Conservação e uso da geodiversidade e do geopatrimônio

Andrea Duarte Cañizares, Carlos Eduardo Manjon Mazoca, Christine Bourotte, Denise de la Corte Bacci, Eliana Mazzucato, Laura Pereira Balaguer, Maria da Glória Motta Garcia e Vânia Maria Nunes dos Santos
termos e definição do glossário em fonte preta sobre fundo amarelo
Entenda os diferentes termos associados à conservação da parte abiótica da natureza e como a participação de comunidades locais nos ajuda a interpretar fenômenos e encontrar soluções
  • Geodiversidade

    Termo abrangente, surgido na década de 1990 (Sharples, 1993), para definir o conjunto de elementos e processos abióticos (não-vivos) que constituem o meio físico de um determinado lugar.

    O conceito pode ser compreendido como elementos e processos relativos aos tipos de rochas, solos, depósitos inconsolidados, formas de relevo e recursos hídricos, que podem estar atrelados a valores como: intrínseco, voltado ao reconhecimento da sua existência; cultural, vinculado à relação das diferentes manifestações culturais da sociedade com a geodiversidade; estético, valor subjetivo associado à atribuição de beleza cênica a um determinado local; econômico, valor monetário atribuído aos elementos da geodiversidade que fornecem recursos minerais e energéticos para a sociedade; funcional, associado à geodiversidade como substrato para a biodiversidade, distribuição e manutenção de diversos ecossistemas; científico, referente às contribuições da geodiversidade para a compreensão da história da Terra e dinâmica atual e educativo, relativo à utilização da geodiversidade em práticas de ensino das Ciências da Terra.

    A geodiversidade é um componente importante para a gestão territorial e conservação da natureza e pode ser avaliada de diversas formas, tais como: qualitativa/descritiva; quantitativa, baseada em aplicação de diferentes tipos de análises que envolvem algoritmos e SIG (Sistema de Informação Geográfica) e mista, que correlaciona diferentes tipos de avaliação para uma análise integrada.

  • Patrimônio geológico

    Também chamado pela forma curta geopatrimônio (do inglês geoheritage), é um termo utilizado para denominar a parcela da geodiversidade que tem valor geocientífico por registrar eventos e processos que fazem parte da história geológica de uma determinada região.

    Dependendo do tipo de elemento da geodiversidade de relevância, o patrimônio geológico pode ser subdividido em tipos específicos, tais como mineralógico, petrológico, paleontológico, tectônico, geomorfológico, sedimentológico, hidrogeológico, etc.

    Diz-se que o patrimônio geológico é in situ quando é constituído por locais naturais, tais como exposições rochosas, formas de relevo e solos, dentre outros. Nestes casos, estes locais são chamados de geossítios. Quando estes materiais de valor são retirados do seu local de origem e levados para museus e centros de pesquisa tem-se o geopatrimônio ex situ ou móvel.

    Além do uso geocientífico, relacionado à sua utilização para pesquisa, o patrimônio geológico pode ter outros tipos de usos. O uso turístico refere-se a locais em geral com beleza cênica significativa, utilizados para fins de visitação. O uso educativo aplica-se aos locais com elementos de importância didática, que podem ser utilizados como complemento prático ao conteúdo programático do ensino formal em diversos níveis ou ao ensino não-formal. Muitos destes locais podem ter, ainda, valor cultural, devido à sua importância para determinadas comunidades ou populações.

  • Geoconservação

    Em seu conceito mais tradicional, a geoconservação pode ser entendida como um conjunto de ações voltadas à conservação do patrimônio abiótico da natureza. O termo tem sido frequentemente referido como um novo ramo das geociências e, neste caso, engloba conceitos, métodos científicos, aplicações técnicas, rotinas de monitoramento e processos de promoção que envolvem interações com diversas áreas do conhecimento.

    Esta interdisciplinaridade é caracterizada pela abordagem de temas variados, tais como geodiversidade, patrimônio geológico e mineiro, monumentos culturais pétreos, popularização da ciência, geoturismo, geoparques e desenvolvimento socioambiental sustentável.

    A implementação da geoconservação é feita em geral por meio de uma série de etapas que compõem um conceito conhecido como “estratégias de geoconservação” e que podem ser integradas como conjuntos sequenciais e/ou simultâneos. A estrutura básica destas estratégias inclui seleção e avaliação de geossítios, análise de aspectos legais de conservação, monitoramento sistemático e ações de promoção. A observação adequada dessas etapas é importante porque pode aumentar as chances de alcançar as melhores práticas em quaisquer ações que envolvam a conservação e uso da geodiversidade e do geopatrimônio.

