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Pan-africanismo em 125 anos: uma perspectiva de gênero

Blenda Santos

Referência de luta contra a opressão e em favor da emancipação dos povos negros do mundo, o movimento dialoga com o ativismo de mulheres negras. Conheça mais sobre sua história nesta linha do tempo

De divergências políticas entre pan-africanistas a dissolução de instituições, o pan-africanismo conseguiu se perpetuar ao longo do tempo, ganhando especial atenção de ativistas, intelectuais e políticos no século 21. Exemplo disso é a adoção da Agenda 2063 pela União Africana, que busca promover os valores e ideais pan-africanos para impulsionar o desenvolvimento e a integração do continente.

Contudo, prestes a completar 125 anos da criação da Associação Africana, responsável por estabelecer e internacionalizar o pan-africanismo – e, consequentemente, possibilitar debates e políticas que levaram à criação de instituições como a União Africana –, ainda há muitas lacunas e curiosidades pouco exploradas sobre este movimento. Em minha dissertação de mestrado, destaco como uma dessas lacunas diz respeito a participação das mulheres e como a perspectiva de gênero se insere no pan-africanismo. Assim, espero que essa linha do tempo possa apresentar algumas curiosidades, mas também provocar novos interesses e pesquisas sobre o tema.

1897

Londres (Inglaterra)

Criada a Associação Africana, com o objetivo de incidir politicamente em favor dos interesses de africanos e afrodescendentes na Inglaterra e em colônias britânicas. Composta majoritariamente por advogados e estudantes de direito negros da Europa e Américas, a sua fundação foi motivada pelo ideal de união entre os povos negros da África e diáspora. Tal ideal foi reavivado especialmente após a vitória da Abissínia (atual Etiópia) sob a Itália, no conflito conhecido como Primeira Guerra Ítalo-Etíope (1895-1896). Entre os fundadores havia uma mulher, a ativista sul-africana Anne Victoria Kinloch, considerada uma das principais responsáveis pela criação da associação.

1898

Londres (Inglaterra)

A associação muda o nome para Associação Pan-Africana e tem o seu escopo expandido, com a finalidade de se tornar um corpo representativo de africanos e afrodescendentes em todo o mundo. O conceito de pan-africanismo se relaciona, nesse contexto, ao senso de identificação ancestral com o continente africano. Neste ano, os associados iniciam também as discussões sobre a realização de um evento internacional para debater ações e estratégias contra o racismo.

1900

Londres (Inglaterra)

Sob organização da Associação Pan-Africana, é realizada a primeira conferência pan-africana. Na ocasião, foi redigido e enviado um relatório à rainha Victoria da Inglaterra demandando a reforma do sistema colonial, a proteção aos direitos de afrodescendentes, e o respeito à integridade e à independência da Abissínia, da Libéria e do Haiti. Entre os conferencistas estavam W.E.B Du Bois, Catherine Impey, Jane Cobden Unwin e Anna J. Cooper. Esta última, a única mulher negra a integrar o comitê executivo do evento. Os conferencistas também reconheceram os direitos das mulheres, mas políticas de equidade e reparação não avançaram naquele momento.

1901

Londres (Inglaterra)

A Associação Pan-Africana é dissolvida. Alguns pesquisadores acreditam que a razão tenha sido as dificuldades financeiras, enquanto outros defendem que as divergências políticas entre os associados foram a real motivação. A dissolução levou alguns associados a integrarem outras organizações antirracistas, a exemplo de W.E.B. Du Bois, que, junto aos ativistas Ida B. Wells, Mary White Ovington e Moorfield Storey, fundou a NAACP (National Association for the Advancement of Colored People) nos EUA, em 1909. A NAACP se tornou uma das maiores organizações pelos direitos civis no país.

1914

Kingston (Jamaica)

Fundada a Unia (Universal Negro Improvement Association) por Marcus Garvey e Amy Ashwood Garvey. Com mais de 1 milhão de membros em 40 países e responsável pela distribuição do jornal semanal Negro World – disponível em inglês, francês e espanhol –, a Unia foi uma das organizações pan-africanistas mais bem sucedidas e internacionalistas de seu tempo. Foi considerada ainda vanguardista em razão da criação do seu departamento de mulheres, o que as possibilitou desempenhar papéis de liderança na organização.

1919

Paris (França)

Realizado o primeiro congresso pan-africano após a dissolução da Associação Pan-Africana. O evento foi co-presidido por W.E.B Du Bois e Ida Gibbs Hunt, e tinha o objetivo de influenciar as discussões da Conferência da Paz em Versalhes (França). A conferência marcava o fim da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e a criação da Liga das Nações (1919-1946). Esta foi a oportunidade para demandar proteção internacional contra violências físicas e econômicas, e o direito à educação e à participação política de africanos nas colônias. Uma pan-africanista também se destacou: Addie Hunton compôs a mesa de negociação para a independência das colônias alemãs e proferiu um discurso sobre a importância das mulheres para o pan-africanismo.

