A relação entre energia e mudança do clima no Brasil

Roberto Schaeffer e Alexandre Szklo
Setor energético nacional contribui para o aquecimento global, ao mesmo tempo que as alterações climáticas em curso afetam o fornecimento de serviços de energia. Mudanças causadas pela covid-19 são oportunidades para país investir em inovação verde

Não é trivial resumir a complexidade envolvida na relação entre o setor energético nacional e a mudança global do clima. Isso ocorre principalmente porque existem diferentes maneiras pelas quais eles se relacionam.

As relações diretas, em geral, são as mais óbvias, mas nem sempre percebidas com a devida atenção. A primeira delas deriva do fato de que a combustão de combustíveis fósseis representa cerca de três quartos das emissões globais de GEE (gases de efeito estufa), muito além das emissões da agricultura e da mudança no uso da terra. Destoando do resto do mundo, mais ou menos um terço das emissões de GEE do Brasil advém da combustão de combustíveis fósseis, quantidade um pouco menor do que as emissões da agricultura. Em anos recentes, entretanto, as emissões associadas à mudança do uso do solo e desmatamento superam, em muito, aquelas dos setores de energia e de agricultura no Brasil. Mesmo assim, o uso de energia causa mudanças no clima devido a suas emissões de GEE.

As mudanças climáticas também afetam diretamente o fornecimento de serviços de energia, via alterações na disponibilidade e confiabilidade de fontes renováveis, como água (chuva) para hidrelétricas, vento para energia eólica e irradiação solar para painéis ou concentradores solares. O clima ameaça ainda a infraestrutura e instalações de exploração, extração e conversão de energia, por exemplo, plataformas de óleo e gás offshore, refinarias em áreas costeiras, etc. Ademais, o clima altera a eficiência dos dispositivos de conversão energética (painéis fotovoltaicos, motores de combustão interna, usinas termelétricas e assim por diante).

Estudos realizados no CENERGIA/COPPE estimaram os impactos de cenários climáticos no setor elétrico nacional, mostrando que podem implicar a maior necessidade de usinas termelétricas a gás. Isso significa custos adicionais da ordem de 50 bilhões de dólares e um desafio regulatório para compartilhar esse risco entre produtores e consumidores. No final, o sistema energético brasileiro, fortemente baseado em fontes renováveis, coloca o país em boa posição diante das negociações internacionais sobre clima. No entanto, ao mesmo tempo, pode ser bastante vulnerável às mudanças climáticas e precisa ser capaz de se adaptar.

O sistema energético brasileiro, fortemente baseado em fontes renováveis, coloca o país em boa posição diante das negociações internacionais sobre clima. No entanto, ao mesmo tempo, pode ser bastante vulnerável às mudanças climáticas e precisa ser capaz de se adaptar

Já as relações indiretas entre a mudança do clima e o setor energético nacional são aquelas que exigem um olhar mais profundo nos detalhes. Por exemplo, vejamos os compromissos de emissões de gases do efeito estufa do Brasil. Conforme artigo liderado pelo CENERGIA/COPPE publicado na revista Nature Climate Change, as emissões de CO2 oriundas do desmatamento no Brasil reduzem o quanto os setores de energia, industrial e de transporte, podem emitir, o que afeta a atividade econômica e os custos das tecnologias. Embora todos esses setores gerem riqueza, é duvidosa a geração de riqueza a partir da apropriação ilegal de terras e da renda de extração mineral ou vegetal pelo desmatamento ilegal.

Outro exemplo é o risco para o sistema energético brasileiro associado ao uso de etanol em veículos leves. Tal risco deriva da dinâmica tecnológica da atual transição energética no mundo. Embora o etanol e seus coprodutos sejam opções para mitigar as emissões de GEE do atual e futuro sistema energético brasileiro, há fortes evidências de que a indústria automobilística global está buscando um novo padrão baseado na energia elétrica. Claramente, esse padrão pode ser baseado no uso de etanol pelas pilhas (chamada às vezes células) a combustível. No entanto, uma grande aposta foi feita em veículos movidos a bateria, o que significa uma ameaça a longo prazo para o uso de etanol em veículos leves no Brasil.

Além disso, não devemos esquecer os riscos econômicos. A confiabilidade reduzida para a prestação de um serviço de energia expõe seu fornecedor a riscos. Um caso emblemático foi a declaração de falência da empresa PG&E (Pacific Gas and Electric Company) em 2019 por responsabilidade nos incêndios na Califórnia, entre 2017 e 2018, devida às mudanças climáticas.

