Preservar a memória negra e lutar contra a dupla morte

Mário Augusto Medeiros da Silva
A prática social do esquecimento é um problema da memória coletiva e do exercício do poder

Os índices de letalidade sobre a vida negra brasileira, expressos por pesquisas como o Mapa da Violência ou o Atlas da Violência 2019, mostram sistematicamente dados alarmantes sobre a destruição de uma juventude negra nos últimos anos. A população jovem negra entre os 15 e 24 anos tem sido morta de forma violenta entre os homens; entre as mulheres negras, está o maior contingente de vítimas de feminicídio. Nos anos recentes, casos de morte violenta também têm atingido a população infanto juvenil negra, bastando recordar, só em 2019, Ághata Félix, Lucas Eduardo Martins, Jordy Moura e os jovens do Baile da DZ7, entre outros notificados ou não.

Entre outras agendas importantes, o problema da memória social se impõe para a vida negra, cercada de tanta morte e violência. Recordar e esquecer são capacidades humanas. Elas estão entre as primeiras formas de aprender a conviver socialmente, socializados que somos em memórias dos outros, em comportamentos coletivos. Mas para isso é necessária a transmissão de conhecimento pelos sujeitos.

Memória social é uma forma de poder. A recordação coletiva não diz respeito ao passado. É uma tarefa sempre do tempo presente, por meios de seleções. Os grupos sociais que historicamente tiveram papel hegemônico no exercício do poder no Brasil também condicionaram a nossa memória coletiva. Ela é excessivamente masculina, branca, urbana, vinculada a cultos religiosos específicos, a lugares de memórias patronais ou das classes economicamente dominantes. Ela remete a heróis nacionais que também são agentes de massacres e apagamentos. Ela é majoritariamente heteronormativa, patriarcal e apaziguadora, em vários momentos, dos nossos conflitos sem solução.

O problema da violência contra a vida negra é próprio de sociedades marcadas pela escravização e pelo colonialismo

Os testemunhos de devastação humana são parte da experiência da vida negra transnacional sob a experiência da modernidade e do colonialismo, e fazem parte da crítica necessária a esses processos sociais e à possibilidade de existência negra. Isso faz parte da nossa história recente, que inclui movimentos e campanhas semelhantes a Black Lives Matter, Campanha Jovem Negro Vivo, Coalizão Negra por Direitos ou atos públicos como #ParemDeNosMatar. O problema da violência contra a vida negra é próprio de sociedades marcadas pela escravização e pelo colonialismo. A luta antirracista, desde a morte de George Floyd, em maio, nos Estados Unidos, mobiliza intensamente uma agenda política transnacional antirracista em 2020.

A prática social do esquecimento é um problema da memória coletiva e do exercício do poder. Enfocando a vida negra, ela significa uma dupla morte. A duplicidade se dá, por um lado, por a morte de corpos negros ser uma triste realidade violenta, no mundo moderno e na nossa contemporaneidade. A vida negra é experienciada nos termos de uma Vida Precária, lembrando o livro de Judith Butler: “há ‘sujeitos’ que não são reconhecíveis exatamente como sujeitos e há ‘vidas’ que dificilmente – ou melhor, nunca – são reconhecidas como vida”. E está claro que outros corpos marcados pela diferença em relação ao padrão dominante moderno e colonizador estão sob esse risco (mulheres, homossexuais, transexuais, deficientes, populações originárias etc.).

Por outro lado, a morte biológica não encerra o processo violento de eliminação da vida negra. Argumento que existe também uma morte da memória de pessoas negras. O vilipendiar das lembranças do que foi a existência negra tem sido uma constante até o momento da eliminação completa de narrativas, registros, arquivos históricos. Recorde-se o caso de Marielle Franco e as calúnias públicas sobre sua trajetória nas semanas seguintes ao seu assassinato. Considerando a morte de pessoas negras cada vez mais jovens no Brasil, segundo os dados oficiais, estamos enquanto sociedade apagando continuamente a nossa memória social negra. Pior: não temos sequer garantido o direito a pessoas negras terem memória pessoal ou coletiva e transferi-la. O genocídio do negro brasileiro, argumentado em livro por Abdias Nascimento em 1978, se atualizou tristemente como genocídio da população negra nos dias correntes. Não se trata mais de racismo mascarado, mas de extermínio consentido e autorizado pela sociedade. A memória coletiva, como direito, é igualmente destruída.

A luta contra a prática social do esquecimento é um combate contra essa dupla condição da morte negra em curso. Seja por meio de valorização de culturas locais, de inserção e reconhecimento de ações de pessoas negras na história da modernidade (as invenções, soluções científicas ou participações em processos sociais similares), ou ainda pela luta contra o esbulho de territórios tradicionais (quilombos, terras de pretos, terreiros). Um componente da memória coletiva também é o da experiência social. Sendo metodicamente eliminada, em diferentes etapas etárias, por gênero e classe social, a vida negra no Brasil corre risco de não ser transmissora de experiências coletivas ou individuais para as gerações seguintes. Em nível internacional, a batalha da memória coletiva e narrativa para o presente, em 2020, tem provocado debates importantes sobre patrimônio cultural, monumentos públicos e documentos de civilizações e suas barbáries.

Nesse sentido, uma agenda de preservação da memória social negra se impõe. Instituições de pesquisa públicas ou privadas, agências de fomento, organizações não governamentais, sujeitos por conta própria e outras instituições sociais, além das tarefas que já possuem nessa seara, têm o desafio de colaborar com a preservação e mesmo o arquivamento de dados sobre a vida e a experiência negra. Não é exagero afirmar que, em breve, será necessário provar que pessoas negras existiram em alguns espaços da vida social do Brasil, tanto quanto não o é realizar pesquisas para evidenciar que elas sempre compuseram diferentes momentos de nossa história social. Cito uma experiência recente, apoiada pela FAPESP, relativa ao projeto “As cores da cidadania: os clubes sociais negros em São Paulo (1897-1952)”, cujo desafio foi localizar fontes de pesquisa sobre diferentes caminhos da experiência associativa negra e seu ativismo antirracista em períodos pouco estudados pela bibliografia em São Paulo. Outras iniciativas têm surgido, como a parceria entre Afro-CEBRAP e AEL (Arquivo Edgard Leuenroth, da Unicamp), voltada à preservação de memórias de ativistas negras e negros. Iniciativas que se somam a outras e que fazem da preservação da memória social uma agenda do presente, cada vez mais urgente nos dias que vivemos.

Mário Augusto Medeiros da Silva é docente do Departamento de Sociologia da Unicamp. Autor dos livros “Os escritores da guerrilha urbana: literatura de testemunho, ambivalência e transição política (1977-1984)”, de 2008, e “A descoberta do Insólito: literatura negra e literatura marginal no Brasil (1960-2000)”, de 2013.

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