Só sairemos desta pandemia juntos

Graziella Moraes Silva
Enquanto a desigualdade continuar sendo percebida por setores da elite como um problema exclusivo dos pobres, não chegaremos a soluções sustentáveis para a pandemia

Se o vírus da covid-19 não vê a nacionalidade, classe ou raça de suas vítimas, seus impactos sobre a pobreza e as desigualdades globais são cada vez mais visíveis.

Entre países, observam-se importantes desigualdades nas taxas de testes disponíveis, UTIs, ventiladores e médicos por habitantes. Ainda que não seja possível estabelecer uma correlação clara entre PIB nacional e políticas de confinamento, uma medida de prevenção que tem se mostrado eficaz até o momento, países mais ricos investiram mais em políticas emergenciais que garantiram renda complementar e auxílio para pequenos negócios. Isso significa que, na prática, residentes de países mais ricos podem ficar em casa, enquanto os trabalhadores dos países pobres, com frequência informais, têm que escolher entre ter renda ou se confinar.

Dentro de cada país, a possibilidade de isolamento também varia não apenas entre formais e informais, mas igualmente entre quem pode trabalhar de casa e quem realiza trabalhos manuais ou de baixa qualificação. As desiguais taxas de densidade também influenciam as condições e possibilidades de sucesso do confinamento, muito mais difícil em centros urbanos pobres, densos e com moradias superlotadas do que em subúrbios ou condomínios com áreas de lazer privativas. A covid-19 também acirrou as desigualdades preexistentes, matando mais afro-americanos nos Estados Unidos, mais imigrantes precarizados na Europa e mais negros e residentes de favelas no Brasil.

O vírus não apenas aumenta as desigualdades globais, mas confere um sentido literal aos campos de extermínio da desigualdade de Goran Therborn: estamos falando de desigualdades que matam

Tal cenário deixa pouca dúvida de que o vírus não apenas aumenta as desigualdades globais, mas confere um sentido literal aos campos de extermínio da desigualdade de Goran Therborn: estamos falando de desigualdades que matam. Contudo, muitos analistas também têm argumentado que a pandemia pode ser uma oportunidade de redistribuição. Como afirmou Thomas Piketty em entrevista recente sobre o livro Capital e Ideologia, o resultado dessa pandemia depende menos da pandemia em si do que da forma como ela será interpretada.

Como lembrou Carolina Botelho em artigo recente aqui no Nexo, a maneira como as elites interpretam esses eventos é particularmente importante, já que elas têm o poder imediato de definir a agenda política e a implementação de políticas públicas. No livro “In care of the State”, Abram De Swaan analisa como as epidemias do século 19 na Europa evidenciaram a interdependência entre ricos e pobres. Para evitar que as doenças se espalhassem, como forma de proteger a si mesmas, as elites entenderam que era necessário investir em saneamento básico e saúde pública. Para que outras elites não se beneficiassem dessas melhorias sem contribuir, era necessário coletivizar os custos por intermédio do Estado, que receberia impostos e cobraria de todos que pudessem pagar. Se, a curto prazo, as elites pagaram e o pobres se beneficiaram, a longo prazo, foram construídas sociedades menos desiguais e mais seguras para todos.

No caso brasileiro, os estudos da socióloga da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) Elisa Reis demonstram que as elites econômicas, políticas e burocráticas reconhecem consequências negativas da nossa abissal desigualdade. Se ela anda sumida da agenda do Poder Executivo, dominada pelo paranoico medo do comunismo e pela indignação com empregadas domésticas que viajam para a Disney, outros setores importantes a identificam como um problema urgente. Mesmo em tempos de pandemia, no entanto, essa percepção não se traduz necessariamente no reconhecimento da interdependência entre ricos e pobres. Tal reconhecimento é o que justificaria a redistribuição, não como um ato de filantropia de generosas elites para os mais vulneráveis, mas como um investimento em um país melhor para todos.

No modelo atual, temos um sistema de impostos regressivo, no qual os mais ricos pagam pouco em comparação aos mais pobres. Esse pouco é visto como demasiado, pois a classe média alta paga muito para garantir leitos em hospitais privados, segurança particular e escolas de qualidade que o Estado, visto como ineficiente, não consegue suprir. As disputas sobre sua eficiência geraram a polarizada discussão entre desenvolvimentismo e neoliberalismo, que perde de vista seu papel na proteção da sociedade, incluindo os ricos, dos riscos advindos da globalização.

Ao lotar UTIs e ameaçar o acesso privilegiado da classe média alta à saúde, a pandemia serviu para nos lembrar que, apesar das distâncias socioeconômicas, vivemos em um mesmo país. Ironicamente, no caso da covid-19, foram os ricos que contaminaram os pobres, ao voltarem da Europa e dos Estados Unidos. Investir em serviços públicos de qualidade por meio de impostos mais progressivos, que garantam o fortalecimento de políticas como o SUS, é o caminho mais seguro para sair desta situação. Paradoxalmente, ele também pode ser o menos custoso, principalmente quando o preço a se pagar é a própria vida.

A polêmica fala de Guilherme Benchimol, diretor da XP Investimentos, a maior corretora de valores independente do país, ilustra a tensa relação entre reconhecimento da desigualdade e negação da interdependência entre diferentes grupos sociais. Segundo ele, “o pico da doença já passou quando a gente analisa a classe média, classe média alta. O desafio é que o Brasil é um país com muita comunidade, muita favela, o que acaba dificultando o processo todo”. A nota de esclarecimento sustentou que seu objetivo era demonstrar “sua preocupação com o fato de a covid-19 representar um problema ainda mais grave em países com elevado desequilíbrio econômico-social e deficiências em seus sistemas de saúde e saneamento”. Entretanto, enquanto a desigualdade continuar sendo percebida como um problema dos pobres, o que permite a Benchimol afirmar que existe um “pico da classe alta” e um “pico das favelas”, será difícil chegar a soluções que produzam maior igualdade. Uma solução sustentável para a pandemia atual, e para criar uma sociedade viável no futuro, passa necessariamente pela compreensão de que todos vivemos no mesmo mundo, atualmente assolado por pandemias e mudanças climáticas. Só sairemos desta todos juntos.

Graziella Moraes Silva é doutora em sociologia pela Universidade Harvard, professora do PPGSA (Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia) da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e do Iheid (Instituto de Pós-Graduação em Estudos Internacionais e de Desenvolvimento) em Genebra, na Suíça, e pesquisadora associada ao CSDA (Centro de Desenvolvimento Social na África), da Universidade de Johannesburg, na África do Sul.

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