Brincando com fogo: biodiversidade e ecossistemas em perigo

Rafael Loyola
O desmatamento ilegal e mudanças climáticas contribuem para os incêndios desmedidos que têm ocorrido no Brasil

Há milênios, nossos ancestrais aprenderam a dominar o fogo. Estudos mostram que o uso do fogo tornou-se uma prática generalizada entre humanos entre 50 e 100 mil anos atrás. Sua utilização tornou-se cada vez mais sofisticada e, com o surgimento da agricultura, o fogo se transformou em uma ferramenta de manejo da terra.

A prática milenar e tradicional de limpar o terreno com auxílio do fogo para facilitar a rebrota de gramíneas ou o cultivo de grãos segue sendo usada em todo mundo. Aliás, na maioria das vezes, não é essa técnica que gera os grandes incêndios que temos visto na Amazônia e no Pantanal, por exemplo. Nesse caso, dois fatores atuam conjuntamente: o desmatamento e as mudanças climáticas.

Quando associado ao desmatamento, o fogo é usado para limpar o que sobrou após o corte das árvores. Ele tende a ser confinado no lugar desmatado, durar alguns dias e virar um evento muito energético do ponto de vista da geração de calor. Isso é o que permite sua identificação por satélites, por exemplo. As mudanças climáticas, por sua vez, têm contribuído para aumentar os períodos de seca. Com secas mais prolongadas, a biomassa queima mais facilmente, espalhando o fogo.

Estamos em um ano de recordes em focos de calor e queimadas, uma vez que a temporada de incêndios – que costuma acontecer de agosto a outubro — mal começou. De maio a agosto, mais de 2,5 milhões de hectares já queimaram na Amazônia e 83% desses incêndios ocorreram em áreas recentemente desmatadas. No Pantanal, a situação é ainda mais preocupante: mais de 1,8 milhão de hectares já foram atingidos por incêndios.

A manutenção e a criação de novas terras indígenas e unidades de conservação, para além de inúmeros outros benefícios, auxiliam na contenção de incêndios

O interessante (ou trágico) é que esses fenômenos estão interligados. Isso porque o aumento crescente do desmatamento na Amazônia também aumenta a seca no Pantanal, uma vez que a floresta é a responsável pela umidade que forma as nuvens de chuva que caem sobre o Centro-Oeste do Brasil. Além disso, o próprio Pantanal vinha sofrendo com perda de vegetação nativa antes dos incêndios mais recentes, o que reforça a seca na região.

Incêndios descontrolados afetam a biodiversidade de forma significativa. Centenas de animais morrem como resultado do fogo. Plantas são ainda mais impactadas negativamente, e os ecossistemas começam a sofrer alterações irreversíveis, como o processo de savanização em curso nas bordas do bioma amazônico. Além disso, os serviços ecossistêmicos produzidos pela natureza são alterados. Em particular, as queimadas liberam para a atmosfera muito do carbono armazenado em forma de biomassa vegetal por meio da fotossíntese das plantas; diminuindo o estoque de carbono acima e abaixo do solo e contribuindo para o aquecimento global. Os incêndios também modificam o ciclo da água, por interferir no regime de chuvas da região. Isso sem mencionar a poluição do ar e dos corpos d'água (como os rios) que recebem detritos, fuligem e cinzas provenientes das queimadas. Estudos mostram que a qualidade do ar nessas regiões chega a ser pior que no centro da cidade de São Paulo, por exemplo. Em última instância, a saúde das comunidades do entorno das áreas devastadas pelo fogo é fortemente impactada.

A solução para o problema passa, obviamente, pela proibição do desmatamento ilegal e de queimadas com essa origem. Em julho de 2020, o governo brasileiro suspendeu legalmente o manejo por meio do fogo na Amazônia por 120 dias. É uma pequena ajuda. Por outro lado, isso mostra que os incêndios que temos acompanhado nos noticiários são ilegais, criminosos e têm ocorrido em terras sem destinação formal concedida pelo Estado.

Finalmente, é sempre bom lembrar que terras indígenas e unidades de conservação funcionam como um oásis no meio do fogo. Se, por um lado, também há queimadas nesses locais, as evidências deixam claro que ali ocorre um número muito menor de focos de calor e incêndios. De fato, as áreas protegidas são responsáveis por grande parte da preservação dos estoques de carbono e da provisão de água do país. Assim, a manutenção e a criação de novas terras indígenas e unidades de conservação, para além de inúmeros outros benefícios, auxiliam na contenção de incêndios.

Em um momento no qual a sociedade e o setor privado têm se posicionado de maneira tão contundente em prol da Amazônia, é importante fazer valer as políticas públicas existentes e lutar pelo bom funcionamento de nossos órgãos fiscalizadores e de gestão para que nosso aliado de milênios atrás, o fogo, não se torne apenas o vilão das manchetes de jornal.

Rafael Loyola é biólogo e doutor em ecologia. É diretor científico da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável, professor da Universidade Federal de Goiás e membro da Academia Brasileira de Ciências.

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