Acesso virtual a oportunidades: reflexões sobre a mobilidade urbana

Tainá Bittencourt e Mariana Giannotti
A experiência virtual intensificada pela pandemia traz de volta debates sobre telecomunicações e transportes. Como usar a internet para reduzir desigualdades sociais e urbanas, ao invés de acentuá-las?

No início da década de 1990, quando a internet e as redes virtuais se disseminavam e eram foco de um encantamento global, o arquiteto William J. Mitchell 1 visualizava um futuro baseado na desespacialização das interações sociais. Na visão dele, os sistemas de telecomunicações ficariam cada vez mais descolados da realidade física, o que afastaria os sistemas de produção e reprodução social do componente local e aproximaria pessoas e lugares pelo mundo virtual. Esse novo paradigma das telecomunicações emergentes suscitou debates sobre os desafios das relações “dentro e fora das ruas” e de seus impactos sobre o acesso a oportunidades, mudando a forma como consideramos o papel dos transportes na vida social 2. Inclusive, diversos planos, estudos e metas internacionais 3 pautaram a redução dos deslocamentos (e pela sua substituição virtual) para reduzir os efeitos nocivos dos transportes para as cidades e pessoas, dada a desigual distribuição de residências e atividades no espaço e as matrizes energéticas e modais dominantes.

Quase três décadas depois, a pandemia da covid-19 forçou a restrição dos deslocamentos por meio do isolamento social e as tecnologias de telecomunicações permitiram que milhões de pessoas continuassem trabalhando e interagindo entre si. Essa nova realidade trouxe novamente para o centro da cena os mesmos debates do século passado, hoje essenciais para o pensamento de um mundo pós-pandemia: até que ponto as interações virtuais podem substituir as interações físicas? Em outras palavras, até que ponto as redes supostamente invisíveis das telecomunicações podem tomar o lugar das redes sólidas e massivas dos transportes?

Em primeiro lugar, apesar de o meio abstrato e imaterial da internet existir supostamente sem barreiras, o acesso a ele se dá sobre estruturas bastante concretas e desiguais. Isso porque a tecnologia e a infraestrutura necessárias para o seu funcionamento seguem os padrões da hierarquia socioespacial, sendo assim, favorecem centros sobre periferias em âmbitos globais (continentes e países), regionais (urbano e rural, norte e sul) e locais (ricos e pobres).

A população com acesso à internet soma 88% na América do Norte, 80% na Europa, 66% na América Latina e Caribe e apenas 25% na África subsaariana 4. No Brasil, 70% dos domicílios urbanos têm acesso à internet, contra 44% dos domicílios rurais 5 . Essa mesma taxa é de 99% entre a classe A, 94% entre a classe B, 76% entre a classe C e 40% entre as classes D e E. Ainda, se considerarmos os equipamentos utilizados, a desigualdade é mais evidente, visto que a disseminação da internet no Brasil tem se dado principalmente pelo uso do celular 6 e o computador está presente em apenas 42% dos domicílios brasileiros.

Se as classes altas, urbanas e de países centrais já dispunham de altos níveis de acesso a oportunidades pelas maiores redes de transportes disponíveis a elas, o alto acesso aos meios virtuais reafirma sua posição superior

A dimensão dessa disparidade está relacionada ao próprio caráter dos sistemas de provisão e gestão de infraestrutura das telecomunicações, essencialmente privados, e pode ser apenas compreendida pelo fluxo e entrelaçamento entre capital, espaço e políticas nos âmbitos global e local. Sendo desempenhadas em grande medida por empresas globais e muitas vezes sem estruturação e regulamentação adequadas pelo poder público, a instalação da infraestrutura e a sua manutenção tendem a seguir os interesses do mercado e são então orientadas primordialmente por critérios de retornos financeiros 7.

Portanto, o desenvolvimento tecnológico em grandes centros urbanos acontece em detrimento da expansão da infraestrutura básica em áreas pouco densas e populosas, onde o custo unitário de produção da infraestrutura é mais alto 8. Esses custos são repassados aos usuários, e em países como Kenya, por exemplo, o preço pago pela internet pode chegar a um valor 20 vezes mais alto do equivalente nos Estados Unidos ou em países europeus 9.

Se vivemos em um período de transição tecnológica em todos os aspectos da vida humana, que transforma o modo pelo qual nos comunicamos, trabalhamos e consumimos, a dependência do acesso virtual para a realização dessas atividades em um curtíssimo prazo aumenta ainda mais as desigualdades estruturais sociais e urbanas 10 , constituindo mais uma camada nas relações de poder, especialmente nos países periféricos. Por mais acelerado que tenha sido o desenvolvimento tecnológico dos últimos anos — um crescimento de 1500% no número de usuários de internet em duas décadas 11 —, o mundo virtual ainda não é realidade para mais da metade da população global.

Isto é, se as classes altas, urbanas e de países centrais já dispunham de altos níveis de acesso a oportunidades pelas maiores redes de transportes disponíveis a elas, o alto acesso aos meios virtuais reafirma sua posição superior. Por outro lado, os pobres vivendo nas zonas rurais ou nos limites urbanos em países periféricos, onde as infraestruturas de transportes e telecomunicações são precárias, são ainda mais excluídos da vida social e de atividades que poderiam contribuir para a sua mobilidade social. Até mesmo a predominância do inglês nas comunicações virtuais contribui para essa separação.

