A contribuição da restauração florestal na regulação das mudanças climáticas

Fernando Ravanini Gardon e Ricardo Ribeiro Rodrigues
As exigências ambientais contemporâneas e pressões de mercado contribuem para tornar a restauração florestal um meio para concretizar os compromissos de redução de emissões de carbono e desenvolvimento limpo assumidos por diversos países

O contínuo aumento da concentração de GEEs (gases de efeito estufa) coloca ecossistemas naturais e populações humanas de diversas regiões do globo em uma trajetória de mudanças climáticas, que ameaça o equilíbrio ecológico, a oferta de alimentos e de serviços ecossistêmicos vitais 1.

As projeções obtidas por modelos climáticos recentes apontam para o aumento dos níveis dos oceanos, da severidade de secas intensas e inundações e da frequência de eventos climáticos extremos - como tempestades, ondas de frio e calor, incêndios, furacões, etc -, com danos diretos à saúde das pessoas em um futuro recente, seja pela exposição a altas temperaturas, pela falta de alimentos, ou pela indisponibilidade de água. Com as mudanças climáticas, plantas e animais utilizados na alimentação podem não ser mais capazes de se desenvolver em determinadas regiões, impossibilitando ou reduzindo fortemente as atividades agropecuárias e meios de subsistência em zonas que hoje são altamente produtivas e obrigando o deslocamento de muitas famílias. Para reverter este cenário é preciso o desenvolvimento e adoção de ambiciosos e robustos programas de mitigação que busquem evitar as emissões e reduzir a concentração de GEEs na atmosfera, mantendo estes valores abaixo do limite máximo, a partir do qual não haverá como retornar a níveis climáticos seguros.

Dentre as estratégias já comprovadas que contribuem para a mitigação dos efeitos das mudanças climáticas, a restauração ecológica de ecossistemas naturais possui papel de destaque. Particularmente, projetos de restauração florestal possuem um expressivo potencial de mitigar os efeitos das mudanças climáticas, uma vez que altas taxas de CO2 (dióxido de carbono) atmosférico são removidas pelas florestas em recuperação que estocam o carbono sequestrado nos tecidos vegetais em forma de biomassa. Avaliações atuais têm mostrado que florestas tropicais e subtropicais restauradas por diferentes métodos podem, de maneira bastante conservadora, acumular entre 60 e 120 tonsC/ha (toneladas de carbono por hectare) na biomassa acima do solo nos primeiros 30 anos após a implantação 2 3 4. Isso representa uma capacidade de sequestro anual de CO2 da ordem de 7-14 tonsCO2/ha/ano (toneladas de dióxido de carbono por hectare por ano). Em um exemplo de larga escala, a restauração dos 350 milhões de hectares de terras degradadas até 2030 proposta pelo “Desafio de Bonn” poderia sequestrar anualmente até 1.7 bilhões de toneladas de CO2 5, o que representa cerca de 4% das emissões anuais globais recentemente registradas – 42 bilhões de toneladas de CO2/ano 6.

Em um cenário hipotético, no caso de um projeto de restauração de 50 hectares em regiões tropicais, onde podemos assumir uma taxa conservadora de sequestro anual de 7 tonsCO2/ha/ano, seria possível remover cerca de 10.5 mil toneladas de CO2 da atmosfera em 30 anos.

O crescente número de iniciativas globais de restauração, assim como a expansão dos mercados de carbono, evidencia a possibilidade de mudanças expressivas nos próximos anos - principalmente nos setores responsáveis pelas altas emissões de GEEs

O que isso significa em termos de mitigação? Considerando atividades canavieiras, por exemplo, e assumindo que o consumo de combustíveis fósseis pelos processos de plantio, tratos culturais e colheita mecanizada da cana-de-açúcar emite cerca de 1.1 tonsCO2/ha/ano 8 9, podemos esperar que em 50 hectares sejam emitidas cerca de 1.650 toneladas de CO2 em 30 anos. Com isso, para um mesmo período de tempo (30 anos), cada hectare de floresta restaurado é capaz de mitigar a emissão de CO2 proveniente de 6.4 hectares utilizados para cultivo de cana-de-açúcar. Se considerarmos áreas ocupadas por pecuária em uma densidade de 1.3 animais/ha (média nacional brasileira) e um potencial de emissão de 1.7 tonsCO2/animal/ano, esta atividade pode liberar cerca de 2.2 tonsCO2/ha/ano 10 11.

