Antirracismo no rap brasileiro

Mateus Cunha
Consolidado no Brasil nos anos 1990, o gênero usa a música e a poesia como forma de denúncia e informação. Artistas como Racionais MCs e Emicida transformaram o alcance dos debates sobre raça, racismo, desigualdades e violência de Estado no contexto nacional

Desde seu surgimento enquanto expressão cultural no Bronx, em Nova York, por volta dos anos 1970, o hip hop tem consigo um DNA contestador. Seja em sua proposta estética, organizacional e, principalmente, no que tange à realidade material dos negros e latinos das grandes cidades norte-americanas, grupos sociais que o produziram inicialmente. Durante toda a trajetória do hip hop há um padrão de denúncia das violências sofridas por esses grupos populacionais, dentro e fora dos Estados Unidos. Com sua chegada ao Brasil, essa característica contestadora se manteve e ganhou contornos próprios. Aqui, o hip hop foi também inicialmente abraçado pelos grupos marginalizados das grandes metrópoles, e as populações negras e periféricas foram os campos férteis para seu florescimento.

O rap se consolidou no Brasil a partir dos anos 1990, principalmente a partir da popularização de um grupo que tem como centro do seu discurso a denúncia contra o racismo a partir da experiência negra e periférica. Os Racionais despontaram e se consolidaram durante toda a década como o principal grupo do gênero no contexto nacional, e o teor político de suas letras logo se tornou uma marca incontornável. Muito influenciado por grupos contemporâneos dos Estados Unidos, como o NWA e Public Enemy — que entre os anos 1980 e 1990 balançaram o cenário norte-americano, com músicas abertamente críticas à polícia e denúncias de abusos de autoridade e violência em localidades negras e periféricas —, os Racionais MC’s utilizaram de sua força narrativa para também denunciar as agressões e desmandos do Estado brasileiro por meio da polícia. Outros rappers de sua geração, como MV Bill e Dexter, fizeram o mesmo.

Tornou-se uma característica histórica do rap nacional a utilização da música e da poesia como forma de denúncia e informação — e isso transformou o alcance dos debates sobre raça, racismo e violência de Estado no contexto nacional, que já vinham sendo tocadas pelo movimento negro organizado mas que tem no rap o seu grande capilarizador. Foi por meio das letras de rap que a juventude negra passou a se entender como sujeitos ativos e detentores de direitos e voz. Isso trouxe para o ritmo uma relevância política e social gigantesca no cenário brasileiro.

Tornou-se uma característica histórica do rap nacional a utilização da música e da poesia como forma de denúncia e informação

A abertura de Primo Preto, (Apresentador do Yo Rap’s MTV 1994 - 1996) na música “Capítulo 4 Versículo 3” dos Racionais MC's, do álbum “Sobrevivendo no inferno” (1997) — disco com mais de 1 milhão de cópias vendidas e hoje considerado um dos principais álbuns da música brasileira —, é uma grande demonstração da importância do rap como comunicador de massa e incentivador dos debates sobre raça, violências e desigualdades na sociedade brasileira:

“60% dos jovens de periferia

Sem antecedentes criminais

Já sofreram violência policial

A cada quatro pessoas mortas pela polícia, três são negras”

Entre tantas outras canções importantes e incisivas contra a polícia, em resposta crítica à violência que a corporação pratica, está a música “Homem na estrada”, do álbum “Raio X do Brasil” (1993), na qual se pode ouvir “Não confio na polícia, raça do caralh*”. Outra é Racistas Otários”, do álbum “Holocausto Urbano” (1990), em que são denunciadas não só a violência física e a seletividade penal dos policiais, mas as fraudes processuais tão recorrentes nas incursões, além do encarceramento em massa:

“Esteja constante ou abrirão o seu bolso

E jogarão um flagrante, num presídio qualquer

Será um irmão a mais”

Essas e tantas outras canções, ao mesmo tempo que popularizaram o rap no cenário brasileiro, serviram também para popularizar o debate racial, por meio da crítica à violência de Estado. Elas criaram, assim, uma plataforma de discussão e conhecimento crítico direto voltado para a juventude negra.

Rap na contemporaneidade: menos político?

