Onde moram os estudantes cotistas e não cotistas da Uerj em 2020?

Filipe de Oliveira Peixoto e Luiz Augusto Campos
Cotas trazem alunos de regiões urbanas diferentes da residência de alunos não cotistas, e quem é beneficiado pelas cotas raciais e pelas da rede pública não provém exatamente das mesmas regiões

O Brasil viveu um período de grandes transformações no acesso ao ensino superior nos últimos 20 anos. Estas foram promovidas não apenas por políticas públicas específicas, mas também por mudanças estruturais mais amplas. Entre as universidades públicas, a Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) foi um dos espaços precursores destas transformações. Além do seu foco histórico em cursos noturnos, a universidade foi pioneira na implementação da política de ação afirmativa. Por isso, há um interesse particular em avaliar os resultados do projeto de democratização nesta universidade. Outro ponto marcante da história da Uerj, por sua vez, se refere à localização de seus campi, espalhados por regiões suburbanas da cidade e zona metropolitana do Rio de Janeiro. Resta saber como essas características interagem e se tornam a universidade mais acessível a estudantes oriundos de bairros mais pobres ou menos centrais da cidade e do estado do Rio de Janeiro, objeto deste texto.

Para tal, podemos dividir o Estado do Rio de Janeiro em três zonas com populações comparáveis – a capital, o entorno metropolitano, e o interior –, e opor o peso de cada uma destas zonas na população estadual com sua representação no corpo discente dos cursos presenciais da Uerj em 2020. Conforme apresentado no gráfico a seguir, a cidade do Rio de Janeiro é particularmente sobrerrepresentada dentro da universidade, ao passo que o interior do estado é particularmente sub-representado. Este retrato muda pouco independente de considerarmos apenas os alunos cotistas, ou apenas os alunos não cotistas. Há uma diferença mais significativa, entretanto, na participação de alunos da região metropolitana do Rio de Janeiro – a chamada Baixada Fluminense –, cuja representação no corpo discente presencial da Uerj é um pouco superior à sua proporção na população do estado quando consideramos apenas os alunos cotistas raciais. Este aspecto é tanto mais relevante uma vez que diferencia o grupo de alunos cotistas raciais daqueles oriundos de escolas da rede pública.

gráfico de barras mostra porcentagem de residentes de quatro regiões (rio de janeiro capital, região metropolitana do rio de janeiro, interior do rio de janeiro e resto do brasil) e sua distribuição na população, no alunado total, entre não cotistas, entre cotistas da rede pública, e cotistas racial

É sabido, entretanto, que a cidade do Rio de Janeiro é extremamente desigual, e a distribuição do alunado da Uerj dentro dela tampouco é homogênea. Em termos das grandes regiões da cidade, em relação ao número de matrículas presenciais na Uerj, verifica-se uma sobrerrepresentação da zona norte – em especial da Grande Tijuca –, enquanto a zona oeste é a única macrorregião propriamente sub-representada. De fato, a Grande Tijuca (Regiões Administrativas da Tijuca e de Vila Isabel) é o local de moradia de 18,9% dos alunos presenciais da Uerj, enquanto apenas 5,6% da população carioca ali reside; por outro lado, a Zona Oeste Continental (salvo a Baixada de Jacarepaguá) abarca 27,2% da população da cidade, mas apenas 12,7% do alunado da Uerj.

Tomando as regiões da cidade em que residem os estudantes presenciais da universidade, evidencia-se uma realidade de grande desigualdade: quando comparamos a proporção do alunado da Uerj que vive em cada uma das regiões administrativas da capital com a proporção da população da cidade que vive nestes mesmos territórios, vemos que há territórios sobre e sub representados na Uerj. A título de exemplo, a probabilidade de um morador do Centro estar cursando a Uerj em 2020 é quatro vezes maior do que a probabilidade equivalente para um morador de Bangu.

