Por um clima escolar racializado

William Corrêa de Melo
Sugere-se que expectativas e interações dentro das escolas têm relação com resultados educacionais de crianças e adolescentes negros. É fundamental melhorar esse quadro a partir de uma perspectiva antirracista

O clima escolar é o conjunto de visões, sentimentos, expectativas e interações que caracterizam uma escola. É um tema ainda pouco estudado no Brasil, mas que vem sendo investigado há mais tempo em outros países. Os profissionais em um ambiente de trabalho agem de acordo com seu clima de trabalho, não apenas de acordo com suas características pessoais. Não há muito consenso sobre a definição do conceito, mas estudos brasileiros 1 estipulam oito dimensões, que vão desde relações com o ensino e com a aprendizagem a gestão e participação.

Faltam estudos que investiguem relações de causa e efeito, mas evidências internacionais e brasileiras apontam que há correlações positivas entre clima escolar e resultados educacionais. Os estudos ora medem um conjunto de dimensões, ora se concentram em uma dimensão ou outra (clima acadêmico, contexto normativo, clima emocional, relações interpessoais, etc.). Por vezes, há estudos que não mencionam que são sobre clima escolar e mensuram aspectos que podem ser associados a dimensões do clima, como estudos que investigam o chamado efeito-escola 2 .

Dentro das lacunas no tema, faltam pesquisas que compreendam as relações entre clima escolar e equidade de raça e de gênero. Será que o clima de uma escola opera de diferentes formas para jovens negros e brancos? E para meninos e meninas?

É fundamental buscar melhorar o clima escolar a partir de uma perspectiva antirracista. Proponho um clima escolar racializado, que nos permita orientar o trabalho pedagógico e acrescentar um olhar racial sobre os processos que ocorrem dentro das escolas

Pensando em possibilidades de articulação entre esses temas, em 2019 desenvolvi uma pesquisa junto à Uniperiferias intitulada “‘Cadê o abraço coletivo?’: ‘Ciência do Afeto’ e clima escolar: (re)pensando as masculinidades negras na escola pública”. O trabalho está disponível no livro “Pesquisadoras da educação básica: germinando ações e saberes nas escolas públicas periféricas”. Já se sabe que meninos negros são os mais vulneráveis na escola em relação a chances de produzir menores desempenhos, recorrer à evasão e transitar entre etapas do ensino.

Precisamos de mais pesquisas sobre fatores explicativos para esses dados, mas há evidências de que há menores expectativas acadêmicas sobre jovens negros do que sobre jovens brancos.

Sabe-se também que as expectativas sobre alunos de distintos grupos raciais depende da similaridade entre o perfil racial do estudante e o do professor. Algumas pesquisas apontam ainda para discriminação racial na educação infantil, percepcções sobre raça dos alunos de acordo com seus desempenhos e atribuição diferencial de notas em provas para alunos de diferentes raças e gêneros, mesmo que tenham obtido os mesmos resultados em avaliação de larga escala.

Na minha pesquisa, eu quis medir, por observação e pela coleta de narrativas escritas, sobretudo de estudantes negros, como eles relacionavam a chamada “Ciência do Afeto” com dimensões de clima escolar, segundo Loukas (2007): a dimensão social (que versa sobre a qualidade das relações interpessoais e tratamento equitativo dos alunos) e a acadêmica (grau de monitoramento dos progressos estudantis, feedbacks sobre resultados, qualidade das instruções e expectativas sobre os alunos).

“Ciência do Afeto” é uma metodologia antirracista que criei nas minhas aulas de ciências para estimular o clima escolar positivo, com enfoque nos jovens negros, especialmente do gênero masculino. O método inclui a elaboração de altas expectativas sobre os alunos, o envolvimento das famílias em ações pedagógicas, o uso de caderno de elogios, o uso do rap para ensino (além do uso de outros mecanismos de ensino e avaliação), as “rodas do afeto” (momentos de conversa sobre temas ligados a questões sociais), a meditação, o estabelecimento de combinados e o monitoramento dos progressos estudantis.

Apesar dos limites metodológicos, os resultados principais do trabalho sinalizaram que os alunos viram como positivas as relações professor-estudantes e destacaram boa qualidade no planejamento das aulas e no feedback de resultados para melhoria acadêmica. Eles também ressaltaram o desejo de estar nas aulas e viram como positivo o estabelecimento de altas expectativas sobre eles.

Sabe-se que um conjunto de práticas simplesmente eficazes para o ensino pode aumentar a distância entre alunos brancos e negros. Isso sugere que não basta pensar em eficácia, é preciso pensar, também, em equidade. Por isso a necessidade de mais pesquisas que investiguem a convivência entre estudantes negros e brancos, entre estudantes negros e seus professores, as expectativas dos professores sobre estudantes negros, a qualidade das instruções para diferentes grupos raciais, as tentativas de envolver as famílias de alunos negros e brancos nos processos educacionais, entre outros aspectos e as relações de todos esses fatores com os resultados educacionais de estudantes negros.

O mesmo vale para questões de gênero. Precisamos de estudos que investiguem mecanismos de interação na escola, de preferência com o olhar para a raça e gênero, além de outras características. Um trabalho que destaco no campo das interações que traz essas questões e sua relação com o clima escolar é o de Costa (2020). Medir o clima escolar considerando esses aspectos é um desafio que está colocado para nós. Instrumentos como o Indicador de Relações Raciais, da Ação Educativa, auxiliam nesse processo.

É fundamental buscar melhorar o clima escolar a partir de uma perspectiva antirracista. Proponho um clima escolar racializado, que nos permita orientar o trabalho pedagógico e acrescentar um olhar racial sobre os processos que ocorrem dentro das escolas. Com quem eu tenho melhores interações? Há participação efetiva dos meus alunos negros nas aulas? Sobre quem eu projeto altas expectativas? Que alunos eu elogio? Que padrões de “bom aluno” considero para fornecer estímulos motivacionais? Quem se encaixa nesses padrões? Trato situações de discriminação racial contra minorias raciais como racismo ou como bullying? Essas são só algumas perguntas que se articulam com uma série de dimensões do clima escolar e trazem um recorte racial. Acho que o argumento de que “na minha sala de aula todos são iguais, pode ser branco, amarelo, preto ou azul” não cabe mais, porque já sabemos que os alunos não são tratados igualmente. Quem sabe um clima escolar racializado não possa ser pensado no campo das pesquisas sobre o tema, com indicadores próprios?

William Corrêa de Melo é nascido e criado no Morro dos Macacos, em Vila Isabel. Atualmente é doutorando em educação no LaPOpE (Laboratório de Pesquisa em Oportunidades Educacionais) da UFRJ, professor de ciências em Maricá (RJ) e pesquisador da Uniperiferias. É pesquisador convidado do CPTE (Centro de Pesquisa Transdisciplinar em Educação) do Instituto Unibanco.

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