Mais um ponto importante da relação entre clima e energia refere-se a quanto tempo ainda temos para alcançarmos o pico de demanda por combustíveis fósseis e quais são os riscos para países cujo equilíbrio fiscal depende de receitas, tributos e rendas advindas da indústria do petróleo. Tal risco também inclui as próprias empresas de petróleo, quando seus ativos se tornam passivos. Nesse caso, uma transição de baixo carbono pode manter recursos no solo, criando stranded assets (“ativos perdidos”), que são combustíveis fósseis não queimados, na visão do mercado. Essa é uma questão relevante para o Brasil, devido aos enormes recursos localizados nas bacias do pré-sal que são vistos como cruciais no curto prazo para o desenvolvimento do país. Lembremos que o mercado de ações capitaliza as expectativas de lucro futuro; e as dívidas, às vezes, são securitizadas por ativos fixos. Na literatura, isso é chamado de risco de transição climática, que também pode incluir o setor financeiro por meio da carteira de empréstimos dos bancos. Há quatro anos, Mark Carney, presidente do Banco da Inglaterra, descreveu o investimento em ativos de petróleo como um risco sistemático para a estabilidade financeira da economia global. Ele definiu isso como um momento de “Climate Minsky”, lembrando o notório trabalho de Hyman Minsky nos anos 1970 sobre instabilidade financeira devido a bolhas criadas por investidores imprudentes.

Em resumo, a mudança climática implica grandes riscos para o sistema energético brasileiro. Mas, além desses riscos, as oportunidades também são enormes. O Brasil empreendeu desenvolvimentos tecnológicos emblemáticos para diferentes indústrias de energia e por diferentes razões no século 20. Ainda possui uma base instalada em ciência e engenharia e apresenta vantagens climáticas. O Brasil tem também o sistema energético com a maior participação de fontes renováveis modernas de energia do mundo.

Prever o futuro de uma transição energética envolve ser modesto. Porém, estudos que fizemos e ainda estamos fazendo no CENERGIA/COPPE, em parceria com os principais centros de pesquisa do mundo em modelagem de avaliação integrada, para apoiar os relatórios do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU), concordam com o papel do Brasil como um importante fornecedor de combustíveis limpos para outros países. Em nossos resultados científicos, o Brasil também pode se tornar líder da química verde na transformação da indústria e da agricultura. Mas essa liderança dependerá de investimentos em educação, pesquisa e tecnologia, de um espírito pioneiro, de ambição e percepção das nossas vantagens, bem como de trabalho duro em um mundo em mudança.

Por último, mas não menos importante, existem diferentes narrativas sobre como se recuperar dos impactos da pandemia da covid-19 no setor energético global. Mais verde ou mais marrom, há quem aposte na teoria do cisne negro. A situação atual é de redução global de 50% no uso de combustível de aviação, sem perspectivas de recuperação, pois ninguém aposta num retorno rápido das viagens de negócios — ou mesmo de um retorno ao que eram (diante do hábito que se cria com as reuniões virtuais, mais baratas e ágeis). Também em 2020, vimos em abril a redução acima de 30% no uso da gasolina — mas esse uso pode se recuperar rapidamente, devido aos baixos preços do combustível e à percepção da maior segurança (frente à pandemia) dos carros, substituindo os transportes públicos. Mas isso não é necessariamente bom para o etanol no Brasil, devido aos baixos preços da gasolina. Além disso, o uso de gás natural em edifícios residenciais e comerciais diminuiu quase 20%, e a demanda geral de eletricidade diminuiu pouco menos de 10%.

Por outro lado, as vendas globais de veículos elétricos deverão diminuir em 2020, devido ao menor número de vendas de carros combinado com os baixos preços da gasolina. No final, a pandemia pode causar um impacto na energia limpa, dependendo de nossas ambições e paciência para não sermos míopes.

Citando o economista Joseph Stiglitz: “Os países ricos em recursos naturais são famosos por atividades de rent-seeking 1 ou procura de renda. É muito mais fácil enriquecer nesses países obtendo acesso a recursos em condições favoráveis do que produzindo riqueza" 2 .

Recentemente, foi publicado artigo de Paul Raskin e Rob Swart com um título bastante sugestivo: “Futuros excluídos”. Segundo eles, “o mundo hoje evolui como uma mistura complexa de tendências de mundos convencionais, barbarização e grandes transições”. A intervenção em pontos críticos de caos e conflito é essencial, concentrando-se em ”reformas institucionais, promovendo o controle de calamidades e estimulando movimentos transformadores”.

Das crises pandêmicas, econômicas e financeiras anteriores e da crise climática que está batendo à porta do mundo e à nossa porta, vamos nos concentrar na produtividade e na inovação verde. Precisamos de um plano para nos recuperarmos a curto prazo e também para estarmos vivos a longo prazo.

Roberto Schaeffer é engenheiro eletricista pela UFPR (Universidade Federal do Paraná) e doutor em políticas energéticas pela Universidade da Pensilvânia, nos EUA. É professor titular do Programa de Planejamento Energético da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPE/COPPE/UFRJ). Atua nos relatórios de avaliação do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) desde 1998, sendo um dos cientistas contemplados com o Prêmio Nobel da Paz de 2007 pelas contribuições do grupo. Desde 1998, é editor-associado da revista científica Energy — The International Journal.

Alexandre Szklo é engenheiro químico pela Faculdade de Química da UFRJ e doutor em ciências pela mesma instituição. É professor associado do Programa de Planejamento Energético da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPE/COPPE/UFRJ). É coordenador do desenvolvimento de modelos nacionais e globais de avaliação integrada e de otimização para refinarias de petróleo e suas aplicações em vários projetos internacionais e nacionais financiados pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento, Banco Mundial, Greenpeace e Embaixada Britânica Brasileira. Coordena a cooperação entre o Cenergia e o Instituto Francês do Petróleo.

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