1927

Nova Iorque (EUA)

Após a realização de mais dois congressos, em 1921 (em Londres, Paris e Bruxelas) e em 1924 (em Londres e Lisboa), o quarto congresso pan-africano ocorreu pela primeira vez fora do continente europeu. Sua realização só foi possível pela coordenação e financiamento de mulheres negras, a exemplo de Addie Hunton, Ida Gibbs Hunt e Jessie Fauset, e das organizações ICWDR (The International Council of Women of the Darker Races), NACW (National Association of Colored Women) e WICPFR (Women’s International Circle for Peace and Foreign Relations).

1945

Manchester (Inglaterra)

A cidade sedia o quinto congresso pan-africano, que se propôs a resgatar o slogan “África para africanos” e a fortalecer a luta contra o colonialismo e o imperialismo. É também nessa ocasião em que ativistas como Amy Ashwood Garvey e Alma La Badie pressionam os congressistas a inserirem as demandas das mulheres nas resoluções pan-africanistas. Cinco cláusulas foram incluídas, entre elas o salário igual para trabalho igual e a remoção de todos os obstáculos que afetam a contratação das mulheres.

1962

Dar Es Salaam (Tanzânia)

Criada a Pawo (Pan-African Women’s Organization). Considerada a primeira organização internacional de mulheres na África, a Pawo surge com o objetivo de avançar a agenda das mulheres nas decisões políticas, econômicas, sociais e culturais, e assegurar a sua participação igualitária na libertação e desenvolvimento do continente africano.

1963

Adis Abeba (Etiópia)

Criado o primeiro organismo continental da África, a OUA (Organização da Unidade Africana). Orientada pela filosofia pan-africanista de um continente unido, livre e autodeterminado, a OUA atuou especialmente na coordenação de estratégias pela libertação dos estados africanos e contra o apartheid.

1994

Kampala (Uganda)

Realizado o sétimo congresso pan-africano e o segundo no continente africano. Entre as suas resoluções, destaca-se a de número oito (“sobre mulheres no pan-africanismo”) que ressalta a importância das mulheres para o movimento e adota ações para garantir a sua participação e proteção plena, a exemplo da medida quatro, que destina ao menos 50% dos recursos financeiros e das posições como membros às mulheres.

2002

Durban (África do Sul)

Fundada a UA (União Africana), com o objetivo de suceder a OUA e expandir a sua atuação em favor da cooperação e integração dos países africanos pelo crescimento e desenvolvimento econômico do continente. Um dos seus objetivos constitutivos é assegurar a participação efetiva das mulheres na tomada de decisões, principalmente nas áreas política, econômica e sociocultural.

2015

Adis Abeba (Etiópia)

A UA lança a Agenda 2063: A África Que Queremos , projeto pan-africanista que busca a concretização de uma “África integrada, próspera e pacífica, impulsionada pelos seus próprios cidadãos, representando uma força dinâmica na arena internacional” em até 50 anos. Entre as suas sete aspirações para 2063 está o desenvolvimento do continente pelo povo africano e, em especial, pelas mulheres. Impulsionar o potencial das mulheres também é uma preocupação para atingir outros objetivos da agenda, a exemplo do desenvolvimento sustentável e do fortalecimento da identidade pan-africana.

2020

Adis Abeba (Etiópia)

Divulgado, em fevereiro, o primeiro relatório continental sobre a implementação da Agenda 2063. De acordo com o documento, o continente africano realizou avanços significativos pelo empoderamento das mulheres: a meta para que as mulheres ocupem metade das posições políticas foi atingida em 71% e a violência física e sexual contra mulheres e meninas foi reduzida em 67%.

BIBLIOGRAFIA

Adi, Hakim. Pan-Africanism: A History. London: Bloomsbury, 2018.

Ndlovu-Gatsheni, Sabelo J. Pan-Africanism and the international system. In: Murithi, Tim. Handbook of Africa’s International Relations. Oxford: Routledge, 2014.

Sherwood, Marika. Pan-African Conferences, 1900-1953: What Did ‘Pan-Africanism’ Mean? The Journal of Pan African Studies, vol. 4, no. 10, January 2012.

Thiam, Thierno; Rochon, Gilbert. Sustainability, Emerging Technologies, and Pan-Africanism. Cham: Palgrave Macmillan, 2020.

Unesco. African Women, Pan-Africanism and African Renaissance. Paris: Unesco, 2015.

Blenda Santos é mestre em relações internacionais pela Universidade Federal da Bahia, bacharel em direito pela Universidade Católica do Salvador e pesquisadora no InternetLab. Também integra o grupo de pesquisa Interpretações do Brasil e marcadores de discriminação em perspectiva global UFBA/CNPq. Recebeu, em 2021, o Prêmio Lélia Gonzalez de Manuscritos Científicos sobre Raça e Política na categoria “mestranda”.

Este texto faz parte da série de materiais publicados ao longo de 2021, no Nexo Políticas Públicas, pelos vencedores da primeira edição do Prêmio Lélia Gonzalez de Manuscritos Científicos sobre Raça e Política.

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