A violência policial não tem rosto de mulher

Adriana Vianna e Juliana Farias
Frente à brutalidade escandalosa da letalidade policial que atinge sobretudo embora não exclusivamente, homens, toda uma rotina de violências contra mulheres e outros corpos feminilizados tende a ficar empalidecida

O título que escolhemos faz referência ao famoso livro de Svetlana Aleksievitch,A guerra não tem rosto de mulher”. No livro, a jornalista e escritora bielorussa busca compor relatos de memórias das mulheres que lutaram na antiga URSS durante a Segunda Guerra Mundial, reagindo à invasão nazista. Elas estiveram nas piores batalhas e na resistência em territórios ocupados, atuando em todos os postos possíveis, dos tradicionalmente mais associados às mulheres aos que mais desafiavam duros diagramas de gênero. Uma vez terminada a guerra, em lugar do reconhecimento por seus feitos heróicos, encontraram constrangimento e silêncio. Como diz uma delas, “[os homens] tomaram a vitória de nós. Na surdina, trocaram pela felicidade feminina comum. Não dividiram a vitória conosco” (2016:156).

Embora o tema que tratamos aqui não seja o da resistência armada heróica das mulheres, ele também diz respeito ao papel central dos processos de apagamento no entrelaçamento inescapável entre gênero e violência armada. A masculinidade ostensiva das ações policiais, sobretudo nas chamadas “operações”, envolvendo forte aparato bélico e performances de virilidade agressiva, parece deixar pouco espaço para debates de gênero que não sejam unidimensionais. A reflexão acadêmica, de modo geral, tem privilegiado o foco nas questões sobre os homens, entre masculinidades hegemônicas e subalternas. Quando instadas a comparecer na reflexão, as dinâmicas de gênero que envolvem o feminino e os processos de feminilização acabam por ocupar frequentemente uma posição periférica e sempre associada ao masculino.

Para compreender a capilaridade da presença militarizada nos locais em que esta se dá na maneira mais constante e brutal, como nos territórios de favelas no Rio de Janeiro, é fundamental olhar com cuidado também para as violências aparentemente menores que atingem mulheres, crianças e os espaços domésticos ou íntimos. Os xingamentos de cunho sexual, misógino e/ou LGBTfóbico, as maneiras como as mulheres e demais corpos marcados pelo feminino são abordados, assim como o comportamento bélico masculino nas casas, vielas e ruas, evocam continuamente o horizonte material e simbólico da violência sexual como recurso de dominação.

Priorizar um olhar mais amplo para os contextos militarizados, atentando às várias dimensões de gênero neles presentes, possibilita não excluir de nosso campo de atenção práticas consideradas menos graves

Em cartografia recentemente lançada (Martins et al., 2021), o coletivo de autoras, formado majoritariamente por moradoras das favelas da Maré e de Manguinhos, confecciona um quadro denso e matizado das conexões entre gênero e militarização. Cenas como a do cano do fuzil enfiado na panela de comida que estava sobre o fogão durante a ocupação do Complexo da Maré pelo Exército; ou a do policial em Manguinhos que se dirige à moradora dizendo “ô da bota preta, meu fuzil tá destravado, mas ninguém sabe”, desenham linguagens e performances que produzem corpos e territórios subalternizados.

A ostentação de uma masculinidade militarizada não se faz apenas através da subordinação, pela morte ou pela humilhação, de outros homens, mas também pela penetração contínua dos domínios íntimos, femininos ou feminilizados. O corpo que não pode reagir ao assédio em torno do “fuzil destravado”; a comida que é conspurcada e a casa que é invadida cumprem o papel de pedagogia racializada, generificada e sexualizada das possibilidades de ação estatal nas favelas.

O não reconhecimento do limite entre os espaços que, em bairros “do asfalto”, seriam tomados como privados, tem lugar especialmente significativo. Como em um mosaico de imagens, poderíamos lembrar de imediato das fotografias da cama cor de rosa cheia de sangue depois da chacina policial no Jacarezinho, em maio passado. Ou do depoimento de Eliene Vieira, integrante do movimento Mães de Manguinhos, durante a Audiência Pública relativa à Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental 635, falando do efeito aterrorizante do helicóptero voando baixo sobre as telhas de sua casa. Ou ainda da denúncia que ouvimos de uma moradora de Acari, que não apenas teve sua casa invadida, mas viu sua filha ser xingada e chutada por um dos policiais, ficando a marca da botina gravada na roupa de escola da menina.

