
Em 2020, relatório mostrou que a maior parte dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável estava estagnada no Brasil. Embora país tenha reunido avanços no passado, políticas atuais têm nos desviado dessa rota
Adotada em 2015 pelas Nações Unidas, a Agenda 2030 do Desenvolvimento Sustentável inclui 17 objetivos calcados nos sucessos e no reconhecimento dos desafios não superados pelo seu antecessor, os ODMs (Objetivos de Desenvolvimento do Milênio).
Ainda que a sociedade global tenha observado ganhos como a redução da taxa de pobreza entre 1990 e 2010 e progressos na participação das mulheres na política, notadamente em três eixos os indicadores pioraram: desigualdade social, emissão de GEE (gases de efeito estufa) e declínio da biodiversidade global. Os ODS (Objetivos do Desenvolvimento Sustentável) reconhecem esse panorama, mas não se restringem a esses eixos e destacam metas ligadas a temas como saúde, educação, erradicação da fome e sustentabilidade urbana, apontando ainda as parcerias e os financiamentos às nações em desenvolvimento como essenciais para o alcance das metas.
O último relatório global dos ODS, publicado em junho de 2020, mostra que 16 dos 17 objetivos estão estagnados ou em retrocesso no país
De importância indiscutível, a Agenda 2030, entretanto, apresenta um problema de origem: foi concebida dentro da lógica que levou à sua necessidade. O ODS 8, de crescimento econômico, é um exemplo desse problema. A meta 8.1 propõe o crescimento econômico anual per capita de pelo menos 7% do PIB (produto interno bruto) nos países menos desenvolvidos. Mas o que assegura que o alcance desse objetivo não estaria em conflito com os 16 restantes?
Segundo dados do Banco Mundial, em 2017 a China teve crescimento per capita de 6,35% , próximo à meta do ODS e à frente de países como Estados Unidos e Japão, mas registrou a emissão de 6,7 toneladas de gás carbônico per capita , o maior valor desde o estabelecimento da Agenda 2030 e o equivalente à emissão da União Europeia ( 6,3 toneladas ) — comprometendo o alcance do ODS 13, sobre ação climática. No mesmo ano, o Brasil, por outro lado, teve crescimento econômico inferior ao estabelecido (0,5%) com emissão de 2 toneladas de CO2 per capita, uma das mais elevadas da década recente no país.
Nem sempre foi assim. Entre os anos de 2010 e 2015, o Brasil diminuiu a taxa estimada da população vivendo no limiar da pobreza (com menos de US $1,90 por dia) e passou de 5,6% para 1,9%. O desmatamento, principal fonte de GEE entre os anos 1990 e 2000, foi reduzido significativamente até 2013, com o Brasil assumindo metas ambiciosas junto ao Acordo de Paris de 2015. Reduzir a pobreza, as emissões e a perda de biodiversidade, em conjunto, não apenas cumpre metas em três ODS (1, 13 e 15), como promove uma sociedade mais justa e ecologicamente equilibrada. Entretanto, a forma como a política nacional se apresenta atualmente tem desestruturado instituições centrais a esses avanços e nos desviado da rota da sustentabilidade.
O último relatório global dos ODS, publicado em junho de 2020, mostra que 16 dos 17 objetivos estão estagnados ou em retrocesso no país. Apenas um — ODS 7, sobre energia limpa — apresenta avanços, justificados porque a principal matriz energética brasileira, a hidrelétrica, é considerada renovável, apesar dos inúmeros conflitos socioambientais que acarreta — vide Belo Monte — e que demandam outro texto. De forma geral, entre as 90 metas diretamente conectadas à natureza no Brasil , 32 estão em retrocesso, outras 40 encontram-se estagnadas, 16 não dispõem de dados e apenas duas apresentam progresso satisfatório. A tendência de alcance dos ODS de pobreza e conservação da vida terrestre e aquática em 2030 se torna cada dia menos provável dentro do cenário necropolítico atual. Ainda é possível idealizar um Brasil sustentável?
O país tem grande diversidade biocultural. São mais de 300 etnias indígenas e diversas populações tradicionais-locais, cuja relação histórica com suas áreas de ocupação resultou em um arcabouço de práticas potencialmente adaptáveis às mudanças climáticas e que poderiam ganhar escala (como uso consorciado de espécies e plantios de rotação). Adicionalmente, estudos têm mostrado que a gestão e a conservação de recursos naturais por essas comunidades, além de auxiliarem o desenvolvimento local, promoverem justiça social e amenizarem conflitos, podem ter custos reduzidos e serem tão efetivas em termos de preservação quanto a manutenção das demais áreas protegidas. Desde 2018, a Convenção da Diversidade Biológica adota essas medidas de conservação. O reconhecimento e a garantia dos direitos à terra, além da promoção do desenvolvimento local, colocariam o Brasil no caminho do alcance dos ODS 1, 2, 10, 12 e 13 .
A diversidade urbana também tem papel relevante, já que cerca de 80% da população brasileira vive nas cidades. A Nova Agenda Urbana , adotada pelas Nações Unidas em 2016, prevê mecanismos que buscam reduzir o risco de desastres, propiciando a mitigação e a adaptação às mudanças climáticas, como a ampliação da infraestrutura verde (parques, praças, árvores isoladas etc.) dos municípios. Parte dos problemas decorrentes de enchentes pode ser minimizada com ações contra mudanças climáticas (ODS 13) e com a conservação e a recuperação de ecossistemas terrestres (ODS 15). A manutenção e recuperação de áreas de várzea, por exemplo, limitam a pressão nos sistemas de drenagem pela permeabilidade do solo à água e pela própria vegetação, interceptando a chuva pelas copas e amenizando os efeitos das inundações por águas superficiais.
A urgência de redefinições no modo de vida moderno em decorrência das mudanças que muitos de nós provocamos exige uma transição para a sustentabilidade que não pode ser por remendos. É necessário transgredir o modelo atual de desenvolvimento e começar a pensar e testar novas abordagens. O Brasil é, por natureza, multidimensional, e cada região tem sua característica própria, logo, não há solução única, tampouco receita pronta. O que há são inúmeras oportunidades que precisam ser ouvidas, discutidas e incluídas. As soluções contexto-específicas vão emergir da necessidade de construção de confiança, do diálogo, da inclusão. O que não cabe é um ambiente político – internacional, nacional, ou mesmo profissional – de baixa confiança. Isso é incompatível com o diálogo em busca de soluções.
Maíra Padgurschi é bióloga, Ph.D. em biologia vegetal pela Unicamp, é pesquisadora no Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura/Unicamp e no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia no tema biodiversidade, serviços ecossistêmicos e sustentabilidade. Membro do Conselho Científico da BPBES.
Fabio Scarano é engenheiro florestal, Ph.D. em ecologia e professor titular da UFRJ. Atuou nos painéis da ONU para o clima e biodiversidade e foi dirigente no Jardim Botânico do Rio, na Conservação Internacional e na FBDS. Recebeu dois Prêmios Jabuti. Seu livro mais recente é Regenerantes de Gaia (2019). Membro do Conselho Científico da BPBES.
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