O impacto do financiamento à ciência no conhecimento dos animais

Célio Haddad
Usando os anfíbios para avaliar como o Programa BIOTA/FAPESP ampliou a nossa visão sobre a biodiversidade de São Paulo e do Brasil

Há cerca de 20 anos conhecíamos aproximadamente 180 espécies de anfíbios (sapos, rãs, pererecas e cobras-cegas anfíbios) para o estado de São Paulo. Hoje, após investimentos da FAPESP no Programa Biota, o cenário é bastante diferente, pois conhecemos a ocorrência de cerca de 250 espécies para SP, claramente indicando que os recursos aplicados na pesquisa da biodiversidade paulista deram frutos. Além de melhorar o nosso conhecimento sobre a diversidade de anfíbios em São Paulo, o Programa Biota estimulou o aprofundamento do conhecimento sobre a diversidade de anfíbios brasileiros, pois os estudos não ficaram restritos às fronteiras do estado.

Esse incremento no número de espécies conhecidas não se limitou apenas ao grupo dos anfíbios, tampouco a uma listagem maior de nomes de animais, mas veio acompanhado de uma ampliação no leque de pesquisas, incluindo ferramentas de diferentes ramos da ciência. Passamos a fazer uma ciência integrativa, que nos permitiu olhar para os problemas sob as diferentes óticas e de forma mais precisa. Essa é a forma moderna de se fazer ciência no século 21.

O Programa Biota permitiu a qualificação dos pesquisadores de São Paulo nesse sentido, por meio de estágios no exterior ou da vinda de cientistas dos centros mais avançados para trocar experiências com os pesquisadores do estado. Além disso, os financiamentos permitiram que os pesquisadores equipassem seus laboratórios e tivessem acesso aos insumos necessários ao bom funcionamento da infraestrutura de pesquisa. O Programa Biota também impulsionou a ampliação das coleções científicas e a formação de recursos humanos qualificados, por meio da formação de alunos de graduação e pós-graduação, bem como nos estágios de pós-doutoramento e na formação de técnicos especializados.

Só podemos proteger e nos beneficiar da biodiversidade se a estudarmos e a conhecermos

Desde estudos básicos de taxonomia, nos quais espécies são descritas, sinonimizadas ou revalidadas, até os estudos que se beneficiaram do conhecimento mais aprofundado dessa diversidade para fazer conservação de espécies com maior embasamento científico — tais como estudos de ecologia de doenças e os que usam modelagem preditiva para criar cenários que podem auxiliar nos planos de conservação no médio e longo prazo —, todos foram beneficiados pelo Programa Biota.

Entre as linhas de pesquisa fortemente alavancadas pelo programa estão outros exemplos importantes, como a citogenética, a fisiologia, a anatomia, a filogeografia e a filogenia. Elas ajudam a entender a evolução dos organismos e, com técnicas como a do código de barras de DNA, estão contribuindo para identificar espécies desconhecidas para a ciência. Outras abordagens relevantes são aquelas dos trabalhos de ecologia da conservação, que estão permitindo a descoberta de novos mecanismos envolvidos na perda de diversidade — como é o caso da desconexão de habitats, hipótese testada e confirmada como causadora de declínios populacionais em espécies de organismos com ciclo de vida bifásico.

Os trabalhos sobre microbiota, um campo ainda pouco explorado, também foram beneficiados e resultaram em estudos que mostram a relação entre mudanças climáticas e disbiose (desequilíbrio da flora bacteriana intestinal que reduz a capacidade de absorção dos nutrientes e causa carência de vitaminas. Este desequilíbrio é causado pela diminuição do número de bactérias boas do intestino e aumento das bactérias capazes de causar doença), prejudicando o desenvolvimento dos organismos. O uso relativamente recente das técnicas de DNA ambiental vem permitindo localizar espécies por meio dos traços de DNA que elas deixam na natureza. Com essa técnica refinada podemos fazer levantamentos de espécies, localizar aquelas que são novas para a ciência ou as há muito desaparecidas.

Mesmo com todos os avanços tecnológicos que vêm sendo incorporados às ciências básicas, ainda temos carência de informações elementares sobre a história natural e sobre o comportamento animal, que ajudam a compreender e preservar os organismos de países megadiversos, como o Brasil.

Por que é importante conhecermos a biodiversidade? Vamos novamente considerar os anfíbios como exemplo. O grupo dos anfíbios (sapos, rãs, pererecas, cobras-cegas, salamandras) está em franco declínio em nível mundial, com redução nos tamanhos populacionais e extinções. A pele desses animais é permeável, pois complementa a respiração pulmonar. Isso torna esses animais muito sensíveis a alterações ambientais dos fatores abióticos (como regimes de chuvas, temperaturas, incidência dos raios solares, poluição, agrotóxicos) e bióticos (como introdução de doenças e alterações na microbiota dos anfíbios). Assim, além de serem animais que requerem cuidados especiais para que não sofram declínios populacionais e sejam extintos, os anfíbios são excelentes bioindicadores que podem ser usados no monitoramento das mudanças ambientais (bióticas e abióticas) que, via de regra, são causadas pelas pessoas.

No passado, canários eram levados até as minas de carvão, pois, por serem sensíveis aos gases tóxicos, morriam quando os níveis dos gases aumentavam de forma perigosa. A morte dos canários era o aviso aos mineiros de que era hora de se retirarem das minas. Os anfíbios são como os canários modernos das minas de carvão, pois o declínio e as extinções de espécies nesse grupo estão nos dizendo que o meio ambiente está doente e que está na hora de revermos a forma como exploramos os seus recursos. Além da importância ecológica dos anfíbios, na pele desses animais existem glândulas que secretam substâncias que têm grande potencial para o desenvolvimento de fármacos de interesse para o tratamento de enfermidades humanas e de animais domésticos.

Os anfíbios são um exemplo do que podemos estar perdendo se não estudarmos a biodiversidade. O que foi explicado acima para esse grupo também é válido, em menor ou maior escala, para outros tipos de organismos, sejam eles fungos, animais, vegetais, microorganismos, etc. Só podemos proteger e nos beneficiar da biodiversidade se a estudarmos e a conhecermos. Nisso o Programa Biota tem sido fundamental, não apenas para o conhecimento mais realista da biodiversidade de São Paulo, mas também para a do Brasil.

Bibliografia

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Célio Haddad é biólogo, doutor em ecologia pela Unicamp e professor titular de vertebrados pela Unesp em Rio Claro. Foi coordenador do Programa Biota-FAPESP e atualmente é coordenador de biologia da FAPESP. É membro da Academia de Ciências do Estado de São Paulo e da Academia Brasileira de Ciências.

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