“Descobrir-se realeza”: revisitando memórias, empoderando histórias

Natália de Moraes R. da Silva e Rosalia de Moraes R. da Silva
Projeto em escolas públicas do Rio de Janeiro debateu ancestralidade e identidade com alunas negras. Iniciativa usou como exemplo a figura de Aqualtune, avó de Zumbi dos Palmares

Heloísa Helena Romão — nossa mãe e maior referência de empoderamento feminino negro, educadora na escola e na vida, e hoje ancestral — em um momento de grande conflito no espaço escolar, ao entrarmos no magistério, nos disse a seguinte frase: “Nós não podemos mudar uma casa, uma escola ou um coração se não estivermos dentro dele”. Assim iniciamos as nossas reflexões: pensando o espaço escolar como um espaço de construção de afetos, pois entendemos que uma educação, para que seja efetiva, precisa ser afetiva.

Somos irmãs, mulheres, negras, nascidas e residentes em Campo Grande, bairro periférico do Rio de Janeiro, professoras de história da rede pública e de língua portuguesa da rede privada de ensino da cidade e ex-alunas que sentiram as ausências de imagens positivas negras nos livros didáticos e de referências estéticas entre amigos e professores da educação particular. Hoje, como professoras, e muitas vezes sem querer ou perceber, por meio de vivências dinâmicas da lei n. 10.639/2003, que inclui no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática de história e cultura afro-brasileira, aceitamos com afeto o desafio de querermos ser as professoras que gostaríamos de ter tido.

A sala de aula é nossa motivação para ser resistência. As alunas que encontramos pelo caminho, nas esferas públicas e particulares, foram os principais estímulos para a nossa busca e parceria, enquanto professoras-pesquisadoras, com a Uniperiferias e o Instituto Unibanco, por uma conexão que julgamos relevante: sermos professoras negras que consideram o “paradigma da potência”, de Jailson Silva, como um aporte teórico que reconhece e valida o conhecimento ancestral dos alunos e das escolas públicas periféricas enquanto uma soma de engajamentos afetivos, estéticos, éticos e políticos.

A partir dessas experiências de empoderamento ético e estético das alunas-sujeitas negras no espaço escolar noturno, pensamos que nos foi essencial a construção da negritude como um componente direto para o entendimento de uma educação antirracista

A realidade que encontramos em nossos espaços escolares como professoras ainda é bastante parecida com a realidade que vivemos enquanto alunas negras: deslegitimam e hipersexualizam os nossos corpos, nos apelidam dos cabelos aos pés e marginalizam nossas famílias e ações no mundo. O silenciamento ainda é o nosso principal agressor. Porém, encontramos iniciativas e respaldo na Uniperiferias e começamos a nos reunir com educadores antirracistas e antissexistas nesses espaços, que pensam a educação alinhada e aliada à afetividade, atentos aos diversos saberes e a outras versões libertadoras.

Em nossa parceria, fizemos uma breve análise de experiências narrativas escreviventes pretuguesas, articulando-as com as relações étnico-raciais, e propomos uma via pedagógica decolonial, na qual utilizamos a figura de Aqualtune — avó de Zumbi dos Palmares, líder do Quilombo de Palmares, um corpo negro feminino resistente e ancestral — e sua trajetória de enfrentamento ao racismo no contexto do Brasil Colonial. Com essa abordagem, criamos uma ponte entre o perceber, o fazer e o saber das alunas-sujeitas. Elas são produtoras de linguagem subjetiva, construída em cima das suas relações com a sociedade, e com ela retomam seus lugares sociais, escolares, de escrita e de vida. Ao lado das alunas, encontramos e investimos na ressignificação dos corpos, das interações estabelecidas entre eles e nas relações históricas que eles protagonizam.

Por meio de aulas-encontro lúdicas, multidisciplinares e interativas, refletimos sobre a biografia de Aqualtune em consonância com as histórias das ancestrais das nossas alunas. Uma delas, Andressa, professou a frase: “Admiro todas as mulheres negras. Porque eu sou todas elas”, sintetizando no espaço escolar noturno muitos momentos de descobertas, desabafos, construção e reconstrução de laços afetivos. Mães, tias, filhas, sobrinhas e avós foram lembradas. Outra aluna, Ludimila, nos disse: “ainda estou me descobrindo”. Posteriormente, na continuação das aulas-encontro, houve uma sessão de fotos na qual as alunas reproduziram a foto de uma mulher realeza africana, e Ludimila sentiu-se à vontade para narrar sua trajetória de criação em abrigos e de gratidão por suas tutoras e sua tia, com quem mora atualmente. Além disso, ela se sentiu bonita e com a autoestima elevada. Nos meses seguintes, começou a namorar, arrumou emprego e creditou ao “descobrir-se realeza” o sucesso do seu ano.

A partir dessas experiências de empoderamento ético e estético das alunas-sujeitas negras no espaço escolar noturno, pensamos que nos foi essencial a construção da negritude como um componente direto para o entendimento de uma educação antirracista, que garanta às gerações futuras tecer novas teorias e metodologias para uma sala de aula que contemple a diversidade. E resolvemos fazer, juntas – nós, nossas ancestrais, Aqualtune e suas ancestrais e as alunas-sujeiras e suas ancestrais – com que a sala de aula fosse transgressora. Tivemos cuidadosamente garantidos os nossos direitos de sermos ouvidas. Nos revisitamos, num processo de imagem, fala e escrita por meio de uma pedagogia crítica, engajada e comunitária, em muitos embates feministas e nos educamos juntas para a liberdade.

É por isso que este artigo de opinião, assim como o capítulo que tratamos com mais detalhes no livro “Pesquisadoras da educação básica”, iniciativa da Uniperiferias com o Instituto Unibanco, é um artigo contínuo, porque nos continua. Descobrir Aqualtune e entendê-la como ancestral, como nossas mães, tias e avós, é construir novos cânones. E empretecer o cânone é empoderar, é tornar-se realeza, é fazer parte da ampliação do que é ser mulher e negra no espaço escolar.

Natália de Moraes Romão da Silva é professora-pesquisadora da Uniperiferias. É educadora popular e professora da rede privada, bacharel e licenciada em língua portuguesa (UFRJ), especialista em língua portuguesa (Feuc) e relações étnico-raciais (Cefet-RJ), mestranda em relações étnico-raciais (Cefet-RJ) e doutoranda em educação (Unirio). É coautora do projeto “Codinome: Aqualtune, experiências de empoderamento negro feminino na rede pública escolar do Rio de Janeiro”. É pesquisadora convidada do CPTE (Centro de Pesquisa Transdisciplinar em Educação) do Instituto Unibanco. natyromao@yahoo.com.br

Rosalia de Moraes Romão da Silva é professora-pesquisadora da Uniperiferias. É educadora popular e professora de história da SME-RJ e Seeduc-RJ, bacharel e licenciada em História (UFRJ), especialista em educação inclusiva (Uerj), mestre em relações étnico-raciais (Cefet) e doutoranda em história Social (Unirio). É coautora do projeto “Codinome: Aqualtune, experiências de empoderamento negro feminino na rede pública escolar do Rio de Janeiro”. É pesquisadora convidada do CPTE (Centro de Pesquisa Transdisciplinar em Educação) do Instituto Unibanco. rosaliaromao@gmail.com.

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