemas campestres e até hoje é emblemática para o sul do Brasil.

Em tempos de preocupação global com a mudança climática parece então lógico concentrar a produção de carne nas regiões onde ela é sustentável em termos ecológicos - como nos Campos Sulinos, onde - produzindo no campo nativo - não há risco de desmatamento para a produção pecuária. Hoje, estes riscos ecológicos associados à produção podem ser mapeados e divulgados, como por exemplo em estudo publicado, em 2020, na revista científica PNAS, editada pela Academia de Ciências dos Estados Unidos, se tornando, dessa maneira, informações importantes para embasar decisões no comércio internacional onde a sustentabilidade ambiental é cada vez mais importante. No entanto, os dados do projeto MapBiomas nos alertam sobre a rápida perda dos campos nativos da região nos últimos anos, consequência da transformação em áreas de lavoura, principalmente para a produção de grãos e plantio de árvores exóticas. Somente no bioma Pampa, perdemos 29% dos ecossistemas campestres no período de 1985 e 2019, com um aumento grande nos anos mais recentes. Em 2020, a perda aumentou 99% em relação ao ano anterior. Mas o que perdemos com essa transformação dos campos? Obviamente, perdemos biodiversidade nativa na escala local ou regional. Mas perdemos mais do que isso: a transformação em escala de paisagem, sem a manutenção de remanescentes de ecossistemas nativos, os muitos serviços ecossistêmicos que os Campos Sulinos fornecem também são perdidos.

A vegetação nativa serve como habitat para polinizadores de culturas agrícolas ou para predadores de pragas dessas culturas, bem como para muitas outras espécies de animais típicos do sul do país. Os ecossistemas naturais possuem papel importante nos ciclos hidrológicos, permitindo a infiltração de água no solo e assim contribuindo à recarga dos aquíferos. Além disso, a vegetação campestre protege o solo da erosão e, quando manejada de forma adequada, pode resultar no incremento de carbono no solo, um tema de extrema relevância na atual situação de mudanças climáticas. E, por fim, as paisagens campestres do Sul são também a base para o turismo rural e ecológico e a cultura gaúcha.

Ao converter os campos para outros usos, pode-se aumentar o ganho econômico a partir dessas áreas, ao menos por alguns anos – dependendo do mercado, obviamente. Mas com a perda dos outros serviços, a funcionalidade da paisagem como um todo fica reduzida, o que pode deixá-la, juntamente com os seus potenciais de uso, mais suscetível às mudanças globais. Pior ainda, as técnicas de restauração ecológica dos campos nativos da região Sul ainda são muito incipientes uma vez que, até o momento, não sabemos como recuperar estes ecossistemas.

Com base no uso sustentável do campo nativo, a conservação ambiental e a produção pecuária podem ser aliados nos Campos Sulinos. No entanto, o pouco reconhecimento e valorização deste grande potencial constitui uma grande lacuna considerando a necessidade de mitigação e adaptação frente às mudanças climáticas e a reconhecida necessidade de um desenvolvimento mais sustentável.

Precisamos de políticas públicas que incentivem a manutenção dos campos nativos e apoiem o produtor rural que os mantêm, bem como fortalecem o desenvolvimento de estratégias e ações de restauração de áreas já degradadas. A década de 2021-2030 foi declarada a “Década da restauração dos ecossistemas" pela ONU, o que ressalta a importância de ecossistemas intactos e dos seus múltiplos benefícios para a sociedade, no mundo inteiro. A melhor estratégia, para além de não perder mais áreas nativas, é valorizar os campos e os serviços e produtos fornecidos por eles. Com isso, não só ganharão a biodiversidade e o produtor, mas a sociedade como um todo.

Gerhard Ernst Overbeck é engenheiro em planejamento ambiental e doutor em ecologia. Professor no Instituto de Biociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Realiza pesquisa sobre conservação e restauração da biodiversidade, com foco nos Campos Sulinos. Membro do Conselho Científico da BPBES.

Filipe Ferreira da Silveira é biólogo e mestrando do PPG-Botânica da UFRGS. Desenvolve pesquisa avaliando ambientes abertos do Parque Nacional da Lagoa do Peixe. Tem interesses para além da pesquisa, como a utilização de mídias digitais para divulgação científica e educação.

Luciana da Silva Menezes é bióloga com mestrado em ecologia e doutorado em botânica. Desenvolve pesquisa sobre a biodiversidade da vegetação campestre nos Campos Sulinos desde 2012. Tem especial interesse em ecologia de comunidades e na compreensão dos processos que moldam a diversidade de espécies.

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