Um marco sombrio: 100 mil mortes por covid-19

Marcia C. Castro
A pandemia expôs o individualismo, a arrogância e o negacionismo da ciência, e trouxe à tona a politização de ações de saúde cujo preço o Brasil contabiliza em vidas humanas perdidas

Pouco mais de cinco meses após o primeiro caso confirmado de covid-19, o Brasil atinge o marco sombrio de 100 mil vidas perdidas e quase 3 milhões de casos confirmados. Os números reais certamente são maiores, considerando as infecções e mortes ainda em investigação. Apenas 85 dos 5.570 municípios brasileiros não tiveram registros confirmados, todos com menos de 20 mil habitantes. Durante a segunda metade dos últimos cinco meses, as mortes cresceram aceleradamente, e o Ministério da Saúde não tinha (e ainda não tem) um ministro efetivo.

Como o Brasil chegou até aqui? Ainda que haja muitos desafios ao controle do novo coronavírus, a resposta do governo federal é caótica. A rede de agentes comunitários de saúde (ACS), espinha dorsal da atenção primária, não foi utilizada (à exceção de poucos municípios, por meio de iniciativas de prefeitos). São quase 270 mil agentes, atendendo cerca de 75% da população, que permitiriam uma resposta adaptada às desigualdades locais. Os profissionais conhecem a área e a população a que servem, e poderiam priorizar pessoas com comorbidades e áreas cujas condições impedem ventilação apropriada, higiene das mãos ou o distanciamento físico. Eles facilitariam um programa de rastreamento de contato, mas não receberam treinamento nem equipamento de proteção. Na prática, uma resposta federal adaptada às desigualdades não existiu.

A importância do vírus e de medidas não farmacêuticas de controle foram minimizadas, e repetidas vezes se via a imagem do presidente, sem máscara, interagindo com a população e desrespeitando o distanciamento físico, mesmo quando estava com covid-19. A testagem é baixa e o rastreamento de contatos não foi implementado quando o número de casos ainda permitia a viabilidade dessa estratégia. Um protocolo para uso de cloroquina e hidroxicloroquina no tratamento precoce de pacientes com covid-19 foi aprovado apesar da falta de evidência científica sobre a eficácia desses medicamentos. Enquanto o governo comprava cloroquina, os hospitais tinham falta de medicamentos necessários para pacientes em UTI. É nítida, e vergonhosa, a negação da ciência. Em uma sociedade polarizada, esse cenário contribui para a disseminação de fake news e compromete a adesão da população às medidas de controle.

Na ausência de uma resposta federal coordenada, de uma mensagem única e baseada na ciência, e de ações direcionadas aos mais vulneráveis, a resposta veio de governos locais e da ação social. O engajamento de moradores, setor privado, filantropia, pesquisadores e representantes de estados e municípios assumiu proporções inéditas, salvou vidas e contribuiu para que os números não fossem ainda piores. A solidariedade veio em forma de cestas básicas, produtos de limpeza, informação e monitoramento de sintomas na população idosa e com comorbidades. Em um país marcado por desigualdades sociais e econômicas, essas ações são importantes, mas não chegam a todos que necessitam.

Se antes da pandemia já se ressaltava a necessidade de valorizar o SUS, agora isso é prioridade máxima

A resposta de governadores e prefeitos foi heterogênea na forma, no conteúdo e no momento de implementação de estratégias, como distanciamento físico, uso obrigatório de máscara, toque de recolher, fechamento do comércio, abertura de hospitais de campanha, compra de equipamentos, transparência nos dados, engajamento com pesquisadores, comunicação com a população e planos de reabertura. Heterogêneos também foram os resultados, que vão de narrativas de sucesso a casos de corrupção e desrespeito aos profissionais de saúde.

Diante desse caos, não é por acaso que as estatísticas de covid-19 escancaram as desigualdades, revelando um padrão de morbidade e mortalidade desproporcionalmente maior entre pobres, negros e pardos, que moram em áreas com infraestrutura precária ou inexistente. Essa população é duplamente vulnerável à covid-19. Apresentam saúde mais frágil devido aos determinantes sociais de saúde desfavoráveis e têm uma exposição maior ao coronavírus, pois, em sua maioria, não podem trabalhar remotamente e utilizam transporte público com alta aglomeração.

Mas ainda há tempo de mudar o curso, incorporando os agentes comunitários de saúde nas ações locais, especialmente nas áreas mais vulneráveis, e expandindo a testagem, fortalecendo a vigilância e incorporando rastreamento de contatos nos planos de reabertura. Com uma média de cerca de 1.000 mortes e 40 mil casos diários no Brasil nos últimos dois meses, essas mudanças são urgentes. Um detalhado plano nacional de enfrentamento à covid-19 elaborado pela Associação Brasileira de Saúde Coletiva foi apresentado em audiência Pública da Comissão Externa da Câmara dos Deputados no dia 4 de agosto e será encaminhado ao Ministério da Saúde e ao Palácio do Planalto.

Além disso, a mobilização social é vital. O SUS surgiu da mobilização da sociedade, que fez da saúde um direito de todos. Porém, desde sua criação, o sistema é subfinanciado — o que se agravou a partir da implementação do teto de gastos em 2016. Se antes da pandemia já se ressaltava a necessidade de valorizar o SUS, agora isso é prioridade máxima. Cerca de 75% da população depende unicamente do SUS para ter acesso à saúde, e esse número deve aumentar em função da crise econômica causada pelo coronavírus. Além disso, o envelhecimento populacional e as várias sequelas da covid-19 que têm sido demonstradas recentemente vão aumentar a demanda por serviços de complexidade média e alta. Nesse cenário, ou temos um SUS valorizado, ou veremos o aumento de mortes evitáveis, diminuição da expectativa de vida ao nascer e o crescimento ainda maior das desigualdades sociais.

A pandemia da covid-19 evidenciou as melhores e as piores lideranças, e expôs o melhor e o pior do ser humano. Por um lado, colaborações entre pesquisadores e instituições acadêmicas geram conhecimento em tempo recorde, e ações sociais oferecem ajuda aos mais vulneráveis e salvam vidas. Por outro lado, a pandemia expôs o individualismo, a arrogância e o negacionismo da ciência, e trouxe à tona a politização de ações de saúde pública cujo preço o Brasil contabiliza em vidas humanas perdidas. Até agora são 100 mil.

Marcia C. Castro é professora de demografia, chefe do Departamento de Saúde Global e População da Escola de Saúde Pública de Harvard, membro do conselho consultivo do IEPS (Instituto de Estudos para Políticas de Saúde) e codiretora do Programa de Estudos Brasileiros do David Rockefeller Center for Latin American Studies. Tem PhD em demografia pela Princeton University e estuda doenças infecciosas e políticas de saúde.

mcastro@hsph.harvard.edu

@marciacastrorj

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