Crise da covid-19 é só uma prévia do colapso climático

Rafael Loyola
As mudanças do clima levarão ao aumento do número de pessoas em situação vulnerável e a um abismo de desigualdade social muito pior que na pandemia

A pandemia de covid-19, síndrome respiratória aguda grave causada pelo coronavírus 2, tem mostrado, nos últimos dias, seu lado mais funesto. Mortes aumentam exponencialmente no Brasil enquanto parte da população tenta se isolar em casa.

Essa tragédia tem revelado o tamanho da desigualdade social no país. Uns não têm sequer condições de se higienizar, pois não há água encanada onde moram. Outros não podem se dar ao luxo de ficar isolados, seja pela necessidade de trabalhar fora de casa, seja porque residem com muitas pessoas. A violência doméstica contra a mulher aumentou, até no ambiente virtual. E, no país, o novo coronavírus parece ser mais letal entre pretos e pardos do que entre brancos.

Infelizmente, trago outras más notícias. Cientistas do mundo inteiro, inclusive este colunista, vêm alertando, há tempos, para o risco de um colapso climático. As mudanças climáticas são uma realidade incontestável, e o fato de elas estarem acelerando, principalmente devido à emissão de gases de efeito estufa advindos do nosso modelo econômico, também é tido como consensual.

As consequências da crise climática são muito parecidas com o que estamos vivendo, e ouso dizer que, se não agirmos mais rapidamente, o que temos vivenciado diante da crise da covid-19 será só uma prévia do que está por vir em um colapso climático.

Com as mudanças climáticas, teremos alterações cada vez mais drásticas nos padrões do tempo, isto é, na concentração de chuvas e temperaturas. Temperaturas cada vez mais altas são registradas ao redor do planeta, forçando pessoas a ficar em suas casas. O aumento das estações secas tem levado à desertificação de alguns lugares na África e na Caatinga brasileira. A estiagem extensa inviabiliza cultivos e diminui consideravelmente a produção agrícola. Em última instância, podemos estar diante de uma migração em massa; um novo êxodo rural que agora será protagonizado por retirantes climáticos.

Além disso, menos chuva na região Centro-Oeste do Brasil diminuirá nossa capacidade de produzir e exportar commodities, criando um desequilíbrio enorme em nossa economia. A perda de até 40% dos polinizadores pode significar uma escassez real de alimentos. Finalmente, o aumento de chuvas em períodos muito curtos trará enchentes, deslizamentos, surgimento de doenças emergentes e superlotação da rede hospitalar. Com mais desemprego e fome, no campo e na cidade, o número de pessoas ambiental e economicamente vulneráveis tenderá a aumentar exponencialmente. A violência no campo e urbana, também. Mulheres serão especialmente afetadas, assim como os mais pobres e, no nosso caso, também negros, populações indígenas e outras minorias. Em uma crise, as desigualdades aumentam e todos os que têm menos perdem ainda mais.

Aceitar a crise climática é difícil porque ela requer que o padrão global de desenvolvimento econômico mude

Para evitar a chegada desse cenário apocalíptico, o mundo precisa abraçar urgentemente uma agenda sustentável e em prol da conservação da biodiversidade e dos ecossistemas. Os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) nos apontam para o caminho certo. Entre eles estão a erradicação da pobreza, da fome, o combate sério à crise climática, a proteção da vida na terra e nos oceanos e a redução da desigualdade entre gêneros. Com metas focadas em objetivos sustentáveis, podemos diminuir a velocidade com que a crise climática vem se aproximando de nós.

Precisamos de um choque de realidade global. Aceitar a crise climática é difícil porque ela requer que o padrão global de desenvolvimento econômico mude. Precisamos de uma transição para uma economia menos dependente e emissora de carbono. Precisamos mudar nossa agricultura para um modelo sustentável, com menos insumos, com mais consórcios entre a vegetação nativa e a cultivada, com ganho de escala para a produção sustentável fomentada por planos governamentais e crédito privado.

Precisamos restaurar muito do que foi degradado também. A próxima década será marcada como a década da restauração, conforme proposto pela Organização das Nações Unidas. As apostas são que a restauração florestal e de outros ecossistemas criará finalmente um novo mercado, que deve precisar de mão de obra, insumos, infraestrutura e investimentos. A transição para uma economia de impacto ambiental positivo pode começar a escalonar a partir daí.

A covid-19 pode ser o primeiro choque. Ela pode nos mostrar a necessidade global de repensarmos nossos padrões de consumo. Pode mostrar o quanto somos vulneráveis, bem mais do que supúnhamos ou gostaríamos de ser. Dizimados por um vírus, podemos nos dar conta de que, para sobreviver no planeta, precisamos tomar mais cuidado do que temos tomado até agora.

Estamos diante de três grandes desafios da próxima década: como resolver a crise climática, como estancar a crise de biodiversidade e como fazer a transição rumo a uma economia verde. O futuro já chegou. O não agir impacta-nos no presente.

Quando vencermos a luta contra a covid-19, estaremos prontos para enfrentar nossos novos inimigos? Ao lado da biodiversidade, de ecossistemas saudáveis e de uma economia fundamentada nos princípios da sustentabilidade essa batalha será certamente mais fácil.

Vai dar tempo? Não sei, sinceramente. Mas quero estar lá quando acontecer.

Rafael Loyola é biólogo e doutor em Ecologia. É diretor científico da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável, professor da Universidade Federal de Goiás e membro da Academia Brasileira de Ciências.

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