Rimando a pandemia

Daniela Vieira e Jaqueline Lima Santos
A geração hip-hop tem narrado a crise da covid-19 em diversos países. No Brasil, artistas falam de prevenção, crise política e desigualdades históricas

As periferias do mundo não se configuram como a porta de entrada da covid-19, mas costumam ser os territórios onde a doença tem maior impacto. Com essa certeza, o rapper Emicida deu o seguinte recado à sociedade brasileira:

“Eu acho que a gente tem uma situação muito emblemática na realidade do Brasil que é: a primeira vítima do coronavírus foi uma empregada doméstica, que pegou coronavírus da sua patroa, aparentemente. Isso é muito simbólico, muito forte. As pessoas pobres se contaminam mais, elas têm menos condições de se cuidar (...) os abismos sociais impossibilitam que as pessoas mais pobres — e muitas vezes as pessoas mais pobres também são as pessoas mais pretas — venham a se recuperar dessa doença. Isso é desesperador”

Emicida

rapper, em declaração de 14 de julho de 2020 no programa Domingão do Faustão

GOG, outra referência do rap nacional, declarou em abril de 2020 que “nesta pandemia do coronavírus, tem que ter atitude. Mas qual o papel do governo e por que o Estado mínimo não serve? O Estado tinha que estar preparado para receber, também, o que é emergência e o que não foi esperado”.

As falas dos rappers, embora atentas ao contexto brasileiro, fazem coro com a atuação da geração hip-hop que, em âmbito mundial, vem demonstrando as disparidades sociais e raciais intensificadas com a crise sanitária. Ao mesmo tempo que denunciam essas desigualdades, estabelecem, igualmente, uma comunicação preventiva e colaborativa.

Tanto nos EUA quanto no Brasil a taxa de mortalidade por covid-19 para a população negra e pobre é superior à sua taxa de contaminação. Ou seja, as vulnerabilidades a que essas pessoas estão expostas fazem com que o percentual de mortes entre pobres e negros seja superior ao seu percentual de contaminação. Em Chicago, conforme demonstrou matéria da BBC News Brasil, 30% dos moradores são negros, no entanto, esse grupo corresponde a 70% das mortes. Em São Paulo, segundo pesquisa do Instituto Pólis, o risco de fatalidade para a população negra é 50% maior que para brancos. Mas, em ambos os países, a atuação de personalidades, grupos e coletivos de hip-hop buscou amenizar os impactos da doença em suas comunidades.

No Brasil, as lives solidárias dos rappers Djonga, Emicida e GOG conseguiram um pouco mais de R$ 1 milhão para as comunidades pobres. Além disso, a Cufa (Central Única das Favelas), maior organização social proveniente do hip-hop brasileiro, arrecadou quase R$ 12 milhões para seu Fundo Solidário Covid-19 para as Mães das Favelas. Nos EUA, Beyoncé doou US$ 6 milhões para apoiar ações voltadas à saúde mental durante a pandemia e realizou uma campanha de testagem voltada à população negra. Jay-Z e Rihanna doaram US$ 1 milhão cada um para o combate à covid-19 em Nova York e Los Angeles. Alicia Keys fez uma música dedicada às pessoas que trabalham durante a pandemia intitulada “Good Job”.

A geração hip-hop também tem narrado a pandemia em diversos países. Este texto visa a demonstrar três pontos dessas narrativas, com ênfase, no caso do Brasil, a: 1) o seu caráter pedagógico para a prevenção do vírus; 2) o vínculo entre crise sanitária e crise política; 3) a dimensão histórica das desigualdades.

A primeira canção que tematizou o novo coronavírus em continente africano foi a do rapper ugandês Bobi Wine e Nubian Lee. Em 25 de março, Wine postou o vídeo “Corona Virus Alert”, buscando conscientizar a população sobre as medidas preventivas da covid-19. Os versos enfatizam a necessidade de higiene pessoal e distanciamento social e apostam na dimensão coletiva de preocupação com a nação (“be patriotic!”), pois “prevenção é melhor do que a cura”.

