Desconexão, reconexão e integração com a natureza

Jean Paul Metzger
Valores morais relacionais sugerem que não há oposição entre sociedade e demais espécies e que humanos devem 'viver em harmonia' com o entorno. Redução do contato com o meio ambiente durante a pandemia pode nos fazer reavaliar o quanto o valorizamos

Nestes tempos de isolamento e reclusão impostos pela pandemia, todos nós sentimos falta de sair de casa, caminhar em um parque, respirar o ar puro, fugir da cidade e contemplar a vista de alto de uma serra ou do mar na beira da praia. Esse sentimento de desconexão com o que chamamos de natureza — muitas vezes entendida como o ambiente natural, exceto a espécie humana — ficou mais premente pelo sentimento de falta, e em alguns casos, pela consciência de que isso afetou a nossa saúde física, mental e social.

Inúmeros estudos atuais comprovam que áreas verdes (parques, praças, arborização das ruas e vias) no entorno de residências em cidades afetam nossa saúde. Quanto mais amplas essas áreas verdes são e mais próximos vivemos delas, menores são os riscos de desenvolver doenças cardiovasculares e cardiopulmonares, e assim morrer por questões decorrentes da pressão alta. Também é menor a incidência de obesidade infantil, de diabetes e de desordens mentais comuns, como depressão e crises de ansiedade.

Os benefícios da natureza para as pessoas são, assim, múltiplos, indo além da provisão de bens (água, madeira, frutos, etc.) e serviços (regulação climática, polinização e controle de pragas em cultivos, etc.). Seu impacto sobre a saúde ficou claro nestes últimos meses, quando muitos de nós fomos severamente privados do contato com a natureza e seus benefícios.

O momento é propício não apenas para uma reconexão, mas para uma plena integração do ser humano com as demais espécies dentro deste sistema socioambiental. É a hora de estimular formas moralmente harmônicas e sinérgicas de coexistência

Quanto os sentimentos e experiências que estamos tendo durante a pandemia poderão afetar a forma como lidamos com a natureza ou a valorizamos quando essa crise acabar? Minha opinião é que eles irão estimular a implementação de políticas públicas de conservação e de restauração da vegetação nativa, além de promover a expansão de áreas verdes nas cidades, onde mais de 80% da população brasileira vive e interage potencialmente com áreas verdes no dia a dia. Pelo menos, isso seria o mais razoável.

No entanto, essas decisões sobre futuras políticas públicas podem não ser tomadas de forma tão simples e linear. Muito recentemente, o reconhecido botânico britânico Ghillean Prance mencionou, de forma muito pertinente, que a crise ambiental é essencialmente uma crise moral. A forma como nos relacionamos com a natureza está intimamente ligada à forma como nós a valorizamos.

Atualmente, existem duas visões dominantes, e relativamente contrastantes, sobre a relação sociedade-natureza. Numa visão mais utilitária, a natureza é vista como provedora de bens e serviços. Seguindo essa perspectiva, muitos economistas e ecologistas procuram não apenas identificar seus benefícios, mas principalmente traduzi-los em valores monetários, para que eles possam ser incorporados (ou internalizados) no sistema econômico. Assim, ao sabermos quanto podemos ganhar financeiramente com a natureza, ou quanto podemos economizar ao não a destruir, temos um argumento forte para promover sua conservação.

Existem inúmeros exemplos desse argumento: a importância de manguezais como berçários de inúmeras espécies de peixes, beneficiando a indústria pesqueira; a vegetação nativa favorecendo a provisão de serviços de polinização e de controle de pragas, logo aumentando a produção agrícola; áreas verdes que funcionam como protetoras de enchentes e deslizamentos, evitando graves prejuízos humanos e econômicos... Mas essa visão da relação sociedade-natureza é bastante criticada por ser considerada demasiadamente utilitarista, antropocêntrica, como se a natureza estivesse à nossa disposição para simplesmente usufruirmos dela.

Por outro lado, baseado em visões e valores muito distintos, outro grupo de biólogos e naturalistas considera que a natureza deve ser protegida pelo seu valor intrínseco. Cada ser ou espécie deve ser respeitado e conservado por seu valor ético de existência, pois ele é o resultado de um longo processo evolutivo e de uma série de funções ecológicas que permitiram seu surgimento e sua manutenção. Assim, o ser humano não tem o direito moral ou ético de romper esse equilíbrio.