Outro aspecto refere-se à qualidade e às dimensões substantivas das interações nos mundos virtual e presencial, em termos coletivos e individuais. As interações sociais e o acesso a oportunidades não são definidos apenas pelo deslocamento físico ou pela realização da atividade em si, mas pela rede de relações pessoais que formam o capital social e cultural dos diferentes grupos na sociedade. Isto é, a partir do contato frequente e por longos períodos acumulam-se e consolidam-se recursos, saberes e poderes na sociedade, processos essencialmente geográficos e locacionais. Inclusive, são justamente esses capitais que contribuem para estruturar as desigualdades e relações de poder entre grupos sociais 12 ou que constituem elementos centrais que ajudam a explicar a primazia das cidades no âmbito mundial 13.

Sendo assim, um aspecto fundamental da formação humana, social e política é a interação com outros indivíduos, de diferentes grupos e com diferentes perspectivas de mundo. Se a segregação urbana das classes e raças nas cidades reduz esses contatos heterogêneos, a segregação dos círculos virtuais pode reduzi-los a níveis mínimos. Isto é, ao mesmo tempo que o contato virtual pode expandir os horizontes e debates para além da vizinhança, pode também reduzir a variedade de informações disponíveis aos indivíduos, como alertam os inúmeros debates sobre algoritmos e mídias sociais que se disseminaram recentemente. Inclusive, estudos já destacaram diversos efeitos sociais, psicológicos e inclusive políticos da intensificação do uso das redes virtuais, relacionados ao preconceito, racismo 14 , homofobia e misoginia 15 , por exemplo. Representações disso são a mobilização de pessoas fora da organização dos movimentos sociais tradicionais em diferentes campos do espectro político e o papel das mídias virtuais nas eleições 16 de diversos países, inclusive Brasil e Estados Unidos, com a ascensão de ideologias de extrema direita.

Associadas a isso, a natureza e as condições das atividades exercidas remota ou presencialmente interferem no modo e grau como elas são vivenciadas e assimiladas pelos diferentes grupos. A pandemia evidenciou que trabalhos realizados por classes altas e escolarizadas são mais adaptáveis ao exercício remoto do que os trabalhos praticados pelas classes baixas, 17 em sua maioria em ocupações manuais e informais. Entre crianças e jovens, as desigualdades da qualidade do ensino entre escolas públicas e privadas, ou localizadas em regiões centrais e periféricas, somam-se às desigualdades da estrutura e do preparo virtual para a realização remota das aulas e à vulnerabilidade das situações familiares, resultando em desiguais condições de dedicação 18 e êxito escolar por parte de alunos de diferentes classes sociais. Em contrapartida, é justamente a partir dessas plataformas virtuais que muitos jovens e adultos podem cursar cursos à distância ou ter acesso ao mundo audiovisual, antes dificultados pelos horários de trabalho ou mesmo pelos custos dessas atividades.

Sendo assim, o debate em questão não é em que medida os deslocamentos ao trabalho, a educação e o lazer serão substituídos pelo home office, EAD (educação à distância), serviços de streaming ou delivery. Afinal, os significados humanos, sociais, culturais e econômicos dessas atividades são naturalmente diferentes, bem como a extensão e a profundidade com que os grupos sociais têm acesso ao mundo digital. Inclusive, em metrópoles como São Paulo, por exemplo, o número de viagens por habitante cresceu na última década, 19 mesmo no contexto de avanço do uso da internet destacado anteriormente. A pergunta é em que medida a internet pode contribuir para o acesso a oportunidades sem precarizá-las, e como utilizá-la para reduzir as disparidades sociais e urbanas e também das condições de deslocamento, ao invés de acentuá-las.

Um primeiro caminho está na consideração de que as telecomunicações são hoje uma dimensão importante da vida social e coletiva e devem ter intervenção pública para fomentar e garantir o seu acesso universal. A partir de então, deve-se modernizar cidades, atividades e transportes, utilizando a tecnologia para que se deslocar (ou como e quanto se deslocar) seja uma escolha disponível à maioria, e não a apenas alguns. Nesse sentido, quaisquer que sejam o alcance e a evolução das telecomunicações, os transportes, e especialmente os transportes públicos, ainda serão meios essenciais.

Tainá Bittencourt é engenheira civil pela UFPR e doutoranda em engenharia de transportes pela Escola Politécnica da USP. É pesquisadora vinculada ao Laboratório de Geoprocessamento da Poli-USP e ao Centro de Estudos da Metrópole, com foco em transporte público, desigualdades e políticas públicas.

Mariana Giannotti é professora da Poli-USP (Escola Politécnica da Universidade de São Paulo) e coordena a área de transferência de tecnologia do Centro de Estudos da Metrópole (CEM). Fez graduação na USP, mestrado no Inpe e doutorado na Poli. Leciona geoprocessamento para as engenharias ambiental, civil e de minas. Pesquisa sobre geoprocessamento aplicado à análise das desigualdades relacionadas ao transporte.

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