Embora novas pesquisas sobre o cruzamento entre classe, raça e localização dos universitários sejam necessárias, já é possível demonstrar a importância dessa dimensão geográfica para uma melhor compreensão da democratização do ensino superior brasileiro

Este mesmo resultado aparece se refinamos esta comparação: olhando não para as grandes áreas de planejamento, mas para as 29 regiões administrativas da cidade do Rio de Janeiro, encontramos que as cinco zonas mais sobrerrepresentadas são as regiões 09 (Vila Isabel), 08 (Tijuca), 02 (Centro), 13 (Méier) e 10 (Ramos); ao passo que as mais sub-representadas seriam as regiões 29 (Complexo do Alemão), 27 (Rocinha), 30 (Maré), 26 (Guaratiba) e 19 (Santa Cruz). Podemos repetir este exercício, feito para todos os alunos, apenas para grupos específicos (gráficos a seguir). Neste caso, colore-se de verde todas as RAs (Regiões Administrativas) sobrerrepresentadas no corpo de alunos não cotistas; entretanto, representa-se a distribuição espacial dos alunos cotistas, separando no primeiro gráfico apenas os cotistas raciais e, no segundo, os cotistas de escola pública.

Gráfico de barras mostra sobrepresentação e subrepresentação dos alunos não cotistas por região administrativa do rio de janeiro
Gráfico de barras mostra sobrepresentação e subrepresentação dos alunos não cotistas por região administrativa do rio de janeiro

Mesmo com este exercício relativamente simples, podemos notar que as regiões sub (à esquerda da linha pontilhada) e sobre (à direita da mesma linha) representadas entre o alunado cotista (racial ou de rede pública) não coincidem totalmente nem entre si, nem com as regiões sobrerrepresentadas entre o alunado não cotista. Isto quer dizer que as cotas estão trazendo para a universidade alunos oriundos de regiões urbanas diferentes daquelas em que residem os alunos não cotistas, e, da mesma forma, que os alunos beneficiados pelas cotas raciais e de rede pública não provém completamente das mesmas regiões da metrópole.

Além disso, podemos olhar a distribuição espacial dos alunos matriculados em cursos presenciais da Uerj em 2020 de forma ainda mais desagregada: a partir de seus endereços. Desta forma, podemos ver também a importância da proximidade com o campus universitário para o acesso ao ensino superior público. No mapa a seguir estão referenciados o endereço dos alunos de cursos presenciais da Uerj, e também os oito campi metropolitanos (cinco dos quais estão aglomerados na região do Maracanã). Nota-se, primeiramente, que as maiores concentração de alunos presenciais se dá próximo dos campi onde ocorrem as aulas – mesmo em tempos de pandemia. Ao mesmo tempo, maiores concentrações fora destes aglomerados se dão em zonas com acesso aos trens, metrô e barcas (tais quais a Zona Norte da capital).

Mapa mostra distribuição dos alunos pelo rio de janeiro com escala de tons de vermelho

Apesar de preliminares, esses dados sugerem dois diagnósticos complementares. Primeiro, a localização periférica do principal campus da Uerj tem importância no recrutamento dos seus estudantes. Segundo, o perfil socioeconômico dos seus alunos cotistas, sobretudo aqueles das cotas raciais, é ainda mais diverso do que aquele da universidade como um todo. Embora novas pesquisas sobre o cruzamento entre classe, raça e localização dos universitários sejam necessárias, já é possível demonstrar a importância dessa dimensão geográfica para uma melhor compreensão da democratização do ensino superior brasileiro.

Filipe de Oliveira Peixoto é mestre e doutorando em sociologia pelo Iesp-Uerj (Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro).

Luiz Augusto Campos é doutor em sociologia e professor no Iesp-Uerj (Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro).

Este texto faz parte da série de publicações no Nexo Políticas Públicas do “Consórcio de Acompanhamento das Ações Afirmativas 2022”, coordenado pelo Núcleo Afro do Cebrap e pelo Gemaa do Iesp-Uerj.

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