Impactos em ecossistemas florestais e aquáticos

Raquel Carvalho e Nelson Silva Pinto
Marizilda Cruppe/Rede Amazônia SustentávelFloresta Nacional do Tapajós, Belterra, Pará Floresta Nacional do Tapajós, Belterra, Pará
Qual a diferença entre degradação e distúrbio florestal? O que é uma regeneração impedida? Como ocorre a conectividade hidrológica? Entenda esses e outros conceitos sobre o meio ambiente
  • Floresta

    Em um sentido amplo, costuma-se denominar de floresta qualquer vegetação com predominância de indivíduos lenhosos, com copas se encontrando para a formação de um dossel. Corriqueiramente usa-se como sinônimo de mata e bosque, por exemplo. Entretanto, as definições de floresta são complexas e diferentes objetivos de uso e manejo estão associados a diferentes conceitos.

    No século 20 as definições de manejo florestal e seus objetivos passaram a incorporar objetivos não relacionados apenas à produção de madeira, considerando também o valor de conservação da biodiversidade e os serviços ecossistêmicos. Por exemplo, a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) leva em consideração o uso e ocupação do solo e define floresta como uma “área medindo mais de 0,5 hectares com árvores maiores que 5 metros de altura e cobertura de copa superior a 10%, ou árvores capazes de alcançar estes parâmetros in situ. Isso não inclui a terra que está predominantemente sob uso agrícola ou urbano." Já para a Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, que trata de florestas considerando mudanças climáticas: "Floresta é uma área de no mínimo 0,05-1,0 hectares com cobertura de copa de mais de 10-30%, com árvores com o potencial de atingir a altura mínima de 2-5 metros na maturidade in situ." No Brasil, o serviço florestal brasileiro considera como floresta as tipologias de vegetação lenhosa que se aproximam da definição da FAO.

  • Floresta primária

    Floresta primária é também referida como floresta clímax ou popularmente como “mata virgem”. Floresta primária pode ser entendida como áreas florestais com espécies vegetais nativas nas quais não é possível identificar claramente indícios de atividades de origem humana e também onde os processos ecológicos ali presentes não foram perturbados.

    As florestas primárias apresentam características intrínsecas tais como composição natural de espécies vegetais, presença de madeira morta, estrutura de idade natural e processos naturais de regeneração, além disso a área é suficiente para manter os processos ecológicos naturais que ali ocorrem. Além disso, não é possível identificar atividades ou intervenções de origem antrópica que sejam significativas ou estas ocorreram há tempo suficiente para que a composição e os processos naturais fossem restabelecidos.

  • Floresta secundária

    Podemos classificar florestas secundárias como aquelas nas quais ocorre ou ocorreu um processo natural de regeneração da vegetação nativa em áreas que sofreram impacto do corte raso da floresta primária ou após perturbação natural significativa. Nessas florestas é possível perceber uma diferença significativa na estrutura da floresta e também na composição de espécies de dossel em relação a áreas de florestas primárias próximas ou semelhantes.

    Assim, como características chave, é possível indicar que a floresta original foi perturbada com origem humana ou não, ocorrendo de forma progressiva ou não. É, portanto, uma floresta em regeneração que pode apresentar estrutura diferente ou composição de espécies diferentes quando comparado ao seu estado prístino. As florestas secundárias representam uma crescente parcela da cobertura florestal em regiões tropicais e estão diretamente relacionadas a muitos serviços ambientais e produtos, por exemplo madeira, alimentos e medicamentos.

  • Degradação florestal

    Podemos definir degradação como uma redução que ocorre de forma persistente de algum atributo ou variável quando comparamos com locais que são prístinos (ou não degradados). Portanto, a depender do fator de degradação e dos interesses associados, a percepção sobre a degradação florestal pode mudar. Para além disso, a degradação florestal pode ser entendida como um processo determinado culturalmente e relacionada diretamente à tomada de decisão humana. Dessa forma, podemos conceituar a degradação florestal como a ocorrência de mudanças persistentes que afetam negativamente a estrutura, a composição e/ou as funções da floresta.

