Agenciamento negro ou apropriação cultural? Um novo olhar sobre cultura negra e identidade nacional

Roberto Augusto A. Pereira
A perspectiva da apropriação acaba por etiquetar todos produtores, produtoras e mediadores culturais negros como meras vítimas da história que, ou assistiram calados à usurpação de sua rica cultura material e imaterial, ou foram ludibriados

O debate acerca da identidade nacional brasileira no último século destacou, de um lado, o papel da intelectualidade, e de outro, o do Estado como promotores dos símbolos nacionais ou construtores da identidade brasileira. Para ficarmos em dois dos exemplos mais conhecidos, o Estado varguista teria alçado o samba e a capoeira ao status de símbolos nacionais e a intelectualidade teria um papel decisivo nesse processo.

Sem pretender negar o papel de destaque destes agentes, não é preciso grande esforço para se perceber que, neste debate, um silêncio quase completo paira sobre os produtores e mediadores destas diversas manifestações. Qual o papel tiveram estes personagens, em sua maioria negros e pobres, na lenta transformação destas práticas de símbolos étnicos em símbolos nacionais? Teriam assistido “bestializados” à apropriação de sua cultura? Tolos, disponibilizaram seu precioso patrimônio em troca de moeda barata para a burguesia branca da zona sul, como afirmam diversos autores?

Na contracorrente do que afirma o grosso da literatura sobre o tema, é importante perceber que, para além da intelectualidade e do Estado, se o samba e a capoeira são hoje marcas da brasilidade, se o frevo e o maracatu são símbolos pernambucanos, se o candomblé é conhecido mundialmente e um dos mais destacados símbolos de identidade da Bahia, devemos necessariamente voltar os olhos para a contribuição central de seus produtores e mediadores. Esses incontáveis personagens foram agentes fundamentais na transformação destas manifestações étnicas em símbolos estaduais e nacionais.

Acreditar que um belo dia a elite, o mercado e os brancos decidiram se apropriar e se apropriaram dessa cultura dando a ela visibilidade e valor, além de uma análise rasteira e simplista, despreza mais uma vez todo o histórico agenciamento negro

Ao longo de todo o século 20, estes detentores, grupos, artistas, em sua maioria negros e negras, trabalharam arduamente. Primeiro, para barrar o projeto do Estado de eliminar essas práticas, vistas e denunciadas cotidianamente pelas páginas da imprensa como “barbarismos” ou “africanismos” e como obstáculos no caminho do Brasil rumo à “civilização”. E em segundo lugar – adotando o discurso dos folcloristas, modernistas e mesmo o discurso Freyreano de que o Brasil era um país conformado por três raças – atuaram incansavelmente, a partir do cotidiano, de espetáculos e do mercado de entretenimento, num projeto de inclusão cultural e racial em que tais manifestações eram apresentadas não apenas como étnicas, mas como brasileiras, a contribuição da gente negra na formação nacional.

Os capoeiras, por exemplo, passaram todo o século 20 fazendo os ringues de palco político em defesa da capoeiragem, não como símbolo étnico, mas como símbolo nacional: a marca do Brasil, a “luta genuinamente brasileira” 1. Grupos negros como o Brasiliana, o Teatro Popular Brasileiro, Balé Folclórico Mercedes Batista, dentre diversos outros, passaram toda a segunda metade do século 20 promovendo como brasileiros, dentro e fora do país, o candomblé, o maracatu, o frevo, o samba de roda, etc 2. Tiraram essas práticas das páginas policiais da imprensa e as levaram para as colunas sociais, para a TV, para o Cinema, para os teatros mais prestigiados do país, como os Municipais do Rio e São Paulo; para o “showbusiness” de cidades como Paris e Nova York. Esses grupos foram peça chave na sua transformação de práticas étnicas em símbolos brasileiros.