Considerando esse “valor intrínseco de existência”, esse grupo defende que a sociedade humana deve coexistir com as demais espécies. Ele também propõe que, assim, deve haver espaços exclusivos para a manutenção de outros seres, sem presença humana. Esse é o argumento principal que justificou originalmente a criação de Unidades de Conservação, cujo objetivo é manter a natureza “virgem”, ou seja, afastada dos humanos. Nessa linha de pensamento, Edward Wilson, famoso biólogo americano que cunhou o termo biodiversidade, propõe que 50% do planeta Terra seja dedicado a outras espécies, sem (ou com a mínima) interferência humana.

Essas duas linhas de raciocínio, baseadas ora em valores utilitários, ora em valores éticos de existência, vêm guiando a relação sociedade-natureza há muitas décadas, promovendo diferentes tipos de ações e políticas públicas ambientais. Mas, aparentemente, ambas têm falhado, ou têm se mostrado insuficientes. Possivelmente, uma das razões para isso é o fato de que ambas consideram que há uma dicotomia sociedade-natureza, e que de certa forma os humanos são uma espécie à parte da natureza, podendo assim moldá-la ou decidir sobre o seu destino. Ao admitir a dicotomia, assume-se ou uma perspectiva de supremacia ou de superioridade — na visão mais utilitária — ou de desconexão — na visão baseada em valores intrínsecos.

Como alternativa a essas duas visões contrastantes, recentemente surgiu uma terceira via, que assume que fazemos todos parte de um grande sistema socioambiental — não havendo mais dicotomia sociedade-natureza — e que esse sistema deve ser entendido com base do que se chama de valores relacionais. Esses valores partem da noção do que é viver em harmonia com as demais espécies, o que varia entre sociedades e culturas. Isso envolve essencialmente valores morais, ou seja, o que cada sociedade considera como princípios, virtudes e atitudes que contribuem para uma “vida boa” ou para o “bem viver” — algo que vai para além da visão hedônica do prazer ou da felicidade imediata.

A ideia aqui é que pensemos em nossas ações e nos sintamos bem em relação ao impacto que elas podem ter sobre o ambiente que compartilhamos com as demais espécies. A depender dos valores da sociedade em que estamos inseridos, isso pode significar adotar uma dieta vegetariana, que reduz o impacto sobre o ambiente; andar mais de transporte público, de bicicleta ou a pé, para reduzir as emissões de gases de efeito estufa; ou intensificar ações de reciclagem ou reuso, para reduzir nossa pegada ecológica. Nesse sentido, viver em harmonia com as demais espécies passa a ser o foco, sendo essa harmonia dependente de valores morais estabelecidos por cada sociedade.

Essa terceira via, dos valores morais relacionais, pode nos ajudar a ter consciência dos nossos impactos nas demais espécies? Em caso afirmativo, pode influenciar as políticas públicas? Isso ainda está por acontecer, mas acredito que sim.

Ao nos inserirmos dentro de um sistema mais amplo, socioambiental, entendemos que qualquer ação gera uma reação, muitas vezes imediata — como no caso das pandemias — e outras vezes com um prazo maior, como no caso das mudanças climáticas. Mas essa visão mais integradora potencializa soluções aos problemas socioambientais, aliando processos naturais com a enorme capacidade de inovação da espécie humana, na abordagem das chamadas soluções baseadas na natureza. Tais soluções devem trazer melhorias ou transformações para o ambiente que nos beneficiem, mas que ao mesmo tempo respeitem e beneficiem as demais espécies com as quais compartilhamos o espaço.

O momento é propício não apenas para uma reconexão, mas para uma plena integração do ser humano com as demais espécies dentro deste sistema socioambiental. É a hora de estimular formas moralmente harmônicas e sinérgicas de coexistência.

Bibliografia

Pereira LM, Davies KK, den Belder E, et al. 2020. Developing multiscale and integrative nature–people scenarios using the Nature Futures Framework. People Nat.; 2: 1172–1195. https://doi.org/10.1002/pan3.10146

Jean Paul Metzger é professor titular de ecologia na Universidade de São Paulo. É mestre e doutor em ecologia da paisagem (Universidade de Toulouse, França). O foco de seu trabalho é a ecologia da paisagem e conservação da biodiversidade em paisagens altamente fragmentadas, essencialmente na região da Mata Atlântica brasileira. E também as relações entre a estrutura da paisagem, os serviços dos ecossistemas e o bem-estar humano. Foi autor de três avaliações da IPBES (Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos) e um dos organizadores da BPBES.

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