É possível ser antirracista sem compreender como o racismo funciona no Brasil?

Delton Aparecido Felipe
No decorrer dos anos, a temática ganhou maior complexidade e hoje requer a compreensão das diferentes formas de suas manifestações no tecido social

Se você vive no Brasil, ou, fora dele, se conectou em alguma rede social como Twitter, Instagram, Facebook, ou, ligou a TV no último ano, você se deparou com novas expressões que inundaram o nosso cotidiano e se tornaram hashtags de movimentos virtuais que buscavam expressar ideias, concepções de mundo e posicionamentos políticos. Uma destas expressões é “antirracismo”. Apesar desta noção já ser conhecida pelos estudiosos de relações étnico-raciais e pelos movimentos sociais negros e indígenas, ela se popularizou, em especial nas redes sociais, após a morte de Geroge Floyd Jr, uma homem afro-americano, que no dia 25 de maio de 2020, foi asfixiado até a morte por um policial branco, durante uma abordagem. A ação do policial foi gravada e as cenas rodaram o mundo, gerando inúmeros protesto nos Estados Unidos e em outros países, inclusive no Brasil, que aproveitou o momento para denunciar novamente e publicamente a violência que os corpos negros sofrem cotidianamente pela força policial nacional.

Em um ano do boom do termo antirracismo no Brasil, encontramos esta expressão associada a “empresas antirracistas”, “produtos antirracistas”, “pessoas antirracistas” e “educação antirracista”. O termo se tornou um vício de linguagem, o antirracismo passou a ser utilizado por muitos como estratégia de isenção, é como se ao utilizar este adjetivo associado a um substantivo, livra-se o substantivo de ser racista, é o novo “eu não posso ser racista, porque tenho um amigo negro”. Mas, a pergunta que fica é: é possível ter uma empresa antirracista, um produto antirracista, uma educação antirracista ou mesmo ser uma pessoa antirracista, sem compreender o que é racismo e como ele funciona nas terras brasileiras? Meu objetivo neste texto, é lhe dizer que não, afinal o antirracismo envolve necessariamente ações que combatem o racismo, e ao meu ver, não é possível prescrever remédios a uma doença, se não se sabe como ela se manifesta e quais os sintomas.

Entender como o racismo opera é uma condição sine qua non para ser antirracista. O racismo, ou melhor dizendo, racismos que aqui aparecem também no plural propositadamente, como todo conceito, o significado dos termos é fluido, e passa por diversas modificações ao longo dos processos históricos

Entender como o racismo opera é uma condição sine qua non para ser antirracista. O racismo, ou melhor dizendo, racismos que aqui aparecem também no plural propositadamente, como todo conceito, o significado dos termos é fluido, e passa por diversas modificações ao longo dos processos históricos, conforme as transformações da sociedade. No caso brasileiro, a palavra racismo comumente remete de imediato às relações estabelecidas para com a população negra, em função do passado colonial escravista e sua negação com o advento da ideologia da miscigenação e da democracia racial.

A partir dos estudos realizados por diversos intelectuais sobre a questão racial no Brasil, especialmente após o projeto que a Unesco, na década de 1950, patrocinou e mobilizou cientistas sociais brasileiros e estrangeiros em torno da temática, o racismo é identificado como componente das relações mais cotidianas, ainda que tenhamos pessoas que o negue. No decorrer dos anos, a temática ganhou maior complexidade e hoje requer a compreensão das diferentes formas de suas manifestações no tecido social:

Racismo estrutural: dimensão que alicerça as relações sócio-políticas-econômicas dos diferentes grupos que compõe a sociedade brasileira, configurando privilégios aos grupos de poder (branco) a partir da marca da racialização dos outros grupos, não-brancos, sobretudo, negros e indígenas 1;

Racismo institucional: manifesta-se nas mais diversas instituições, em nível coletivo que impacta diretamente no sujeito racializado: “infligindo condições desfavoráveis de vida à população negra e indígena e/ou corroborando o imaginário social acerca de inferioridade dessa população, e, na contramão, atua como principal alavanca social para os(as) brancos(as)” 2;

Racismo intersubjetivo: também conhecido como interpessoal, trata dos processos de desigualdade política com base na raça/cor que ocorrem entre os sujeitos em interação, “como um chefe ou um pai branco versus funcionário ou filho negro/indígena”, pode ocorrer entre aquele que, do ponto de vista do papel social, ocupa um lugar de subordinação, mas que, da perspectiva do racismo, assume ou almeja assumir uma situação de vantagem, como, “por exemplo, entre um funcionário branco que desmerece seu chefe pelo simples fato de ele ser negro(a)” 3;

Racismo internalizado: também pode ser chamado de pessoal. Trata-se do racismo que vamos internalizando ao longo da vida e molda nossa conduta. Está alicerçado nas manifestações racistas cotidianas, explícitas ou camufladas. Há casos em que são conscientes tanto por parte do racista quanto daquele que sofre o golpe, no entanto, há situações em que um e/ou outro não atentam para o acontecido, “aquele que recebe o golpe do racismo quase sempre (se não sempre) carrega marcas simbólicas e/ou materiais do ataque vivido, mesmo que não saiba nomear o que viveu e por qual razão” 4.

É importante salientar que apesar de demonstrarmos a pluralidade de manifestações, o fenômeno é o mesmo: o racismo que se manifesta de formas distintas e muitas vezes em concomitância. A não compreensão de como este fenômeno se manifesta e quais seus sintomas esvazia o antirracismo de seu sentido político, fazendo com que a discussão perca impacto social, servindo somente para isentar aqueles que não querem se comprometer com fim das desigualdades sociais que tem como base a raça/cor. Não há antirracismo ou antirracista, sem o reconhecimento das desigualdades causadas pelo racismo.

Delton Aparecido Felipe é diretor de relações internacionais da ABPN (Associação Brasileira de Pesquisadores/as Negros/as). Professor do Departamento de História e pesquisador do NEIAB/UEM (Núcleo de Estudos Interdisciplinares Afro-Brasileiro da Universidade Estadual de Maringá - Paraná). É pesquisador convidado do CPTE (Centro de Pesquisa Transdisciplinar em Educação) do Instituto Unibanco.

Os artigos publicados na seção Opinião do Nexo Políticas Públicas não representam as ideias ou opiniões do Nexo e são de responsabilidade exclusiva de seus autores.

Parceiros

AfroBiotaBPBESBrazil LAB Princeton UniversityCátedra Josuê de CastroCENERGIA/COPPE/UFRJCEM - Cepid/FAPESPCPTEClimate Policy InitiativeGEMAADRCLAS - HarvardIEPSJ-PalLAUTMacroAmb