O que sabemos sobre a diversidade no cinema brasileiro

Marcia Rangel Candido
Os longas-metragens brasileiros são historicamente brancos, e seus personagens são representados em uma espécie de ‘redoma de vidro’, sem qualquer interação com a população negra. Homens brancos também dominam as funções de direção e roteiro

Há uma “redoma de vidro” que isola os personagens brancos no cinema de grande público do país. A maior parte dos filmes nacionais não representa interações entre brancos e negros, concentra-se na região Sudeste e praticamente não tematiza as orientações sexuais de maneira mais diversa, tendo a heterossexualidade como norma. Esses resultados integram uma pesquisa conduzida desde 2014 pelo Gemaa (Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa) do IESP-UERJ que analisa as desigualdades na frente e atrás das câmeras da indústria audiovisual 1.

A literatura sobre diversidade no cinema brasileiro se concentrou historicamente na discussão de longas-metragens específicos ou enfocou apenas uma dimensão das assimetrias, como as de gênero. Com o intuito de contribuir para o debate, os trabalhos do Gemaa buscam trazer informações inéditas acerca de como os maiores grupos populacionais do país – negros (pretos e pardos) e brancos – ocuparam posições de decisão nas construções narrativas ou foram retratados em um escopo mais abrangente de filmes.

Os dados sobre diversidade no cinema brasileiro são fundamentais para incitar debates públicos e contribuir para a formulação de políticas públicas mais inclusivas no setor

Durante duas décadas de produção audiovisual, mais especificamente entre 1995 e 2018, não ocorreram transformações substantivas nas hierarquias de poder: homens brancos lideraram em todos os cenários as funções de direção e roteiro. Mulheres brancas, por sua vez, oscilaram em participação, alcançando uma inserção minoritária nessas atividades, mas ainda assim bem melhor que a de homens negros e, sobretudo, a de mulheres negras, totalmente ausentes.

Gráfico mostra a proporção de diretores, roteiristas, e personagens negros no cinema

Em relação às desigualdades que aparecem nas telas de cinema, padrão similar de inclusão se repetiu: os homens brancos dominaram as cenas, seguidos por um melhor desempenho de mulheres brancas e uma tímida figuração da população negra, na qual as mulheres negras foram mais prejudicadas. Para se ter uma ideia, no elenco geral dos anos que observamos, para cada personagem mulher preta ou parda, foram computados quase 14 homens brancos. A comparação para homens pretos e pardos caiu: foi de um homem preto ou pardo para quatro homens brancos, enquanto as mulheres brancas ficam próximas dos homens brancos, com uma mulher branca para cada 1,42 personagem homem branco.

O prejuízo dos grupos sub-representados, contudo, não é exclusivamente numérico. Além de minoritárias, certas parcelas da população sofrem mais com a redução a estereótipos que outras. Mulheres negras, por exemplo, quando alcançam papéis de protagonismo, são frequentemente associadas à subalternidade. A partir das bases de dados do Gemaa, no artigo “Representação e estereótipos de mulheres negras no cinema brasileiro”, publicado em 2019 na Revista Estudos Feministas, demonstramos o componente de gênero dos estereótipos associados aos negros no país. Pertencimento a classes de baixo poder aquisitivo, proximidade à criminalidade, condutas morais negativas e hipersexualização são algumas das características usuais imputadas às mulheres pretas ou pardas.

Embora as pesquisas do Gemaa tenham se limitado a investigar os filmes de grande público — que atingem mais pessoas e geralmente dispõem de mais recursos —, estatísticas oficiais recentes da Ancine (Agência Nacional de Cinema) atestaram que as desigualdades e hierarquias de poder no audiovisual brasileiro são gerais. De 2015 a 2019, a agência lançou relatórios com dados de gênero para as produções do país. Somente em 2018, com base em consultoria voluntária do Gemaa aos seus servidores, o órgão apresentou uma publicação sobre a questão racial. Em todos esses casos, os mesmos retratos de intensas assimetrias estão presentes.

Os dados sobre diversidade no cinema brasileiro são fundamentais para incitar debates públicos e contribuir para a formulação de políticas públicas mais inclusivas no setor. Sem evidências científicas, podemos supor a existência de desigualdades, mas não comprová-las.

Infelizmente, caminhamos a passos largos para perder essa primeira etapa de constatação do problema. Há cada vez menos recursos disponíveis para a pesquisa nas universidades e um desmonte progressivo da Ancine, que atingiu precocemente as poucas ações da agência para o enfrentamento das assimetrias de gênero e raça. Enquanto o audiovisual nacional não espelha a riqueza e pluralidade do país, nem mobiliza sua criatividade para combater discriminações — ao invés de reforçá-las —, nos resta lutar para deixar o que é evidente ainda mais evidente.

Marcia Rangel Candido é doutora em ciência política pelo Iesp-Uerj (Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro), com bolsa Capes/PDSE para período de intercâmbio na Universidade de Cambridge. Coordena pesquisas no Gemaa/Iesp-Uerj (Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa), e é assistente editorial da Dados. É autora e coautora de artigos sobre gênero e desigualdades na ciência política, política latino-americana, comunicação política e representação no cinema brasileiro.

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