Comorbidades políticas e ambientais e a sindemia da biodiversidade

Alexander Turra
Os efeitos cumulativos e sinérgicos de alterações ambientais causadas pelas ações humanas comprometem a resiliência dos sistemas naturais. O enfrentamento da sindemia da biodiversidade demanda o combate a ambas comorbidades, a política e a ambiental

O globalismo é uma marca da modernidade que foi intensificada após a Segunda Guerra Mundial com a ampliação do comércio, tecnologia, fluxo de informações e multiculturalismo. Paralelamente a esse movimento temos testemunhado a emergência de uma crise ambiental global. Essa crise se caracteriza por diversos problemas gerados localmente como reflexo de variadas atividades humanas, cujos impactos se propagam e se manifestam globalmente, afetando a homeostase e a saúde do planeta e o bem-estar de toda a humanidade.

As mudanças ambientais globais possuem, portanto, diversos matizes, tanto nas suas causas quanto nos seus efeitos. A emissão de gás carbônico a partir da queima de combustíveis fósseis ou florestas altera a composição da atmosfera e seu funcionamento. O efeito estufa modifica a temperatura do planeta e gera uma reação em cadeia em diferentes sistemas, como o aumento da temperatura e da acidez da água do mar. Mudanças ambientais também têm sido causadas pela supressão de ambientes naturais, os impactos de diferentes tipos de poluentes, sobrepesca e invasão de espécies exóticas, que têm, de forma sinérgica, comprometido a qualidade dos sistemas socioecológicos ao redor do mundo.

Como resultado dessas mudanças temos uma grande e ampla crise da biodiversidade, que pode ser ilustrada pelas crescentes taxas de extinção de espécies e que também gera efeitos negativos nas atividades humanas. As alterações ambientais afetam diretamente os serviços ecossistêmicos e os benefícios providos pela natureza para as pessoas. Dentre eles pode-se citar a capacidade de natureza em controlar doenças, reduzindo a exposição do ser humano a animais silvestres e seus patógenos em ambientes periurbanos degradados. Da perda de qualidade ambiental surgem epidemias cujas frequências têm aumentado nos últimos anos e poderão aumentar ainda mais no futuro, conforme resultados apresentados no relatório sobre biodiversidade e pandemia da Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos.

A última dessas epidemias, a covid-19, catastroficamente se tornou uma pandemia e, muito rapidamente, se configurou como uma sindemia. O conceito de sindemia, segundo o médico americano Merrill Singer 1, pressupõe uma abordagem de sistemas críticos à saúde pública e comunitária, pois considera que “duas ou mais doenças interagem de tal forma que causam danos maiores do que a mera soma dessas duas doenças”. Entretanto, uma leve adaptação desse conceito nos permite transpor essa reflexão para o conceito de biopoder. Segundo o filósofo francês Michel Foucault, a população pode ser tanto alvo como instrumento em uma relação de poder 2. Nesse sentido, não é difícil considerar que uma pandemia possa ser intensificada por decisões políticas e se tornar uma sindemia.

A degradação ambiental leva à perda de saúde dos ecossistemas e a mudanças que podem ser substanciais e irreversíveis. Essas múltiplas agressões podem ser consideradas comorbidades ambientais pois fragilizam a capacidade dos sistemas naturais em lidar com pressões adicionais

Esse é o caso da covid-19 no Brasil, na qual ocorreu o “uso da má informação como uma arma política”, segundo reflexões críticas realizadas por Julie Ricard e Juliano Medeiros. De forma análoga aos fatores de risco que agravam os efeitos do novo coronavírus em alguns pacientes, o emprego do biopoder é uma comorbidade política que pode representar a diferença entre a vida e a morte no sistema socioecológico. Evidências de outros processos que podem ser considerados sindêmicos, dada a grande escala geográfica afetada e os variados efeitos negativos causados, foram registradas nos últimos dois anos no Brasil em relação a duas catástrofes ambientais: o derramamento de óleo que cobriu mais de 3.000 km da costa do Nordeste brasileiro em 2019 e a intensificação da ocupação criminosa da floresta amazônica por meio do desmatamento e de queimadas ilegais entre 2019 e 2021.

No primeiro caso, um artigo revelou o atraso do Ministério do Meio Ambiente em protagonizar ações de contenção e combate ao óleo e o associou à desconexão e à assimetria de poder entre o ente federativo e as localidades afetadas. Essa falta de responsabilidade e empatia com a tragédia alheia, que agravou os impactos ambientais e socioeconômicos na região, também marcou o segundo caso, mas de uma forma um pouco diferente. Beneficiando pequenos grupos de criminosos, como grileiros, madeireiros e garimpeiros, o avanço do desmatamento da floresta amazônica agravou a crise hídrica nas regiões Sul e Sudeste do país, as quais dependem fortemente das chuvas que lá se originam. Nesse caso, um dossiê da Associação Nacional dos Servidores de Meio Ambiente e um artigo da revista Land Use Policy revelaram as incontáveis ações do atual governo para enfraquecer as políticas ambientais 3 4 e, dentre várias estratégias, restringir a fiscalização e o combate a essas infrações. Por meio do conceito de biopoder, a ação deliberada nesse caso, mas também a inação e a omissão evidenciadas no caso do óleo no Nordeste, exacerbaram os efeitos da covid-19 e dos problemas ambientais e socioeconômicos já existentes no país.

O agravamento da crise da biodiversidade e sua amplificação em uma sindemia pode também ser um reflexo das múltiplas agressões que os sistemas naturais já vêm sofrendo. A degradação ambiental leva à perda de saúde dos ecossistemas e a mudanças que podem ser substanciais e irreversíveis. Essas múltiplas agressões podem ser consideradas comorbidades ambientais pois fragilizam a capacidade dos sistemas naturais em lidar com pressões adicionais. Em outras palavras, os efeitos cumulativos e sinérgicos de alterações ambientais causadas pelas ações humanas comprometem a resiliência dos sistemas naturais.

O enfrentamento da sindemia da biodiversidade demanda o combate a ambas comorbidades, a política e a ambiental. A primeira demandará um longo e continuado processo de inclusão sociopolítica, promoção da prosperidade equitativa e fortalecimento da visão crítica e da democracia participativa. A segunda pode ser enfrentada de uma forma mais pragmática e seguindo movimentos internacionais de combate às ameaças, busca da restauração de ambientes degradados e proteção efetiva de uma porção representativa dos sistemas naturais para a manutenção da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos fornecidos. Esses movimentos são urgentes, em especial frente às mudanças climáticas, mais uma comorbidade ambiental que tem padecido da comorbidade política dada a instituição do negacionismo climático no país, conforme argumenta o sociólogo Jean Miguel. Infelizmente, como se não fosse pouco, considerando que para a sindemia da biodiversidade não há vacinas, só nos resta fortalecer o paciente.

Alexander Turra é professor titular do IOUSP (Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo) e coordenador da Cátedra Unesco para a Sustentabilidade do Oceano.

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