  • Educação em geociências

    É a área do conhecimento que contempla metodologias de ensino e aprendizagem, práticas pedagógicas, recursos didáticos e estratégias educativas voltadas à compreensão dos processos de formação do planeta Terra dentro de um contexto histórico, contemplando uma série de informações, termos, processos, escalas de tempo e espaço, além de modos de pensar, indagar e elaborar hipóteses para a construção de um modelo mental coerente e significativo que permita compreender e raciocinar sobre a Terra.

    Devido à sua natureza interdisciplinar, sistêmica e integradora, possibilita a compreensão dos materiais terrestres, das formas de energia e das suas interações no espaço e no tempo, definindo-se um conjunto de parâmetros inter-relacionados, que serve como padrão de referência do meio físico e leva a uma perspectiva dinâmica de evolução do planeta em que vivemos.

    A educação geocientífica se associa às práticas de educação ambiental por meio da correlação entre os ambientes físicos e biológicos e as atitudes sociais, políticas e econômicas, promovendo a compreensão de como ocorrem as interações entre geosfera, biosfera, hidrosfera e atmosfera, bem como a maneira pela qual as intervenções humanas promovem ou interferem nestas interações naturais.

  • Geossítio

    É a ocorrência do geopatrimônio e sua delimitação espacial. O geossítio pode ser composto por diferentes elementos geológicos como um afloramento rochoso, um mineral, um perfil de solo, uma feição cárstica, um vale fluvial, um depósito sedimentar ou ainda uma forma de relevo.

    O geossítio se distingue por ter passado por um processo de inventário, ou seja, os geossítios representarão os aspectos mais raros e/ou representativos em relação aos materiais e processos geológicos de um determinado espaço geográfico.

    Para essa seleção, os pesquisadores costumam utilizar como critério mais importante a relevância científica do geossítio. Isso significa que o local selecionado contém um importante testemunho dos estágios da evolução geológica da Terra. Também são utilizados critérios como a relevância turística e educacional, criando assim estratégias para promover a visitação sustentável destes locais e sua utilização como recurso didático para os diferentes níveis de ensino e educação não formal.

    Como este termo foi evoluindo ao longo do tempo, podemos encontrar na literatura conceitos similares, como geotopo, local de interesse geológico e geomonumento. Além destas terminologias, utiliza-se o termo geomorfossítio para se referir a uma tipologia específica do geopatrimônio, aquele que possui relevância geomorfológica e compõe o patrimônio geomorfológico.

  • Serviços ecossistêmicos providos pela geodiversidade

    Serviços ecossistêmicos providos pela geodiversidade é o termo criado a partir de 2011 (Gray, 2011) para se referir aos bens e funções da geodiversidade que beneficiam direta ou indiretamente o ser humano.

    Na literatura esses serviços são comumente referidos como serviços geossistêmicos e podem ser classificados em cinco funções ecossistêmicas: 1) de regulação, referente a processos da dinâmica terrestre, oceânica e atmosférica do planeta Terra; 2) de suporte, relacionada a como a geodiversidade se comporta como substrato para a existência e manutenção da biodiversidade, inserido o homem; 3) de provisão, associada a geodiversidade como provedora de materiais para uso da sociedade, tais como alimentos e bebidas, materiais para construção, produtos ornamentais e recursos energéticos; 4) cultural, associada a como a sociedade se apropria e se relaciona com a geodiversidade em suas manifestações culturais, como em inspirações artísticas, utilização para turismo, desenvolvimento social, entre outros e 5) de conhecimento, que se refere a como a geodiversidade propicia recursos para a compreensão da história e da dinâmica terrestres, para monitoramento ambiental e previsão, ensino de geociências e provisão de empregos.

    Os serviços ecossistêmicos são muitas vezes chamados de serviços ambientais e podem ser úteis na definição de políticas públicas associadas a pagamentos por estes serviços. Neste caso, faz-se a valoração monetária calculando as perdas de bens e serviços caso determinado elemento da geodiversidade, responsável por seu fornecimento, seja parcial ou totalmente perdido.

  • Comunicação e divulgação em geociências

    O termo geocomunicação tem sido recentemente mencionado e utilizado na literatura científica brasileira referente à temática geodiversidade e patrimônio geológico.

    A palavra deriva do termo geocommunicationque, em inglês, se refere à comunicação das geociências para o público geral, a divulgação das geociências. No Brasil, a palavra geocomunicação refere-se também a assuntos relacionados com geopolítica, geolocalização, geotecnologia. Atualmente existe uma tendência de incorporar o termo derivado da língua inglesa e utilizá-lo para se referir à comunicação e à divulgação das geociências, da geodiversidade e do patrimônio geológico. Assim, com base na literatura (Illingworth et al., 2018; Stewart e Lewis, 2017; Cordani, 2000), propomos a seguinte definição: toda comunicação voltada para o público em geral que trate das ciências da Terra – as geociências, de maneira a integrar o ser humano e o meio natural, ou seja, divulgando os aspectos sociais, culturais, históricos, políticos, econômicos e geocientíficos de forma holística e integrada.