  • Distúrbios florestais

    Os distúrbios florestais podem ser compreendidos como os possíveis danos causados por diferentes fatores, sejam de origem biótica ou abiótica. Estes danos devem afetar negativamente o vigor e a produtividade da floresta. Os distúrbios podem ser de origem natural (como por exemplo os causados por seca, tempestades, diferentes organismos-praga e o fogo), bem como causados por origem antrópica (por meio de conversão para colheitas excessivas e agricultura, pastagem, ocorrência de caça e até mesmo pela realização de construções).

    No caso de distúrbios derivados de atividades humanas, ainda podemos ter uma distinção relacionada à intencionalidade. Assim, podem ser intencionais, como os causados por atividades de conversão para pastagem ou ainda podem ser não intencionais, como o que ocorre com a introdução de espécies exóticas que podem levar a redução ou extinção de espécies nativas localmente.

  • Desmatamentos

    Nos últimos 50 anos, a região Amazônica tem passado por mudanças drásticas na cobertura da terra e uso, direcionado principalmente, pela substituição da vegetação nativa pela pecuária e agricultura de subsistência/familiar e ultimamente pela agricultura de larga escala, como da monocultura de soja. Para se ter ideia, até o ano de 1970 o desmatamento na região era de 98 mil km2, enquanto entre 1970 e 2009 a área desmatada totalizou 730 mil km2, abrangendo 18% das áreas originalmente cobertas por floresta primária (Fearnside et al. 2009). A maior parte do desmatamento está concentrado no sul e leste da Amazônia brasileira, e por isso essa região é chamada de “arco do desmatamento”. Entretanto, áreas centrais e ocidentais da Amazônia, também estarão ameaçadas em breve pelo crescimento econômico da região, representando um desafio para o planejamento da estrutura social e ambiental da região.

  • Regeneração natural

    A regeneração natural ou sucessão secundária é o processo pelo qual plantas juvenis originárias da floresta nativa, se estabelecem e substituem árvores que morreram naturalmente ou foram cortadas ao longo do tempo. O uso de regeneração natural em sistemas de manejo florestal é importante, pois a chance de as plantas terem uma taxa de crescimento e de sobrevivência é alta, já que as plantas presentes pertencem a espécies próximas à área. Além disso, a diversidade de espécies de árvores na regeneração natural é bem maior do que a plantada em escala comercial, e por isso reduz os impactos negativos da exploração madeireira na biodiversidade em geral.

  • Regeneração impedida

    O processo de regeneração natural pode ser impedido e prejudicado por diferentes fatores, como a degradação e alterações no solo. Em relação a degradação, o aumento da frequência de fogos nas pastagens retarda a regeneração natural e induz a dominância de espécies resistentes ao fogo, levando a uma diminuição da diversidade a longo prazo. A regeneração natural pode ser também impedida pela extração de ouro no solo. Por exemplo, 19 anos após o abandono de uma mina, uma floresta no Peru, recuperou características estruturais como densidade de caule e biomassa, enquanto a composição de espécies vegetais era diferente e menor do que a de uma floresta intacta (Chambi-Legoas et al. 2021). Isso é devido aos filtros ecológicos limitarem a colonização, crescimento e sobrevivência de algumas espécies em condições degradadas. Além disso, as comunidades sucessionais iniciais podem inibir a regeneração natural já que as espécies presentes e seus traços funcionais exercem uma forte influência no sub-bosque de florestas secundárias.

  • Resiliência

    O termo resiliência foi criado em 1973 pelo ecólogo teórico C. S. Holling, com o objetivo de ajudar a compreender a dinâmica não linear observada em um ecossistema. Desde então, vários conceitos têm surgido na literatura ecológica. O conceito mais utilizado para resiliência, pode ser definido como a capacidade de um sistema absorver perturbações e se reorganizar enquanto passa por mudanças, de modo a manter essencialmente a função, estrutura e identidade. Em sistemas ecológicos a resiliência é baseada, principalmente, na diversidade de grupos funcionais que fornecem fontes de recuperação.

