200 mil vidas perdidas por covid-19: triste saldo de 2020

Marcia C. Castro
A pandemia afetou nossas vidas, expôs o melhor e o pior do ser humano, evidenciou as consequências de péssimas lideranças políticas e escancarou desigualdades estruturais

No dia 11 de março, a OMS (Organização Mundial da Saúde) declarou pandemia do novo coronavírus, Sars-Cov-2. No dia 8 de dezembro, a vacina da Pfizer começou a ser aplicada no Reino Unido. Os fatos ocorridos nos 272 dias que transcorreram entre esses dois eventos fizeram de 2020 um ano com as duas faces da memória: inesquecível e a ser esquecido.

Por um lado, nunca se produziu uma vacina em um espaço de tempo tão curto. Grupos de colaboração surgiram de forma nunca antes vista, unindo pesquisadores, instituições e países com um único objetivo: avançar o conhecimento e gerar evidências que pudessem subsidiar a tomada de decisão. A importância da interdisciplinaridade na saúde pública ficou evidente – não se enfrenta uma pandemia só com epidemiologia e medicina, mas também com história, imunologia, demografia, economia, sociologia, etnografia, comunicação, direito, políticas públicas, pesquisa operacional, matemática, estatística, psicologia, e ética (certamente a lista é ainda maior).

Colaborações também foram vistas entre a iniciativa privada, filantropia, e organizações comunitárias, gerando ações locais de apoio para populações vulneráveis, e fornecendo recursos para compra de equipamentos e abertura de hospitais de campanha. Cientistas saíram de sua zona de conforto e ganharam voz na mídia e nas redes sociais, explicando conceitos complexos, comentando decisões governamentais, trazendo a verdade a quem quisesse ouvi-la. Profissões se reinventaram no mundo remoto. Líderes (alguns poucos) se destacaram pela resposta imediata, fundamentada na ciência, demonstrando compaixão e sensibilidade. E os profissionais de saúde trabalharam sem parar, sob estresse inimaginável, e são os verdadeiros heróis de 2020.

Vimos a naturalização das mortes nas falas de alguns líderes, os mesmos que minimizaram a importância do vírus, que ignoraram a ciência, e que disseminaram inverdades. A inércia de governantes foi (e ainda é) contabilizada em mortes

Por outro lado, em 2020 a polarização da sociedade em alguns países, incluindo o Brasil, transformou medidas de saúde pública (como o uso de máscaras) em manifestações de apoio político. O individualismo e a ignorância saíram do armário. A tecnologia se tornou a única forma de se comunicar (e de se despedir) de entes queridos internados. Muitos perderam a fonte de renda. A saúde mental foi comprometida. As desigualdades foram cruelmente expostas, com o risco de morrer muito maior entre os vulneráveis. Vimos a naturalização das mortes nas falas de alguns líderes, os mesmos que minimizaram a importância do vírus, que ignoraram a ciência, e que disseminaram inverdades. A inércia de governantes foi (e ainda é) contabilizada em mortes.

No mundo, já são mais de 1,8 milhões de mortes por covid-19. Essas mortes não são apenas estatísticas. São vidas interrompidas, sonhos não realizados, que deixaram um vazio irreparável em milhões de lares. O Brasil, que ocupa a segunda posição em número de mortes no mundo desde o dia 7 de junho, alcançou a sombria marca de 100 mil mortes em 8 de agosto, e agora chega a 200 mil. Desde a primeira morte registrada até a marca de 200 mil, foram em média, 660 mortes por dia, 27 mortes por hora!

A resposta do governo federal foi caótica ao atingirmos 100 mil mortes. E continua caótica. O Ministério da Saúde teve parte de seu corpo técnico substituído por militares sem experiência em saúde pública, e suas ações atendem demandas do presidente, que é quem manda. O mesmo presidente que continua a negar a importância do uso de máscaras, que promove aglomeração, que deixou claro que não tomará a vacina, e que dissemina inverdades – as mais recentes incluem a redução de oxigenação com o uso de máscara, e a alteração genética de quem tomar vacina. Ainda não há uma campanha de comunicação em massa, que dissemine uma mensagem única e fundamentada na ciência. Isso abre espaço para a desinformação e a baixa adesão às medidas de proteção que são importantes individualmente, mas acima de tudo coletivamente.

Após atingir 100 mil mortes, a média diária se reduziu a partir de setembro. Cidades começaram a retomar suas atividades seguindo planos locais de reabertura, mas a adesão às medidas de proteção foi e é falha. A partir de novembro, as mortes voltaram a subir, mas durante as festas de final de ano se repetiram cenas de aglomeração, festas e shows clandestinos, em que participantes, irresponsáveis, não usavam máscaras. Desta forma, o Brasil entra 2021 chegando a 200 mil mortes, e pode ter um janeiro dramático com aumento do número de casos e mortes resultantes dessas aglomerações. Isso em um momento em que a taxa de ocupação hospitalar está acima de 80% em várias cidades (em algumas já há fila de espera), a nova variante do Sars-Cov-2, a B.1.1.7., já foi identificada no Brasil, e o benefício emergencial não foi prorrogado para 2021. Enquanto isso, as ações do governo para aquisição de vacinas, seringas, e desenvolvimento de um plano nacional de vacinação se assemelham a um ridículo ato de uma peça teatral de baixíssima qualidade.

200 mil mortes! A pandemia afetou nossas vidas, expôs o melhor e o pior do ser humano, evidenciou as consequências de péssimas lideranças políticas, contribuiu para o retrocesso de avanços na redução da pobreza, escancarou desigualdades estruturais. Esta crise deixou claro que a globalização é um modelo falho quando o mundo demanda os mesmos insumos e produtos, ao mesmo tempo, mas poucos os produzem.

Em dezembro, fiz uma pesquisa online por duas semanas em que perguntei que palavra melhor descrevia o ano de 2020. Pandemia foi a palavra mais citada, e a maioria das palavras retratavam sentimentos negativos. Caos, medo, ansiedade, tragédia, tristeza, incerteza, angústia, cansaço. Mas, como disse Guimarães Rosa, o que a vida quer da gente é coragem. E resiliência foi a quarta palavra mais citada na pesquisa.

Em 2021, há que haver mudança. E a mudança começa em cada um de nós. Qual cidadão você deseja ser? Aquele que prioriza a solidariedade e o bem do coletivo em suas ações, ou o que preza o individualismo e se torna cego e surdo enquanto o povo grita por socorro? A escolha é sua. As consequências da sua decisão afetam cada um de nós.

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