Em cada uma destas imagens, há um aspecto forte de contaminação. O sangue e a colcha; o armamento de guerra e a telha; a roupa de escola e o coturno. A experiência de violação reverbera entre corpos, espaços e afetos, produzindo continuamente a corrosão dos limites e barreiras que, em outros cantos da cidade, seriam defendidos com estardalhaço. Nada disto é gratuito - ter a casa como espaço de sossego é um dos elementos de hierarquização mais violentos do racismo. Como nos lembra bell hooks (2019), o esforço de construção de um lar por pessoas negras é algo continuamente atacado em sociedades supremacistas. É nos recônditos do doméstico que se fazem pessoas e se tramam possibilidades de resistência.

O que ela denomina como “valor subversivo de um lar” pode ser encontrado não apenas nas relações interpessoais e familiares, mas também na ação coletiva de movimentos de familiares de vítimas de violência letal do Estado. A contestação à retórica e às práticas da guerra, que justificariam as mortes de filhos e familiares, é feita justamente a partir da densidade dos vínculos que foram destruídos. Centrados na díade mãe-filho, o que os movimentos levam para o centro da cena política é o complexo moral, afetivo e relacional da casa, produzindo uma inversão fundamental. Se a casa foi destruída, a guerra não pode ter valor (Vianna e Farias, 2011).

O arrombamento da porta de uma casa é parte de um entrelaçamento territorial, racial e de gênero que igualmente se faz presente nas demais ações que compõem as incursões policiais nas favelas. Um mesmo conjunto de tecnologias governamentais conecta a invasão das casas, da favela e dos corpos, o que nos lembra que “a penetração do corpo de uma mulher por um membro do batalhão não pode ser vista como menos grave do que a penetração do corpo do homem por uma bala de um fuzil da corporação” (Farias, 2021).

Priorizar um olhar mais amplo para os contextos militarizados, atentando às várias dimensões de gênero neles presentes, possibilita não excluir de nosso campo de atenção práticas consideradas menos graves. Frente à brutalidade escandalosa da letalidade policial que atinge sobretudo, embora não exclusivamente, homens, toda uma rotina de violências contra mulheres e outros corpos feminilizados tende a ficar empalidecida. Não devemos esquecer, porém, que o modo como estas violências vão sendo trazidas por aquelas e aqueles que as vivenciam nos fala tanto da profundidade das formas de poder que as estruturam, como dos modos de enfrentá-las. Acreditamos na importância de produzir torções e deslocamentos nos enquadramentos sobre violência, Estado, gênero, raça e territorialidade, de modo a não reiterar em nossas pesquisas hierarquias político-cognitivas já há muito consolidadas.

Bibliografia

Aleksiévitch, Svetlana (2016). A guerra não tem rosto de mulher. São Paulo: Cia das Letras.

Farias, Juliana (2021). Gender Violence, State Violations. Academia Letters, Article 1831.

hooks, bell (2019). Constituir um lar. Espaço de resistência. In: Anseios. Raça, Gênero e Políticas culturais. Editora Elefante.

Martins, A. C. et al. (2021). Violências de gênero em contextos militarizados: uma cartografia escrita por mulheres. Rio de Janeiro: FASE-Rio; Pagu/Unicamp; CIDADES/Uerj.

Vianna, Adriana; Farias, Juliana (2011). A Guerra das Mães. Dor e política em situações de violência institucional. Cadernos Pagu (37).

Vianna, Adriana; Lowenkron, Laura (2017). O duplo fazer do gênero e do Estado: interconexões, materialidades e linguagens. Cadernos Pagu, Campinas, n.51.

Adriana Vianna é professora do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional/UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). É graduada em história pela UFF (Universidade Federal Fluminense), mestre e doutora em antropologia social pelo Museu Nacional/UFRJ. Pesquisa e orienta trabalhos sobre relações de gênero, violência, processos de Estado, direitos e moralidades.

Juliana Farias é antropóloga e atua como pesquisadora do Núcleo de Justiça Racial e Direito (FGV Direito SP). Possui graduação e mestrado em ciências sociais pela UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), e doutorado em sociologia e antropologia pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). É autora do livro “Governo de mortes” (Papéis Selvagens, 2020) e co-roteirista do documentário “Auto de resistência” (2018).

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