  • Indicadores de degradação

    Grupos de espécies que são sensíveis às mudanças ambientais e, por desempenharem importantes funções ecológicas, são excelentes indicadores de degradação ecológica. Devido a restrições financeiras e logísticas é impossível medir toda a biodiversidade de uma floresta que pode ser afetada por mudanças estruturais do ecossistema. Por isso os indicadores precisam refletir algo que não pode ser medido diretamente, e ao mesmo tempo fornecer inferências confiáveis sobre as implicações ecológicas e funcionais da degradação, assim como da integridade do ambiente. McGeoch em 2007 demonstrou que a maioria dos estudos utilizaram como indicadores plantas, liquens ou insetos (principalmente macroinvertebrados, coleópteros e himenópteros).

  • Conectividade hidrológica

    A conectividade hidrológica é um componente determinante da estrutura e funcionamento dos ecossistemas aquáticos. Rios, igarapés (como os riachos são conhecidos localmente), lagos e planícies de inundação da Amazônia estão conectados entre si e à paisagem ao seu redor por diferentes vias: longitudinalmente por meio do fluxo montante-jusante desde as cabeceiras até a foz; lateralmente pelas interações com as florestas, especialmente nos períodos de cheia; verticalmente pelas trocas entre a atmosfera, o leito e o lençol freático; temporalmente por meio das variações históricas das redes fluviais. Essas diferentes vias de conectividade entre os ecossistemas aquáticos e terrestres da bacia são fundamentais à biodiversidade aquática, ao fluxo de sedimentos e matéria orgânica e aos pulsos de inundação. Por outro lado, a conectividade hidrológica também torna os cursos d’água altamente vulneráveis às diversas atividades humanas realizadas tanto localmente quanto em áreas mais distantes na bacia.

BIBLIOGRAFIA

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Chambi-Legoas, R., Rodriguez, D. R. O., de Figueiredo, F. D. M., Valdeiglesias, J. P., Pollito, P. A. Z., Marcelo-Peña, J. L., & Rother, D. C. (2021). Natural regeneration after gold mining in the Peruvian Amazon: Implications for restoration of tropical forests. Frontiers in Forests and Global Change, 4, 65. DOI: https://doi.org/10.3389/ffgc.2021.594627

Chazdon, R. L., Brancalion, P. H. S., Laestadius, L., Bennett-Curry, A., Buckingham, K., Kumar, C., Moll-Rocek, J., Vieira, I. C. G., & Wilson, S. J. (2016). When is a forest a forest? Forest concepts and definitions in the era of forest and landscape restoration. Ambio, 45(5), 538–550. DOI: https://doi.org/10.1007/s13280-016-0772-y

Fearnside, P. M., Righi, C. A., Graça, P. M., Keizer, C. C. C., Nogueira, E. M., Barbosa, R. I.(2009). Biomass and greenhouse-gas emissions from land-use change in Brazil’s Amazonian ‘arc of deforestation’: the states of Mato Grosso and Rondônia. Forest Ecology and Management, 258(9), 1968-1978. DOI: https:doi.org/10.1016/j.foreco.2009.07.042.

Gardner, T. (2010). Monitoring forest biodiversity: improving conservation through ecologically-responsible management. Routledge.

Levy, M. C., Lopes, A. V., Cohn, A., Larsen, L. G., & Thompson, S. E. (2018). Land use change increases streamflow across the arc of deforestation in Brazil. Geophysical Research Letters, 45(8), 3520-3530. DOI: https://doi.org/10.1002/2017GL076526

McGeoch, M.A. (2007). Insects and bioindication: theory and progress . In Stewart, A.J.A., New, T.R. and Lewis, O.T., editors, Insect conservation biology, Wallingford: Commonwealth Agricultural Bureau (CABI International), 144-74.

Raquel Carvalho é bióloga pela UFOP (Universidade Federal de Ouro Preto) e doutora em ecologia e conservação de recursos naturais e ciências pela UFU (Universidade Federal de Uberlândia). É pesquisadora de pós-doutorado no projeto Synergize/Sinbiose pela Embrapa Amazônia Oriental. Escreve a convite da BPBES (Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos).

Nelson Silva Pinto é biólogo pela UFG (Universidade Federal de Goiás) e doutor em ecologia pela UFBA (Universidade Federal da Bahia). É pesquisador de pós-doutorado no projeto Synergize/Sinbiose pela Embrapa Amazônia Oriental. Escreve a convite da BPBES (Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos).

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