Podem os monumentos falar?

Fillipe Alves
Mais do que derrubar as estátuas de escravagistas e colonizadores, é fundamental uma agenda de política da memória nas cidades brasileiras

Os protestos antirracistas que se espalharam pelo mundo após o assassinato do americano George Floyd ajudaram a levantar um debate importante sobre monumentos que prestam homenagem a personagens de histórico racista e genocida. Na Europa e nos Estados Unidos, estátuas de traficantes de pessoas escravizadas e colonizadores assassinos foram derrubadas e pichadas — a do escravocrata britânico Edward Colston foi arrancada de seu pedestal e jogada no rio no porto de Bristol, na Inglaterra.

A derrubada de monumentos em homenagem a figuras escravagistas ou bandeirantes levantou um debate sobre a legitimidade dessas ações, com questões sobre se esses atos não levariam a um apagamento do passado e da história. No entanto, há um limite tênue entre a celebração e a lembrança histórica. O debate levantado questiona quem deve ser homenageado ou não, e como deve ocorrer essa escolha.

Se usarmos o caso da cidade do Rio de Janeiro, poderemos observar que sua história é marcada por disputas de narrativas simbólicas que culminaram em um sistemático apagamento da história negra da cidade. Sua região portuária é um dos grandes exemplos disso: as diversas obras realizadas ali ao longo dos séculos, das reformas de Pereira Passos até a reformulação do ex-prefeito Eduardo Paes no contextos dos megaeventos de 2014 e 2016, mostram o caráter palpável e concreto desse apagamento. O discurso que prega a necessidade de modernizar a área ou abrir novas vias de acesso dentro da cidade vem acompanhado de expulsões das populações negras da região, com migrações forçadas para a periferia e para áreas mais distante do estado e o desmonte de comunidades e centros de convivência negros. São ações que revelam que por trás de uma política supostamente “modernizadora” pode haver concepções e práticas coloniais.

O soterramento da memória é uma forma de construir a história, que não é feita só por historiadores, mas por políticos e planejadores urbanos

Argumento que, para além de erguer monumentos para heróis duvidosos e personalidades sanguinárias, os projetos urbanísticos das cidades brasileiras contribuem com o apagamento de uma possível contranarrativa quando expulsam corpos negros do centro da cidade. Eles passam concreto em lugares onde deveriam ser erguidos memoriais e monumentos que poderiam provocar reflexões antes inviáveis e servir de contraponto às homenagens a figuras de escravagistas e ditadores. Tendo isso em vista, se faz necessário refletir sobre a política da memória e meios de criar uma continuidade narrativa nos lugares onde o poder público, o tempo e a paisagem urbana criaram rupturas e apagamentos.

A manutenção e as persistências desses símbolos refletem igualmente a perpetuação do racismo e das desigualdades raciais na produção da história das cidades. O que essas imagem dizem e o que escondem? Argumentos baseados na filantropia são suficientes para apagar a imagem escravocrata de Colston em Bristol? E, se olharmos para o Rio de Janeiro, quais foram as motivações do Marquês do Lavradio, vice-rei do Brasil, ao transferir o mercado de escravizados para a região do Valongo? Perguntas como essas – que remetem ao reconhecimento da história dos povos escravizados – devem ser feitas numa gestão pública da memória. O soterramento da memória é uma forma de construir a história, que não é feita só por historiadores, mas por políticos e planejadores urbanos.

Tendo isso em vista, mais do que pautar a derrubada ou não de monumentos, se faz necessário refletir sobre a política da memória. A região carioca do Cais do Valongo, local que recebeu o maior contingente de escravizados no mundo, é exemplo eloquente dessa possibilidade. Escondido pelo poder público, o cais foi redescoberto em 2013. Para evitar que voltasse a ficar oculto, movimentos sociais e pesquisadores, a contragosto do governo, fizeram com que a disputa pública pela região ganhasse destaque. Lograram, então, que o cais fosse preservado, até receber o título de patrimônio mundial pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura). Desde então, o entorno da região portuária, que tem a alcunha de Pequena África, se tornou exemplo presente das disputas de narrativas e pela memória da escravidão no país.

Na mesma região, o governo ergueu uma estátua em homenagem à bailarina negra Mercedes Baptista, que, mesmo não fazendo parte do “circuito de herança africana’’ do Rio, se integrou com o espaço e com a narrativa proposta de um resgate de herança africana daquele território. Foi exaustiva também a luta da comissão gestora da Pequena África para que a memória da escravidão não fosse apagada quando construíram uma nova linha do VLT no centro da cidade: depois de muitas disputas, conseguiram fazer com que as estações do transporte tivessem nomes de figuras e momentos ligados à cultura afrodescendente da região. Casos emblemáticos como esses mostram que a luta pela memória é permanente. São experiências reveladoras de que, mais do que derrubar e retirar essas estátuas de seus pedestais, é fundamental uma agenda de política da memória.

Esses exemplos também mostram que ainda são tímidas as obras públicas que demarquem, de forma inequívoca, a presença africana e indígena em nossas cidades, com visibilidade a personagens de resistência e espaços por liberdade. Mas apontam, ainda assim, que esses monumentos – a céu aberto ou não – não podem calar a polifonia das vozes, que devem estar audíveis e visíveis no espaço público.

Fillipe Alves é pesquisador do Negra e Narua, ambos grupos de pesquisa da UFF (Universidade Federal Fluminense), além de integrar a equipe do Afro-CEBRAP.

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