Biodiversidade: origem e solução de pandemias

Carlos Alfredo Joly 
O conhecimento sobre a conservação da biodiversidade e seus serviços deve ser integrado às estratégias para reiniciar a economia após a covid-19, reduzindo os riscos de novas pandemias

O planeta enfrenta quatro crises na área ambiental. A primeira é a crise aguda causada pela atual epidemia do coronavírus, que é uma crise cuja solução — o desenvolvimento de uma vacina — deve acontecer no máximo entre dois e três anos. A segunda é a crise climática, cuja solução deve demorar mais de um século, se conseguirmos de fato diminuir continuamente as emissões de gases de efeito estufa. A terceira é a crise da biodiversidade, para a qual não há solução, porque a extinção de uma espécie é irreversível, mas que pode ser controlada se diminuirmos a força dos vetores que têm aumentado continuamente a velocidade de extinção das espécies. E, dessa forma, evitaremos o colapso dos serviços ecossistêmicos imprescindíveis para a sobrevivência da humanidade.

Pessoalmente, entendo que passamos ainda por uma quarta crise, que é a da governança. Essa é uma crise agudíssima no cenário nacional, com um desmonte de todo arcabouço legal e institucional responsável pela governança ambiental, e é crônica no panorama internacional, no qual a diversidade de interesses econômicos e políticos, associada à falta de mecanismos para de fato implementar as decisões das diferentes convenções, impede progressos mais significativos.

A solução da crise climática e a mitigação da crise da biodiversidade dependem de mudanças transformativas no modelo de desenvolvimento e nos padrões de consumo, como tem sido defendido por instituições como a IPBES (Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos).

Biodiversidade como origem dos vírus

Os vírus são um componente da biodiversidade e as entidades biológicas mais abundantes da Terra, que se originaram há cerca de 3,5 bilhões de anos. Ainda que não haja consenso em relação à origem dos vírus, sabe-se que sua evolução ocorreu com a incorporação de vários componentes genéticos de outros organismos ao longo do tempo.

Praticamente todos os organismos celulares abrigam uma grande diversidade de vírus, a ponto de podermos afirmar que todo processo evolutivo é, no fundo, uma história de coevolução entre vírus e hospedeiros. Assim, novos grupos de vírus continuam surgindo continuamente. Portanto, eles tiveram, e continuam tendo, um papel importante na evolução da biosfera.

Para a classificação biológica, o Sars-CoV-2 é um Betacoronavirus, grupo que infecta exclusivamente mamíferos. Os morcegos são sugeridos como os maiores reservatórios naturais de Betacoronavirus. Entretanto, não são conhecidos casos de transmissão direta desses vírus dos morcegos para os seres humanos. O caminho conhecido sempre envolve um hospedeiro intermediário, que pode ser um felino como o civeta ou, como parece ser o caso da atual pandemia, um pangolim.

A governança deve basear-se na ciência e ter uma abordagem interdisciplinar

Outro grupo importante de vírus são os arbovírus (nome derivado de Arthropod Borne Virus), que constituem um outro grupo de vírus bem conhecido como causador de sérios problemas de saúde ao homem. Todos são transmitidos para os seres humanos por um artrópode hematófago (mosquitos, borrachudos, carrapatos) a partir de animais silvestres hospedeiros, como por exemplo, os macacos. No caso de doenças como febre amarela, dengue, zika e chicungunha a pessoa infectada passa a ser o reservatório, permitindo uma rápida propagação da doença.

Não há a menor dúvida, portanto, de que a biodiversidade é a fonte de vírus, que estão presentes na maioria das formas de vida no nosso planeta, desde bactérias até plantas e animais.

Biodiversidade não é uma ameaça

Entretanto, o cenário acima descrito pode gerar a falsa impressão de que a biodiversidade é uma ameaça por ser a origem tanto dos vírus como dos hospedeiros e vetores. Isso seria um grande equívoco, pois ela está na base de serviços ecossistêmicos imprescindíveis para nossa vida na Terra.

Além disso, somos nós que estamos destruindo habitats, comercializando espécies silvestres, provocando o aquecimento global e, com isso, nos colocando em contato com novos vírus, espécies reservatório e vetores. Muitas vezes, nós, inadvertidamente, aproximarmos hospedeiros e vetores que não se encontrariam naturalmente. Portanto, o perigo não é a biodiversidade, que inclusive, em alguns casos, pode gerar a cura, como veremos futuramente aqui nesta coluna, mas, sim, nossa relação altamente predatória, que aumenta a chance de pandemias como esta acontecerem.

Biodiversidade como fonte da cura

Sem sombra de dúvidas, a biodiversidade, tanto terrestre como marinha e de água doce, é uma fonte fantástica de produtos naturais e de princípios ativos, constituindo, portanto, uma grande farmácia natural, que vem sendo explorada e testada pela humanidade desde tempos imemoriais. Os povos indígenas e populações tradicionais acumularam uma quantidade considerável de conhecimento que precisa ser valorizado e explorado com uma justa e equitativa repartição dos benefícios oriundos dessa utilização.

Com os avanços dos métodos analíticos hoje disponíveis, a biodiversidade pode ser uma grande fonte de novos modelos moleculares para o setor farmacêutico, incluindo antitumorais, antimicrobianos e antivirais. Esse tema será melhor explorado na próxima coluna do Programa BIOTA.

O pós-covid-19

As estratégias para evitar novas pandemias originadas por zoonoses devem considerar dois pontos principais.

Em primeiro lugar, a implementação de uma rede global de programas de vigilância transversal a longo prazo, cuja primeira missão seria simultaneamente definir e detectar as zonas mais suscetíveis a novas pandemias. O objetivo seria prevenir ou detectar novas pandemias nas fases iniciais, em que ainda seria possível controlar a disseminação. Esse programa incluiria o monitoramento conjunto da biodiversidade e da saúde humana, como preconizado pela iniciativa One Health.

Em segundo lugar, a governança deve basear-se na ciência e ter uma abordagem interdisciplinar, incluindo dados referentes a: mudanças no uso do solo, demografia das populações humanas e aspectos socioeconômicos e culturais, para implementar o processo de tomada de decisão da escala local, cuja somatória resulta em ações sanitárias globais coordenadas.

O conhecimento sobre a conservação da biodiversidade e os seus serviços deve não só ser integrado às estratégias para reiniciar a economia após a covid-19, mas também para evitar novas pandemias, que podem ser ainda piores.

Carlos Alfredo Joly é graduado em Ciências Biológicas na USP (Universidade de São Paulo), obteve seu mestrado na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) (1979) e seu doutorado na Universidade St. Andrews, na Escócia. Atualmente é membro titular da Academia Brasileira de Ciências, coordenador do Programa BIOTA/FAPESP, da BPBES (Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos) e professor titular em Ecologia Vegetal do Departamento de Biologia Vegetal da Unicamp.

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