Deste modo, como, diante de todo esse protagonismo negro, dessa lenta conquista de espaço, de mercado, dessa persistente busca de reconhecimento social para esses bens culturais negros, é possível falar que esta cultura foi tomada de assalto, apropriada pelo mercado, pelo capitalismo, pelos brancos?

Quando se afirma que a cultura negra foi apropriada por um grupo dominante e esvaziada de significados, que seus elementos foram tomados sem autorização por culturas hegemônicas, ou que só foi aceita quando os brancos passaram a se interessar, como o fazem diversos autores; quando, para explicar o sucesso desta cultura em detrimento de seus produtores, recorre-se à ideia de apropriação cultural, como fazem importantes intelectuais, silencia-se, paradoxalmente, todo esse histórico agenciamento negro, verdadeiro responsável pela sobrevivência, difusão e incorporação dessas práticas pelo mercado e por sua incorporação aos símbolos de identidade do Estado.

Além disso, esta perspectiva acaba por etiquetar todos esses produtores, produtoras e mediadores culturais como meras vítimas da história que, ou assistiram calados à usurpação de sua rica cultura material e imaterial, ou foram ludibriados.

Até mesmo se pensarmos em um panorama micro, em que geralmente se discute o uso de acessórios “negros”, como tranças, turbantes, etc., é preciso ter cautela ao se falar em apropriação. Trata-se de acessórios já completamente assimilados pelo mercado e em sua maior parte produzidos e comercializados por empreendedores negros. Incontáveis agentes se esforçaram muito para que estes bens, alguns antes exclusivamente afro-religiosos, fossem aceitos, bem vistos, consumidos, usados no dia a dia primeiramente pela própria comunidade negra, e depois, por uma clientela mais ampla e multi-étnica. A comoditizacão da cultura negra - e seu alcance entre outros grupos étnicos - tem sido levada a cabo, fundamentalmente por produtores e mediadores negros.

Estas questões nos levam a crer que, ao contrário de um processo de apropriação, a crescente aceitação e comoditização desta cultura é resultado de uma lenta conquista de mercado. Os detentores e mediadores da cultura negra por mais de um século vêm agregando valor de troca a acessórios e práticas antes com valor de uso apenas em sua comunidade, rompendo as portas do mercado capitalista e oferecendo seus produtos: a capoeira, o samba, os turbantes, o “Axé music”, os penteados afro, etc.

Em outras palavras, a cultura negra não ganhou valor apenas quando o mercado viu nela interesse ou quando as elites brancas se atraíram por ela. Não são estes os protagonistas do sucesso da cultura negra. A inegável marginalização de produtores negros em detrimento de brancos e de pessoas de pele mais clara é resultado do racismo e não de apropriação cultural. O racismo é o elemento que historicamente beneficia a população branca na sociedade. A comunidade negra fez um esforço descomunal ao longo de todo o século 20 para que sua cultura ganhasse espaço, fosse respeitada, adquirisse valor de troca, virasse mercadoria. Acreditar que um belo dia a elite, o mercado e os brancos decidiram se apropriar e se apropriaram dessa cultura dando a ela visibilidade e valor, além de uma análise rasteira e simplista, despreza mais uma vez todo o histórico agenciamento negro, parafraseando o sambista Jorge Aragão, essencial para que a cultura negra chegasse onde chegou.

“Também somos linha de frente

de toda essa história

Nós somos do tempo do samba

Sem grana, sem glória

Não se discute talento

Mas seu argumento, me faça o favor

Respeite quem pôde chegar

onde a gente chegou.”

Jorge Aragão

Roberto Augusto A. Pereira é capoeira, documentarista e doutor em história comparada pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Entre 2019/2020 foi “visiting fellow” na Harvard University. Autor do livro “A capoeira do Maranhão entre as décadas de 1870 e 1930” (Iphan/2019). É pesquisador convidado do Afro-CEBRAP (Núcleo de Pesquisa e Formação em Raça, Gênero e Justiça Racial).

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