Assim, em 30 anos, 50 hectares destinados à pecuária podem emitir cerca de 3.300 tonsCO2, sendo que, neste caso, cada hectare de floresta restaurado seria capaz de mitigar a emissão proveniente de 3.2 hectares utilizados para pecuária. É preciso destacar que tal contribuição deve ser ainda maior, uma vez que compartimentos de estocagem de carbono como as raízes, a serapilheira e a fração orgânica do solo não estão sendo considerados. Visto que no território brasileiro há cerca de 20 milhões de hectares de áreas protegidas por lei que estão hoje desprovidas de vegetação (áreas de preservação permanente e de reserva legal degradadas) e devem legalmente ser restauradas nas próximas décadas 7, o país possui uma enorme oportunidade para mitigar as emissões de GEEs provenientes das principais atividades econômicas praticadas no seu território.

Apesar de projeções pessimistas apontarem para cenários catastróficos de mudanças climáticas no futuro, a oportunidade de mudar esta trajetória está no presente. O crescente número de iniciativas globais de restauração, assim como a expansão dos mercados de carbono, evidencia a possibilidade de mudanças expressivas nos próximos anos - principalmente nos setores responsáveis pelas altas emissões de GEEs, como as atividades agropecuárias, o desmatamento e a produção industrial. Neste sentido, a pressão por menores emissões aliada às políticas de expansão econômica das empresas, acabam por promover a restauração florestal como meio para as próprias empresas atingirem as suas metas e compromissos de emissões. Adicionalmente, esse comportamento cria oportunidades para geração de renda atrelada aos mercados de carbono.

Em outras palavras, as empresas sempre irão buscar crescimento econômico aumentando suas produções, mas, ao mesmo tempo, deverão diminuir suas emissões para atender aos compromissos climáticos assumidos pelas nações e as exigências do consumidor moderno. Essa dinâmica de pressão de mercado e regulação ambiental aquece o setor de restauração florestal e sua cadeia econômica, gerando diversos benefícios socioeconômicos e ambientais. Embora seja um processo complexo e burocrático, envolvendo altos custos para certificação, a geração de créditos de carbono tem potencial de se tornar uma nova e lucrativa “commodity” em pouco tempo. Atualmente, uma tonelada de CO2 sequestrado (equivalente a um crédito de carbono) é comercializada entre $3 e $5 (USD) no mercado voluntário, mas projeções apontam que este valor pode chegar a $20-50 até o ano de 2030 caso a demanda continue crescente e o mercado alavancado 12. Tal conjuntura de fatores amplia as oportunidades de ganhos econômicos a partir de ações que evitam emissões ou removem CO2 da atmosfera, onde a restauração florestal possui papel de destaque.

Por fim, é importante salientar que, os efeitos adversos que são esperados no caso da continuidade das emissões de GEEs e consequente elevação das temperaturas globais - como o deslocamento das chuvas e aumento das temperaturas - afetarão as áreas de ocorrência natural das diferentes tipologias florestais (fitofisionomias), assim como o seu potencial de sequestro de carbono e mitigação das mudanças climáticas 1. Neste contexto, é evidente que o carbono sequestrado e estocado pelas florestas constitui um ativo biológico suscetível à influência dos elementos bióticos e abióticos, os quais coexistem nos ambientes e determinam o potencial de sequestro de carbono das restaurações. Por estas razões, garantir a taxa de sequestro esperada e a permanência do carbono no meio terrestre pode não ser uma tarefa simples, constituindo um risco para os investimentos no setor. Contudo, o bom planejamento e o contínuo monitoramento das restaurações podem garantir a expressão do seu potencial máximo de sequestro, promovendo mercados econômicos baseados nos princípios da sustentabilidade e contribuindo de forma efetiva para a mitigação dos efeitos das mudanças climáticas.

