Há espaço na pandemia para discutir soluções para a crise climática?

Marina Hirota
Projeto do High Meadows Environmental Institute apresenta abordagem inovadora no enfrentamento da mudança do clima, combinando transformações tecnológicas com mitigação de injustiças sociais

As mudanças climáticas vêm sendo noticiadas desde os anos 90, quando o Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) reuniu um grande grupo de cientistas para investigar evidências de como e por quais razões a temperatura média de equilíbrio do planeta (que girava em torno de 15°C) estava aumentando. As primeiras conclusões corroboraram a ideia de que tal aumento estaria associado a uma maior quantidade de gases, como o CO2 (dióxido de carbono) e o CH4 (metano), capaz de intensificar o efeito estufa natural que a atmosfera cria na Terra.

Mais de 30 anos depois, após a publicação do sexto relatório do IPCC - e um aumento da temperatura de equilíbrio em pouco mais de 1°C- observamos hoje o que um dia foi uma previsão: a maior frequência de eventos extremos de temperatura e chuvas que causam episódios de secas, inundações e ondas de frio e calor. Estes eventos têm implicações sociais e econômicas que perpassam questões de saúde da população, disponibilidade de alimentos e migração ou deslocamento de pessoas devido ao aumento do nível médio do mar. Todas essas questões estão no centro do Leaders Summit. Recentemente transmitido para todo o planeta, o evento foi organizado pelo recém-eleito presidente norte-americano Joe Biden, com participação do presidente Jair Bolsonaro. Com esse encontro, Biden quer começar a restaurar o papel de liderança dos Estados Unidos nas questões globais e pressionar lideranças a estipular metas mais audaciosas de adaptação à mudança climática.

O que movimentos como o “Fridays for Future” liderado por Greta Thunberg exigem é basicamente que o aumento da temperatura média do planeta fique limitado a 1,5°C, a partir do comprometimento das nações com a descarbonização da economia mundial. A grande questão é: como fazer isso num mundo que gira a partir de intensas emissões de gases que aumentam o efeito estufa?

Segundo o líder da equipe do Net-Zero America, Stephen Pacala, este pensamento ético constitui uma das bases mais importantes e inovadoras do que está em jogo

Uma das propostas apresentadas (dentre muitas) é a emissão nula de carbono, que consiste em zerar (isso mesmo, zerar) o balanço entre o que é absorvido e o que é emitido de gases em diversas esferas (institucionais, municipais, estaduais, nacionais, etc.). Ainda assim, como isso seria possível? Quais os custos associados? Quais as implicações de tais mudanças para o ambiente e para as pessoas?

Para responder a estas perguntas, um grupo interdisciplinar de pesquisadores da Universidade de Princeton apresentou em dezembro de 2020 (num momento em que o aumento de casos e mortes por covid-19 no Brasil começou a decolar) uma proposta ambiciosa de como isso seria possível nos próximos 30 anos (2021-2050) para os Estados Unidos. O projeto Net-Zero America é comissionado pela American Academy of Sciences e liderado por Stephen Pacala, professor do High Meadows Environmental Institute e colaborador do Brazil LAB em projetos relacionados à Amazônia. O relatório, que chegou às escrivaninhas de Biden e sua equipe, propõe cinco trajetórias possíveis para que o país consiga atingir a emissão nula, a partir de combinações alternativas que aumentem em diferentes proporções o uso de tecnologias de “eletrificação” de ambientes fechados e meios de transporte, geração de energia utilizando biomassa (como é feito no Brasil com a cana de açúcar para a fabricação do álcool), alternativas renováveis (solar e eólica), nucleares e de captura de carbono atmosférico.

Até aí, um esforço louvável, mas na linha tecnocrática do que já vem sendo apresentado pela ciência há alguns anos. A inovação do projeto consiste principalmente em quatro pontos:

1. Custo: a proposta não só mostra o quanto essa mudança vai custar nos próximos 30 anos para as diferentes trajetórias, mas também compara com o quanto foi gasto nos últimos 30 anos na manutenção do sistema de geração de energia (4 a 6% do Produto Interno Bruto do país). Em números, o custo de manter a trajetória atual (“business as usual”) para os próximos 30 anos seria de US$ 9,4 trilhões. Investindo na infraestrutura limpa proposta pelas trajetórias alternativas, o aumento do custo só ocorre caso os preços de combustíveis (petróleo e gás) não aumentem com o tempo, o que é bastante improvável que aconteça. Em outras palavras, investir em energia limpa e infraestrutura elétrica potencialmente pode custar menos.