É possível afirmar que o rap foi muito importante para a denúncia e a conscientização sobre raça e violência no contexto nacional, principalmente nos anos 1990, quando esse debate era extremamente desencorajado no ambiente público. É possível, porém, dizer que esse engajamento se mantém até hoje? Por mais que a popularização do ritmo tenha trazido novos temas, a poesia e a narrativa do rap nacional continuam a tematizar a questão do racismo, já que nos Estados Unidos e, principalmente, no Brasil, a violência policial ganha contornos cada vez mais graves e explícitos, como apontam os dados do mapa da violência em 2019. Apesar de todas as mudanças que ocorreram em sua linguagem, estética e organização dos anos 1990 para cá, o rap parece não ter perdido seu potencial de denúncia.

Produções recentes atestam isso. Exemplos não faltam no início dos anos 2010: “Dedo na Ferida” (2013), de Emicida, diz: Homens de farda são maus, era do caos / Frios como halls, engatilha e plau!”. Outro exemplo é “Guerra” (2011), de MC Marechal. Trazendo para um contexto ainda mais contemporâneo, podemos citar três músicas lançadas entre 2019 e 2020 de artistas extremamente renomados e aclamados dentro e fora do rap. A primeira delas é “Ismália”, também de Emicida, lançada no álbum AmarElo (2019). Nela, o paulista não só denuncia a recorrência da violência e dos homicídios polícias, como questiona a omissão e a conivência da sociedade:

80 tiros te lembram que existe pele alva e pele alvo

Quem disparou usava farda (mais uma vez)”

A segunda canção é “Nova Colônia”, do álbum “Celebridade” (2020), Orochi. Nela, o rapper aborda a letalidade da polícia militar no cotidiano brasileiro. Ele persiste na ideia de que é recorrente a naturalização das mortes negras — a marca da violência urbana do país — e chama a atenção, de forma irônica, para a perda de talentos na sociedade brasileira. A notícia de “mais um preto” que morre indica a persistência do passado colonial, que parece se reafirmar no presente:

Mais um preto morre trabalhando

Mais um preto morre indo pra escola”

Ambas as músicas fazem referências ao caso do músico Evaldo Rosa dos Santos, que foi assassinado por militares, em 2019, com mais de 80 tiros disparados sobre o veículo de sua família, na zona norte do Rio de Janeiro. O fato gerou grande comoção e revolta no movimento anti racista brasileiro. Entretanto, nenhum dos militares envolvidos no crime está preso.

A música “Hoje Não”, do álbum “Histórias da Minha Área” (2020), do rapper mineiro Djonga, recria a cena de uma abordagem policial. Em uma conversa sarcástica, o policial consegue demonstrar todas as contradições e as violências que a corporação produz no território nacional. O rapper também faz referência a homicídios realizados pelas polícias, citando o nome de algumas crianças mortas em operações militares em comunidades pobres do Brasil:

“Perguntam se eu não me arrependo do que tenho dito

Mas não se arrependem de Jenifers, Kauãs e Ágathas”

Pelos exemplos acima, é possível notar que, nestes 30 anos, o rap nacional manteve seu forte teor antirracista, especialmente no que diz respeito à violência de Estado. As evidências apontam que o gênero tornou-se um dos principais veículos de propagação da luta antirracista no Brasil, justamente por conseguir massificar um discurso baseado na vivência de negros e jovens das periferias.

Evidência disso é que todas as canções de 2019 e 2020 citadas acima têm no mínimo 400 mil visualizações no YouTube. O rap “Hoje Não” tem 11 milhões, e “Nova Colônia” tem impressionantes 17 milhões de visualizações, dados coletados em 02/08/2020.

Com a expansão do estilo musical, o aumento vertiginoso de artistas, sua entrada em camadas sociais mais elevadas, o investimento de grandes empresas da música e a proximidade com a grande mídia, o rap passou a ter letras mais gerais — para alguns, tornou-se “menos politizado”. Entretanto, as produções citadas apontam que, apesar de haver mudanças profundas na organização e músicas produzidas atualmente, sua trajetória contestadora e crítica ainda se faz presente, principalmente entre os artistas que têm origem nos grupos mais afetados pela violência policial. Mantendo vivo o seu lado político, questionador, denunciante e educador, do rap, para a juventude e a população negra, mas tem agora, potencial de alcançar outras juventudes, já que reúne números expressivos de ouvintes das mais diversas classes sociais.

Mateus Cunha é mestrando em Sociologia pela Universidade Federal Fluminense. Pesquisador do Núcleo Afro/CEBRAP e NEGRA. Desenvolve pesquisas sobre raça, cultura, juventude e periferia.

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