BIBLIOGRAFIA

1. IPCC, 2021: Summary for Policymakers. In: Climate Change 2021: The Physical Science Basis. Contribution of Working Group I to the Sixth Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change [Masson-Delmotte, V., P. Zhai, A. Pirani, S. L. Connors, C. Péan, S. Berger, N. Caud, Y. Chen, L. Goldfarb, M. I. Gomis, M. Huang, K. Leitzell, E. Lonnoy, J.B.R. Matthews, T. K. Maycock, T. Waterfield, O. Yelekçi, R. Yu and B. Zhou (eds.)]. Cambridge University Press. In Press. Disponível em: https://www.ipcc.ch/report/ar6/wg1/downloads/report/IPCC_AR6_WGI_SPM.pdf

2. Poorter, L., Bongers, F., Aide, T. M., Zambrano, A. M. A., Balvanera, P., Becknell, J. M. & Rozendaal, D. M. (2016). Biomass resilience of Neotropical secondary forests. Nature, 530(7589), 211-214.

3. Gardon, F. R., dos Santos, R. F., & Rodrigues, R. R. (2020). Brazil’s forest restoration, biomass and carbon stocks: A critical review of the knowledge gaps. Forest Ecology and Management, 462, 117972.

4. Brancalion, P. H., Guillemot, J., Cesar, R. G., Andrade, H. S., Mendes, A., Sorrini, T. B. & Chazdon, R. L. (2021). The cost of restoring carbon stocks in Brazil's Atlantic Forest. Land Degradation & Development, 32(2), 830-841.

5. IUCN - Iternational Union for Conservation of Nature (2021). Forests and climate change. Available at: https://www.iucn.org/resources/issues-briefs/forests-and-climate-change

6. Ritchie, H., & Roser, M. (2020). CO₂ and Greenhouse Gas Emissions. Disponível em: https://ourworldindata.org/co2-and-other-greenhouse-gas-emissions

7. Soares-Filho, B., Rajão, R., Macedo, M., Carneiro, A., Costa, W., Coe, M. & Alencar, A. (2014). Cracking Brazil's forest code. Science, 344(6182), 363-364.

8. Soares, L. H. B., Alves, B. J. R., Urquiaga, S., Boddey, R. M. (2009). Mitigação das emissões de gases efeito estufa pelo uso de etanol da cana-de-açúcar produzido no Brasil. Embrapa 79 Agrobiologia-Circular Técnica (INFOTECA-E). Disponível em: https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/CNPAB-2010/35797/1/cit027.pdf

9. Souza, W. L. B. (2016). Emissão de gases de efeito estufa associada ao manejo da cana-de-açúcar no Planalto Ocidental Paulista. UNESP. Disponível em: https://repositorio.unesp.br/handle/11449/146700

10. Primavesi, O. (2007). A pecuária de corte brasileira e o aquecimento global. São Carlos: Embrapa Pecuária Sudeste. Disponível em: https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/bitstream/doc/47808/1/Documentos72.pdf

11. SEEG - Sistema de Estimativa de Emissões de Gases de Efeito Estufa (2018). Emissões do setor de agropecuária. Disponível em: www.imaflora.org/downloads/biblioteca/Relatorios_SEEG_2018-Agro_Final_v1.pdf

12. Trove Research (2021): Future Demand, Supply and Prices for Voluntary Carbon Credits – Keeping the Balance. Disponível em: https://trove-research.com/wp-content/uploads/2021/06/Trove-Research-Carbon-Credit-Demand-Supply-and-Prices-1-June-2021.pdf

Fernando Ravanini Gardon é engenheiro florestal pela Faculdade de Ciências Agronômicas de Botucatu (FCA/UNESP), mestre em recursos hídricos energéticos e ambientais (FEC/UNICAMP) e doutor em ecologia (IB/USP). Desde 2013 desenvolve pesquisas no âmbito da restauração florestal e serviços ecossistêmicos. Nos últimos anos tem avaliado os fatores que determinam os padrões de sequestro de carbono por florestas em processo de restauração e o seu potencial em contribuir para a mitigação dos efeitos das mudanças climáticas.

Ricardo Ribeiro Rodrigues é biólogo pela Universidade Estadual de Campinas (1982), com mestrado (1987) e doutorado (1991) em biologia vegetal também pela Unicamp. É docente (professor titular) do Departamento de Ciências Biológicas da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz/Universidade de São Paulo (ESALQ/USP) desde 1987, tem experiência na área de sistemática, ecologia e restauração florestal, tendo coordenado a restauração de mais de 25 mil ha de florestas ciliares (Áreas de Preservação Permanente) e de Reserva Legal.

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