Nessa mesma chave, a canção "Quarentena", do rapper MV Bill, divulgada em 27 de março, procura descrever medidas pedagógicas de prevenção. Contudo, ele não deixa de dialogar com a especificidade da política brasileira:

O rapper marca a importância da ciência, a qual vem sendo desacreditada tanto pelo governo quanto por grupos conservadores evangélicos aliados ao bolsonarismo. Ele flagra, igualmente, o contexto desigual para moradores da favela:

Além de cuidados de prevenção, em “Isolamento” MV Bill expressa questões de fundo subjetivo:

Junto disso, expressa a incerteza do futuro e a política genocida do Estado brasileiro, cuja aposta de “desenvolvimento econômico” tem ido na contramão da salvaguarda de vidas humanas:

As desigualdades de classe manifestas entre os que podem manter o devido isolamento social e a maioria que está na “viração” para sobreviver também se revelam na letra:

Por fim, o recado vai aos negacionistas e reitera a importância de se informar pelos profissionais especializados:

GOG, em uma releitura de “Brasil com P” (de preto), elabora o “Brasil com P de pandemia”, performatizando a incompetência do atual presidente e a crise da realidade política brasileira. Os versos convidam à ação do governo, portanto, em sua análise, a relevância do Estado é fundamental para conter a crise:

Já Rincon Sapiência, em "Quarentena (verso livre)”, expressa dilemas existenciais, mas enfatiza o trabalho artístico como uma possível saída de cura:

Na mesma linha dos seus colegas, o rapper versa sobre o modo desigual como a pandemia tem afetado os diferentes grupos sociais:

Como MV Bill e GOG, ele narra aspectos da tragédia política brasileira, porém, sublinha o possível arrependimento de quem votou 17, número de Jair Bolsonaro em 2018:

Direcionado para um público específico, a juventude negra, Rincon referencia o meme dos carregadores de caixão de Gana e afirma que a vida pública do tempo presente pode torná-lo realidade: “Os negão dançando com caixão na mão/ Eu não quero viver esse meme”.

Outros exemplos de intervenção nacional na luta contra a covid-19 encontram-se em Baco Exu do Blues e Kaê Guajajara e Kandu Puri. Contudo, ao contrário das intervenções acima, eles trazem a problemática da colonialidade ao debate da pandemia: Baco Exu do Blues, na chave do lugar de jovem negro, e Kandu Puri e Kaê Guajajara, a partir do pertencimento indígena. Cada qual a seu modo, eles relacionam as desigualdades atuais com acontecimentos históricos e deixam evidente o lugar de privilégio dos homens brancos.

Na canção “O sol mais quente” (com participação da backing vocal Aisha), do disco “Não tem bacanal na quarentena”, Baco Exu do Blues verbaliza: “Coronavírus me lembra a escravidão/ Brancos de fora vindo e fodendo com tudo”. A analogia entre o impacto do coronavírus e os respingos da escravidão mostra o quão sociológica é a leitura do rapper: o colonialismo, que se sustentou pela escravidão, relegando os não brancos em posição de subalternidade, é uma condição histórica que explica parte das desigualdades contemporâneas manifestas no país durante a pandemia.

Da mesma forma, a indígena Kaê Guajajara e o indígena Kandu Puri lançaram em março a música “Rap indígena trilíngue sobre a pandemia do coronavírus”. Cantada em português e nas línguas “Zeeg'ete”, do povo Guajajara, e “Kwaytikindo”, do povo Puri, a música inicia-se com a mensagem:

Aqui, além da invasão colonial armada, o homem branco foi responsável por trazer doenças e epidemias ao longo dos séculos, concretizando o histórico e permanente genocídio dos povos indígenas. Neste contexto pandêmico, a dupla chama a atenção para as consequências provocadas aos indígenas desde a chegada dos europeus:

O trecho é revelador de que as mortes da população indígena provocadas pela pandemia é um dado não subsumido à conjuntura da covid-19, mas uma realidade que perpassa séculos da história dos povos indígenas:

A especificidade dessas narrativas de rap no Brasil, se comparadas com as produções de outros países, encontra-se na análise conjunta da crise sanitária e da crise política que vem potencializando a tragédia brasileira. Os versos de Baco Exu do Blues e da dupla Kaê Guajajara e Kandu Puri complexificam a análise com elementos históricos do impacto do colonialismo aos negros e aos indígenas. Se lembrarmos que, historicamente, o rap se notabiliza pela narrativa das experiências cotidianas, é fácil compreender a somatória entre crise sanitária e crise política e a adição de elementos que estruturam a nossa sociedade, como a herança da colonização.

É possível afirmar que a geração hip-hop cumpre uma premissa do movimento: o compromisso social com os grupos mais vulneráveis dos quais fazem parte. As suas narrativas primam em reconhecer que, por um lado, existe um “sistema” responsável por tudo isso, no entanto, cada sujeito tem um papel a cumprir para evitar o desastre social. Dessa forma, possibilita que sujeitos periféricos sejam leitores críticos do contexto e, igualmente, agentes de transformação da sociedade.

Daniela Vieira é professora de sociologia da Universidade Estadual de Londrina.

Jaqueline Santos é doutora em antropologia social pela Unicamp.

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