Ambiente alimentar digital e a pandemia de covid-19 no Brasil: um estímulo ao consumo de alimentos ultraprocessados

Paula Martins Horta
Crise sanitária reforça o debate sobre a necessidade de monitorar o ambiente alimentar digital no Brasil e propor estratégias que o tornem mais saudável

No Brasil, a influência digital na alimentação da população se intensificou com a pandemia de covid-19. Como forma de prevenir e controlar as taxas de transmissão do novo coronavírus, algumas políticas foram impostas para a garantia do distanciamento físico, que levaram ao fechamento de escolas, universidades, do comércio não essencial, de áreas públicas de lazer, bares, restaurantes, dentre outros. Com isso, as configurações de trabalho e lazer se alteraram e os brasileiros passaram a ficar mais em casa. Isso levou a uma maior exposição ao ambiente alimentar digital, seja pelo maior consumo das mídias digitais, seja pelo maior uso de aplicativos de delivery de comida.

O ambiente alimentar digital pode ser entendido como a interface entre o consumidor e o alimento no contexto digital e contempla as mídias sociais, aplicativos, websites, jogos, entre outros recursos digitais, que permitem orientações sobre alimentação, ações de marketing, venda on-line de alimentos e comida pronta para consumo. São atores do ambiente digital os usuários da rede, a indústria de alimentos, as empresas de comunicação, os influenciadores digitais, o governo e os órgãos de regulação.

No meio digital, a indústria de alimentos pode dialogar diretamente com os indivíduos pelas mídias sociais, aplicativos, websites e por mensagens diretas por SMS ou WhatsApp. Neste espaço, a comunicação entre empresa e consumidor é potencializada por estratégias de marketing de alta interatividade, que envolvem o uso de vídeos, links, hashtags, gifs, downloads, entre outros, e pelo direcionamento de mensagens, que consideram o perfil de consumo e de acesso do usuário na rede.

Para melhor entendermos a maior exposição dos brasileiros ao ambiente alimentar digital durante a pandemia de covid-19, basta olharmos para os dados que demonstram como o modo de viver da população passou a ficar mais digital. Pesquisas de monitoramento de uso de mídias e comportamento do consumidor mostraram que, em março de 2021, cerca de 80% dos brasileiros que possuíam smartphones preferiram usar os aplicativos de delivery para fazer pedidos de comida. Este percentual foi igual a 47% em março de 2017 (Fonte: Statista). Além disso, a plataforma de delivery de maior popularidade no Brasil registrou um aumento de 210% no número de pedidos recebidos em junho de 2020, em comparação aos dados de junho de 2018 (Fonte: ifood). O consumo de internet aumentou de 40-50% durante a pandemia, sendo 21% o aumento do acesso às mídias sociais logo após o registro do primeiro caso de covid-19 no país (Fonte: Statista).

Para melhor entendermos a maior exposição dos brasileiros ao ambiente alimentar digital durante a pandemia de covid-19, basta olharmos para os dados que demonstram como o modo de viver da população passou a ficar mais digital

Em resposta à intensificação da exposição dos brasileiros ao ambiente alimentar digital e ao novo modo de viver imposto pela pandemia, a indústria de alimentos ultraprocessados alterou a sua forma de se comunicar. As publicidades passaram a transmitir mensagens de companheirismo, solidariedade e empatia e de estímulo ao ‘ficar em casa’ e à aproximação entre pessoas por meio das tecnologias digitais. As ‘lives’, eventos online promovidos em mídias sociais patrocinados pela indústria de alimentos ultraprocessados, reforçam esse posicionamento e oferecem conteúdo de entretenimento para ser assistido em casa pelos brasileiros, ao mesmo tempo que estimulam o consumo de bebidas alcoólicas e outros ultraprocessados.

Além disso, as empresas de alimentos têm enaltecido em suas publicidades as medidas de proteção adotadas para prevenção da contaminação de seus funcionários e outras demonstrações de cuidados em relação à saúde e à segurança de seus colaboradores e clientes. Trata-se de uma abordagem essencial no contexto sanitário atual, mas que é usada pelas empresas com fins de autopromoção. O mesmo é realizado com as ações de responsabilidade social, como as campanhas de doação de alimentos ultraprocessados a instituições hospitalares e filantrópicas, profissionais de saúde e população socialmente vulnerável. Essas ações ganham repercussão face à crise econômica decorrente da covid-19 no Brasil e geram uma oportunidade de autopromoção das marcas provedoras, ao mesmo tempo que ocultam as externalidades em saúde associadas ao consumo excessivo dos produtos doados.

No âmbito dos aplicativos de plataformas de delivery de comida, durante a pandemia de covid-19 no Brasil, essas empresas vêm estimulando o consumo de alimentos ultraprocessados, como sanduíches, pizzas e bebidas ultraprocessadas, pela maior participação desses itens nos cardápios dos estabelecimentos comerciais ou nos anúncios promocionais, que oferecem isenção da taxa de entrega, descontos e combos entre outros benefícios ao consumidor. Por outro lado, pratos à base de hortaliças e bebidas à base de frutas praticamente inexistem nesses aplicativos. Apenas as refeições tradicionais, consideradas marcadores de alimentação saudável, são identificadas nos cardápios e anúncios promocionais, sobretudo em dias de semana e no horário do almoço.

Em suma, os dados do ambiente alimentar digital durante a pandemia de covid-19 no Brasil evidenciam o grande estímulo dado ao consumo de alimentos ultraprocessados, o que coloca os brasileiros em maior risco para o desenvolvimento de excesso de peso e de obesidade. Esses agravos acometem, segundo dados do Vigitel (Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico), 55,4% e 20,4% da população adulta brasileira, respectivamente, e são fatores de risco para o desenvolvimento de doenças crônicas e da covid-19.

Monitorar sistematicamente as dimensões do ambiente alimentar digital, conduzir pesquisas de avaliação do comportamento do consumidor frente à exposição ao conteúdo de alimentos nesse contexto e discutir estratégias regulatórias que garantam um ambiente alimentar digital mais saudável são caminhos necessários para o enfrentamento desse cenário.

Paula Martins Horta é professora adjunta do Departamento de Nutrição da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). Nutricionista e doutora em ciências da saúde pela UFMG. Pesquisadora do GIN (Grupo de Pesquisa de Intervenções em Nutrição) e do GEPPAAS (Grupo de Estudos, Pesquisas e Práticas em Ambiente Alimentar e Saúde). É pesquisadora convidada da Cátedra J. Castro/USP (Cátedra Josué de Castro de Sistemas Alimentares Saudáveis e Sustentáveis).

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