Variantes da covid-19

FOTO: Molly Darlington/REUTERS - 02.JUN.2021homem vestindo jaleco, luvas, máscara e óculos de proteção segura equipamentos de laboratório contra a luz
O que é uma variante? Como são descobertas? Quais são suas diferenças em relação ao vírus original? Veja neste glossário como são rastreadas as mutações do novo coronavírus e como elas podem explicar a evolução da pandemia

A maioria das mudanças tem pouco ou nenhum impacto nas propriedades do vírus. No entanto, algumas alterações podem afetá-las impactando a facilidade com que o vírus se espalha, a gravidade da doença associada ou o desempenho de vacinas, medicamentos terapêuticos, ferramentas de diagnóstico ou outras medidas de saúde pública e sociais. Conheça quais são essas variantes e porque algumas inspiram tanto cuidado.

  • Variantes

    Os vírus sofrem mutações ao longo do tempo para se adaptar em seu ambiente e melhorar sua sobrevivência. Ao longo da pandemia, o Sars-Cov-2, o novo coronavírus que causa a covid-19, sofreu mutações suficientes para mudar tanto sua capacidade de se espalhar pela população quanto sua capacidade de infectar pessoas. Essas novas cepas são chamadas de variantes.

    Uma variante pode ser mais ou menos perigosa do que outras cepas, dependendo das mutações em seu código genético. Mutações podem afetar atributos como o quão contagiosa é uma variante, como ela interage com o sistema imunológico ou a gravidade dos sintomas que desencadeia na população afetada.

  • Variante Alfa - B.1.1.7

    A variante Alfa, anteriormente conhecida como variante B.1.1.7, apareceu pela primeira vez no Reino Unido em setembro de 2020. Rapidamente dominou os casos no Reino Unido e em toda a Europa, alarmando autoridades ao alimentar novos surtos de infecções. Em abril de 2021, a Alfa também havia se tornado a cepa mais comum nos EUA. Estudos descobriram que esta variante é muito mais contagiosa do que o vírus original — possivelmente aumentando a transmissão em cerca de 50%. De acordo com alguns cientistas, é provável que também esteja ligada a um maior risco de morte.

    Há algumas razões pelas quais a variante alfa pode ser mais perigosa. Pesquisas sugerem que as mutações em sua proteína podem ajudá-la a se conectar mais às células humanas, ou ficar no corpo por mais tempo — dando-lhe mais tempo para transmitir para outras pessoas. A boa notícia, porém, é que as vacinas contra a covid-19 disponíveis se mostraram altamente eficazes em relação à essa variante.

  • Variante Beta - B.1.351

    Esta variante rapidamente tomou conta da África do Sul, sendo responsável por quase todos os novos casos no país. De acordo com dados da iniciativa GISAID, a Beta corresponde a apenas uma pequena porcentagem de casos em todo o mundo detectados, o que fez com que ela venha sendo vista em segundo plano.

    Estima-se que a variante Beta é cerca de 50% mais contagiosa do que a forma original do vírus e inclua uma mudança particular que os cientistas estão de olho: a E484K, apelidada de mutação "Eek". Essa mutação afeta a proteína spike, e parece ajudar o vírus a contornar as defesas imunológicas do corpo — o que poderia ajudar a variante a escapar da proteção das vacinas ou reinfectar as pessoas que contraíram a covid-19 anteriormente.

    Um estudo descobriu que a vacina da AstraZeneca não protegia bem as pessoas contra casos leves ou moderados causados pela variante Beta. Já a Pfizer e a Moderna informaram que suas vacinas à base de mRNA ainda protegem contra a variante, mesmo que ligeiramente menos eficazes.

  • Variante Delta - B.1.617.2

    É a mais recente — e atualmente uma das mais preocupantes — variantes da covid-19, tendo sido identificada pela primeira vez na Índia no final do ano passado. A variante ajudou a adicionar combustível aos devastadores surtos do novo coronavírus na Índia, passando a dominar rapidamente as infecções em todo o mundo: países do Reino Unido à Rússia e Israel ao Quênia estão vendo que a maioria de seus casos vêm da variante delta, de acordo com dados da GISAID.

    Os cientistas acreditam que a Delta é a variante mais transmissível até o momento — potencialmente mais do que o dobro do vírus original — e que tem alguma capacidade de contornar as defesas imunológicas do corpo. Por vezes tem sido chamada de "mutante duplo" - embora inclua mais do que apenas duas mutações - porque tem um par de diferenças-chave que podem torná-la mais perigosa.

    Com a Delta , as infecções começaram a aumentar novamente em todo o mundo. A Organização Mundial da Saúde disse que as pessoas vacinadas devem continuar usando máscaras em meio à ascensão da variante. O CDC (Centro de Controle de Doenças dos EUA) concordou que as pessoas vacinadas devem usar máscaras dentro de casa em regiões com propagação "substancial" ou "alta" da covid-19.

    Estudos concluíram que as vacinas Pfizer e Moderna ainda fornecem um forte nível de proteção contra a variante Delta, embora ligeiramente menor do que contra o vírus original. Ter ambas as doses é fundamental, porém, a taxa de eficácia contra a Delta foi de apenas cerca de 33% após uma injeção da Pfizer, descobriram os pesquisadores.

  • Variante Gama - P1

    A variante Gama, ou P1, foi relatada pela primeira vez em dezembro de 2020, em viajantes japoneses que haviam retornado recentemente do Brasil. Foi ela a responsável por alavancar o recorde de aumento de casos no Brasil e se espalhou sem controle pela América do Sul. A cidade de Manaus — que foi devastada por um primeiro surto de coronavírus na primavera de 2020 — foi um caso à parte, já que muitos moradores foram reinfectados pela nova variante após se recuperarem da covid-19.

    Segundo dados da GISAID, a nova cepa ainda representa cerca de 90% dos casos no Brasil, assim como no Chile — que enfrenta surtos mesmo depois de vacinar rapidamente a maioria de seus habitantes. Esta variante compartilha muitas semelhanças com a Beta — incluindo a principal mutação "Eek". Um estudo sugeriu que a mutação é de 1,7 a 2,4 vezes mais transmissível que a forma original do vírus. Mesmo assim, pesquisas sugerem que as vacinas ainda oferecem forte proteção contra a variante Gama, embora possam ser ligeiramente menos eficazes.

  • Vigilância genômica

    Acompanhar as mudanças na sequência genética do novo coronavírus é fundamental para rastrear suas mutações, entender a evolução da epidemia e discutir as possibilidades de contenção da infecção. Este monitoramento recebe o nome de vigilância genômica.

    Desde fevereiro de 2021, o Ministério da Saúde do Brasil está implementando um plano nacional de fortalecimento e ampliação da vigilância genômica para a Sars-Cov-2. Entre os objetivos propostos estão: identificar estratégias de vigilância genômica; orientar quanto aos critérios para sequenciamento de amostras; padronizar o envio dos resultados das pesquisas genômicas; reforçar a comunicação imediata e oportuna; e analisar os resultados das pesquisas genômicas em parceria com a vigilância epidemiológica.

    Portanto, é possível acompanhar as linhagens e mutações genéticas do novo coronavírus e contribuir para um melhor preparo do país em termos de diagnósticos mais precisos e vacinas eficazes. Nesse sentido, monitorar novas variantes com maior potencial de transmissão do novo coronavírus, papel da vigilância genômica, é fundamental para o combate à pandemia.

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