2. Quando: os pesquisadores apresentam um cronograma de como a mudança deve se dar por décadas para cada uma das trajetórias. Em comum, eles propõem que a mudança deve começar imediatamente, e de forma rápida, especialmente durante a chamada fase de transição, nos primeiros 10 anos! Esse período é decisivo como disparo inicial, a começar pela instalação das tecnologias já disponíveis em termos de energias alternativas (biomassa e renováveis), juntamente com uma nova infraestrutura de prédios e meios de transporte e expansão dos sistemas de transmissão de eletricidade. Ao mesmo tempo, novas tecnologias devem ser continuamente desenvolvidas num pacote denominado PD&D (Pesquisa, Desenvolvimento e Demonstração).

3. Granularidade: considerando que os Estados Unidos constituem um país bastante extenso, as soluções são propostas de forma granular em nível bastante fino (no caso, para regiões dentro de cada estado), considerando a heterogeneidade e especificidade de cada local. Isso possibilita que tomadores de decisões possam focar em políticas públicas de apoio e desenvolvimento específicos e mais efetivos durante a fase de transição e posteriormente.

4. Valores e implicações sociais: este talvez seja um dos pontos mais marcantes, inovadores e ambiciosos do relatório, uma vez que propõe as mudanças tecnológicas juntamente com a mitigação de injustiças sociais, o aumento da inclusão social, e o suporte às comunidades locais, especialmente durante a fase de transição. Assim, ao mesmo tempo que se implementam e revitalizam a infraestrutura e os sistemas de energia “limpos” do país para o bem geral da população, a proposta prevê um aumento líquido entre 1 a 2 milhões na oferta de empregos, com salários mais altos que a média nacional atual, a promoção de acesso igualitário aos benefícios dos novos sistemas de energia implementados, e políticas públicas locais de apoio a comunidades afetadas, como, por exemplo, pelo oferecimento de treinamento para as novas funções disponíveis no mercado e acompanhamento de longo prazo nos casos em que ocorra desemprego.

Segundo o líder da equipe do Net-Zero America, Stephen Pacala, este pensamento ético constitui uma das bases mais importantes e inovadoras do que está em jogo: “temos que defender uma transição justa e equitativa que elimine as atuais injustiças que estão embutidas em nosso sistema energético, em que comunidades pobres e historicamente marginalizados sofrem desproporcionalmente com os impactos da poluição fóssil e outras turbulências"1. Para ele, a chave para esta transição é, pois, “entender em cada localidade as vantagens e os riscos e quem são os principais beneficiados... Hoje em dia não é mais possível trabalhar na questão energética sem discutir justiça, equidade e diversidade, protegendo os mais vulneráveis”2.

O Presidente Joe Biden já deu fortes sinais de que essas premissas e orientações, associadas à já conhecida capacidade norte-americana de inovação tecnológica e a propensão do governo a parcerias multisetoriais, nortearão o seu plano de profunda reforma infraestrutural e ambiental, alinhados aos compromissos firmados pelo Acordo de Paris.

Se implementada, o que essa proposta de mudança ou mesmo parte dela poderia influenciar nossa vida no Brasil? Indiretamente, atingir o objetivo de emissão nula de carbono implica num benefício para a manutenção da vida como a conhecemos no planeta inteiro, ou seja, o benefício vem de cima para baixo. Ao mesmo tempo, como exemplo, a perspectiva mais granular apresentada, ou de baixo para cima, permite olhar para as particularidades, vantagens e desafios de cada local para elaborar e propor políticas públicas que consigam efetivamente aumentar a igualdade de condições básicas e a inclusão social da população. Em outras palavras, um exemplo de proposta com governança nacional e bases de implementação locais, a partir de estudos científicos que comprovem viabilidade, incertezas e eficiência.

Neste ponto, retorno ao título e coloco as seguintes perguntas: esses ingredientes soam como uma receita para uma crise que vai além da climática, para qual a proposta aborda? Alguma ressonância com uma outra crise que enfrentamos no momento?

Marina Hirota é professora associada do Departamento de Física da Universidade Federal de Santa Catarina, onde leciona para os cursos de graduação em meteorologia e engenharias, e pós-graduação em ecologia. Possui financiamento científico do Instituto Serrapilheira e é pesquisadora afiliada do Brazil LAB da Universidade de Princeton. Possui formação acadêmica multidisciplinar com doutorado em meteorologia pelo INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) , e mestrado e graduação pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) em engenharia de computação e matemática aplicada, respectivamente. Dedica-se a combinar ferramentas matemáticas e computacionais na compreensão mecanicista da dinâmica e resiliência de sistemas vegetação-clima, especialmente na América do Sul tropical, e dos efeitos de perturbações como mudanças climáticas, incêndios e desmatamento, resultando em potenciais alterações na distribuição atual da vegetação.

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