Cartas sobre a tortura: perspectivas dos socialmente marginalizados

Laurence Ralph
Por meio de cartas, antropólogo da Universidade de Princeton propõe nova forma de se realizar pesquisas etnográficas sobre o racismo sistêmico

Em algum momento da primavera de 2015, pouco antes de começar meu trabalho de campo, elaborei uma carta aberta a estudantes negros de Chicago. Ela começava assim:

Prezados alunos das escolas públicas de Chicago:

A categoria que denota o estágio de vida em que vocês estão atualmente – ou seja, estudantes de escola pública– adquiriu uma dimensão preocupante durante o tempo em que morei em sua cidade no início dos anos 2000. Encontrei esse rótulo pela primeira vez nos jornais e no noticiário locais. Ao relatar a violência diária na cidade, jornalistas e apresentadores costumavam pontuar suas reportagens com estatísticas como esta: “Um menino de 14 anos, morador do subúrbio de Hazel Crest, foi baleado na noite de sexta-feira no bairro de Morgan Park. Ele é o 28º aluno de escola pública assassinado neste ano escolar em Chicago.”

Desenvolver a pesquisa que resultou em meu livro “Torture Letters” 1 foi um tremendo exercício de humildade. Assim que terminei de rascunhar a primeira carta para os estudantes, enviei-a para uma amiga que por anos havia dado aulas em escolas públicas de Chicago. Sem papas na língua, ela me respondeu que ninguém entenderia o que eu estava querendo dizer. Eu deveria simplificar meu vocabulário. Durante uma hora, conversamos sobre a questão ética de escrever para um público em uma linguagem da qual ele não se sinta alienado.

Descobri que são múltiplos os ganhos com as “cartas etnográficas”. Um dos benefícios é que a abordagem inclui os interlocutores no processo de análise dos dados levantados, assim como no processo de escolha de quais dados devem ser elaborados

O resultado da conversa com ela e com muitos outros amigos foi que passei a experimentar o método que chamei de “cartas etnográficas”. Como metodologia, elas incluem três maneiras de estratificar a pesquisa de campo. Em primeiro lugar, as cartas transformam “sujeitos” em interlocutores, focando nos projetos nos quais eles já estão investidos, como forma de explorar problemas sociais mais amplos; segundo, as correspondências incluem trocas com esses interlocutores durante as fases de pesquisa e de redação do projeto; e terceiro, as cartas melhor posicionam os interlocutores e as comunidades que se deseja abordar como público principal do material etnográfico que será produzido.

Ao longo do processo, descobri que são múltiplos os ganhos possíveis com as “cartas etnográficas”. Um dos benefícios é que a abordagem inclui os interlocutores no processo de análise dos dados levantados, assim como no processo de escolha de quais dados devem ser elaborados. Isso garante que os assuntos da pesquisa sejam relevantes para os membros da comunidade às quais as cartas se destinam. Outro benefício é que, ao se colocar diferentes membros da comunidade em diálogo uns com os outros, o método leva a um retrato matizado de um determinado problema social.

É verdade que muita gente de diferentes áreas de estudo pesquisa cartas. Para a minha pesquisa, o que é particularmente relevante é analisar a maneira como os antropólogos vêm trabalhando sobre essa forma de escrita. O que interessa aos antropólogos culturais é a maneira como as pessoas vivenciam certos problemas sociais, assim como a maneira como as pessoas interpretam essas experiências. Ao fazer isso, nós trazemos ao centro da pesquisa o ponto de vista das pessoas que estudamos, em vez de apenas levarmos nossas próprias teorias e filosofias para lidar com o problema social em questão. Cartas são interessantes na perspectiva antropológica porque são como janelas para a visão de mundo das pessoas e comunidades que estão sendo estudadas.

Arquivos e auto-implicação

O primeiro modo através do qual os antropólogos culturais tendem a ver as cartas está enraizado na tradição histórica do empirismo. Para compreender como os estados democráticos liberais têm se desenvolvido e exercido o poder, os historiadores postularam a pergunta: como o Estado produz o conhecimento que molda uma visão particular dos “sujeitos”? Uma vez que os antropólogos estão especialmente interessados na perspectiva daqueles socialmente marginalizados, é comum que eles invertam a pergunta: como os sujeitos produzem conhecimento que molda uma visão particular de governança? Ao buscar responder a essa pergunta, os antropólogos foram levados em direção aos arquivos não-tradicionais.

Minha abordagem também se baseia no que aprendi examinando arquivos não-tradicionais. A diferença é que uso esse conhecimento para participar de um diálogo “inacabado”, em constante evolução, com as pessoas e grupos implicados nos problemas sociais que estudo, como forma de compreender melhor esses problemas. Meu trabalho destaca a “natureza socialmente produzida no próprio 'campo'”, na medida em que procuro desestabilizar concepções comuns sobre o papel do etnógrafo e a prática da etnografia 2. As pessoas a quem me dirijo em minhas cartas sempre emergem do contexto de minha pesquisa; assim, à medida que transmito as principais conclusões e percepções que têm alguma relação com sua identidade, status social e sua ocupação, também demonstro a participação que elas têm no problema da violência policial. No processo, não posso deixar de revelar o papel que tenho nessa questão também.

Escrever cartas no contexto da pesquisa me forçou a sair da casca de objetividade típica e disciplinada, e me obrigou a me posicionar como uma pessoa que fala, que ajudou a moldar e desenvolver um conjunto de ideias que às vezes demandam respostas. Comecei a ver meus interlocutores de pesquisa como criadores de teorias em uma conversa multidimensional que surgiu do processo de rotulação.

Com base em metodologias etnográficas críticas, minha abordagem abriu um espaço para pensar a etnografia como uma série de trocas objetivas na escrita. Não é "de e sobre pessoas", mas "com e para as pessoas que são sujeitos", um futuro na etnografia para o qual Michael Fischer nos empurra 3. Cartas etnográficas, portanto, têm o potencial de estimular as pessoas para a ação – algo que outras abordagens não conseguem alcançar. Isso ocorre porque o antropólogo, por necessidade, torna-se parte do material sobre o qual está escrevendo. Também suspeito que, ao atentar para a distinção entre o antropólogo e o assunto que se está estudando, essa abordagem tem o potencial de ser mais fundamentalmente igualitária que outros modos de investigação e discursos da disciplina. O tempo irá dizer.

Laurence Ralph é professor de antropologia na Universidade de Princeton e professor afiliado ao Brazil LAB do PIIRS (Princeton Institute for International and Regional Studies). Mestre e doutor em antropologia pela Universidade de Chicago, suas pesquisas e escritos buscam explorar como o abuso policial, o encarceramento em massa e a criminalização do tráfico de drogas naturalizam doenças, deficiências e morte prematura de negros residentes em áreas urbanas, muitas vezes vistos como descartáveis pela sociedade "educada". Antes de Princeton, foi professor na Universidade de Harvard por oito anos.

Este ensaio foi originalmente escrito em inglês e traduzido por Rodrigo Simon e Lucas Prates.

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