Mulheres são minoria no cenário acadêmico da entomologia brasileira

Juliana Hipólito, Leila Teruko Shirai e Eliana Maria Fontes
Faltam políticas de inclusão e retenção na academia, além do despertar da sociedade para o problema. Dados recentes demonstram que ainda há um longo caminho a ser percorrido

As mulheres são cerca de metade da população mundial e, na maioria das sociedades, elas ainda são sub-representadas em posições de poder de muitos setores. O viés de gênero é um fenômeno global, e é do benefício – embora não do interesse – de todos se abordado com estratégias equivalentes aos desafios do cenário. A amplitude do viés de gênero pode ser contexto-dependente, havendo diferentes vieses sobre os estereótipos de lideranças entre disciplinas. Carreiras como administração, engenharia, política e ciência são tipicamente dominadas por homens, enquanto ocupações do lar, enfermaria e secretaria por mulheres. Dentro de algumas áreas como as ciências biológicas, apesar de não haver aparentemente estereótipo de gênero, subáreas podem ser fortemente marcadas pelo viés de gênero, como a entomologia.

A entomologia, ou estudo dos insetos, é um ramo bastante amplo, já que se relaciona a diferentes áreas do conhecimento da ciência básica (como genética, ecologia, zoologia, etc.) e aplicada (agronomia, saúde pública, etc.), mas também ao mundo corporativo e setores de inovação, como por exemplo, das empresas de controle biológico. Na perspectiva do gênero, discussões na literatura acadêmica dentro da área começaram a aparecer na década de 1980, motivando posteriormente discussões nos programas de conferências da maior sociedade entomológica do mundo (Entomological Society of America), e influenciaram pesquisas cientométricas demonstrando o viés de gênero para a entomologia Estado-unidense (publicadas em 2018 e 2020).

Durante 2021, propulsionadas pelo interesse da segunda maior sociedade entomológica do mundo, a SEB (Sociedade Entomológica do Brasil), levantamos dados sobre a entomologia brasileira relacionadas à formação e atuação de seus profissionais, do perfil dos programas de pós-graduação, e percepção pessoal do viés de gênero. Vimos que o cenário nacional reflete o mesmo padrão já detectado em outros países, sendo marcado por notável discrepância no número de pesquisadores homens e mulheres. Atualmente, por exemplo, a composição docente dos cursos de pós-graduação em entomologia é majoritariamente masculina, havendo inclusive cursos nos quais a proporção de homens em posição permanente é de 100%.

Uma consequência da sub-representatividade é que ela gera um ciclo maior de exclusão. O menor número de entomólogas mulheres significa um menor número de mentoras que, por sua vez, exclui jovens que não conseguem se visualizar na carreira

Apesar de o acesso à educação superior ter aumentado no Brasil e no mundo, os empregos para pessoas qualificadas não aumentaram, acirrando a competição e enaltecendo estratégias de poder, às vezes a despeito do compromisso científico com o conhecimento. A pesquisa hoje é frequentemente um caminho traçado por aqueles com doutorado, mesmo frente às incertezas do mercado de trabalho e, no caso brasileiro, com ausência de direitos trabalhistas aos bolsistas. Vimos que apesar de as mulheres serem maioria enquanto estudantes de graduação, mestrado e doutorado, são minoria quando vemos posições mais avançadas na carreira (professores efetivos e outros postos de poder). A menor fixação das mulheres não se deve ao menor desempenho já que não há uma menor produção por parte destas. As mulheres e outros grupos sub-representados na ciência (negros, indígenas, pessoas do grupo LGBTQIA+, etc.) saem ou desistem mais da academia por outras razões como maior assédio, menor credibilidade e mais desafios pessoais, como por exemplo a assimetria no cuidado da casa e filhos, que ainda recai sobre mulheres.

Uma consequência da sub-representatividade é que ela gera um ciclo maior de exclusão. O menor número de entomólogas mulheres significa um menor número de mentoras que, por sua vez, exclui jovens que não conseguem se visualizar na carreira. O baixo número de mulheres no cenário acadêmico implica também em uma percepção pessoal dos pesquisadores que é bastante difusa e pautada em vieses de experiências pessoais (portanto não científicos). Vimos que 68% dos profissionais de insetos brasileiros percebem desafios no trabalho relacionado ao gênero, mas essa percepção é majoritariamente feminina, já que os homens percebem menos estas diferenças de gênero. Nesse cenário paradoxal em que cientistas tomam decisões pautadas em percepção pessoal e não em dados científicos, seria altamente profícuo que a discussão do viés de gênero fosse obrigatória em espaços acadêmicos. Essas discussões possibilitam um espaço mais saudável em que grupos historicamente excluídos possam contribuir na construção de comunidades mais diversas e colaborativas.

A pandemia de covid-19 aprofundou o viés de gênero, e não houve proposições de curto, médio e longo prazo feitas até agora. Pessoas em posição de liderança ou instituições deveriam servir como modelos tomando medidas afirmativas de inclusão. Como as principais instituições são dominadas por homens, seria relevante trazer e inspirar mudanças, esculpindo novos caminhos com – e não para – minorias. Soluções para alcançar a equidade podem não ser fáceis de implementar devido, por exemplo, a barreiras políticas, administrativas e culturais, mas podem incluir (sem limitar-se a): novas métricas de avaliação, políticas inclusivas, ambientes de trabalho favoráveis e promoção da inclusão e permanência de grupos minoritários. A academia e os ambientes de trabalho, em um sentido mais amplo, também devem considerar o cuidado familiar flexível, relatórios institucionais para a igualdade de gênero, dentre outros.

Vale sempre reconhecer que existem estereótipos associando cientistas ou líderes a homens brancos, mas estes são apenas estereótipos e estereótipos podem mudar. Além disso, e talvez mais importante, se nós, como estudantes e pesquisadores, nos uníssemos para mostrar à sociedade o valor da ciência em suas muitas formas, feita por uma diversidade de pessoas guiadas por princípios equitativos, talvez pudéssemos alcançar melhor status de um trabalho reconhecido social e financeiramente, e nossas disputas não estariam mais entre nós mesmos, mas com os verdadeiros desafios científicos sobre avanços e descobertas.

Esse texto foi inspirado no artigo The Gender Gap in Brazilian Entomology: an Analysis of the Academic Scenario publicado na Neotropical Entomology que teve como autoras: Hipólito, Juliana; Shirai, Leila Teruko; Halinski, Rosana; Guidolin, Aline Sartori; da Silva Dias Pini, Nivia; Soares Pires, Carmen Sílvia; Querino, Ranyse Barbosa; Quintela, Eliane Dias; Gouveia Fontes, Eliana Maria.

Juliana Hipólito é bióloga, doutora em ecologia pela UFBA (Universidade Federal da Bahia) no tema polinização. É professora visitante na UFBA e membro afiliado da Academia Brasileira de Ciências. Escreve a convite da BPBES (Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos).

Leila T Shirai é bióloga, doutora em biologia evolutiva pelo Instituto Gulbenkian de Ciências, Portugal. É pesquisadora em estudos da biodiversidade e divulgadora científica. Escreve a convite da BPBES (Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos).

Eliana M G Fontes é bióloga, doutora pela Universidade da Flórida (EUA) no tema entomologia. É pesquisadora da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia na área de controle biológico de pragas. Escreve a convite da BPBES (Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos).

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