  • Aprendizagem social

    A aprendizagem social é a base para a aprendizagem da cidadania ambiental. Seus referenciais se inserem nas práticas socioambientais educativas de caráter colaborativo e contribuem na construção de uma nova cultura de diálogo e participação. Ela baseia-se no diálogo entre diferentes atores e evidencia a necessidade de interação e ação conjunta, resultando no aprimoramento ou na criação de instrumentos e meios para promover uma aprendizagem coletiva e corresponsável.

    O conceito está associado a metodologias participativas e colaborativas que articulem as dimensões social, ambiental, cultural e afetiva, envolvendo processos de informação reflexiva e engajada, sensibilização e construção de espaços políticos-educativos de formação cidadã e colaborativa.

    Isso implica em aprender com o outro e sobre o outro em suas relações e seus problemas e desafios socioambientais; a refletir sobre os conhecimentos que dispomos para resolvê-los e a refletir sobre nós mesmos e sobre nossas relações com os outros; a dialogar com a diversidade de interesses e argumentos existentes e a negociar conflitos, visando à gestão democrática e adequada do ambiente.

    A aprendizagem social promove o (re)pensar de conceitos e a construção de novos conhecimentos e de valores capazes de contribuir para a transformação de práticas e desenvolvimento de novas competências, sendo fundamental em processos de educação para a geoconservação e sustentabilidade.

  • Metodologias participativas

    Ferramentas de aprendizagem social, as metodologias participativas contribuem para o desenvolvimento de atitudes investigativas, críticas e cidadãs, bem como promovem a construção de saberes ambientais locais. Enfatizam a colaboração entre os diferentes atores sociais, estimulam o diálogo, motivam a formação de um pensamento crítico, criativo e sintonizado com a necessidade de construir respostas para os problemas e para atuar no ambiente em uma perspectiva ampla, respeitando as diferenças. Propõem a colaboração e oportunizam o acesso aos canais que multiplicam ideias e práticas, apresentam alternativas e promovem a corresponsabilidade na sociedade. São exemplos de metodologias participativas o mapeamento socioambiental, o world café e o role playing game (Jacobi, 2011).

  • Interpretação

    Para quem trabalha com o patrimônio natural ou histórico, o termo interpretação é usado para descrever uma forma de revelar ao público a importância ou o significado de um assunto. Interpretação é uma técnica de comunicação bastante usada em divulgação científica, e é algo muito diferente de simplesmente apresentar uma informação.

    Na verdade, pode-se dizer que a informação em si não é interpretação. A interpretação deve ser entendida como um processo de comunicação cujo intuito é provocar o visitante e despertar curiosidade e toda atividade interpretativa é apoiada em princípios que norteiam a criação dos trabalhos.

    Com base nestes princípios, uma mídia interpretativa deve inicialmente provocar curiosidade, atenção e interesse do público; em seguida essa mídia deve ser capaz de fazer o público relacionar o conteúdo apresentado às suas próprias experiências pessoais. Desta forma, será possível então revelar com originalidade o significado ou a importância do tema que está sendo tratado. Ao final, o visitante deve ser tomado por uma vontade de buscar mais sobre o assunto, que também pode ser acompanhada por uma sensação de surpresa ou de fascinação.

    Os princípios da interpretação também estão presentes em mídias que acessamos cotidianamente, pois são aplicados em áreas como jornalismo, marketing, design e entretenimento em geral.

BIBLIOGRAFIA

Cordani, U. G. 2000. The Role of the Earth Sciences in a Sustainable World, Episodes 23: 155–162.

Illingworth, S., Stewart, I., Tennant, J., von Elverfeldt, K. 2018. Geoscience Communication Building Bridges, not Walls, Geoscience Communication, 1, 1-7. https://doi.org/10.5194/gc-1-1-2018.

Freeman, T. 1957. Interpreting Our Heritage, The University of North Carolina Press, Chapel Hill.

Gray, M. 2011. Other nature: Geodiversity and geosystem services. Environmental Conservation, 38(3), 271-274. https://doi.org/10.1017/S0376892911000117

Henriques, M.H., dos Reis, R.P., Brilha, J., Mota, T. 2011. Geoconservation as an Emerging Geoscience. Geoheritage 3, 117–128. https://doi.org/10.1007/s12371-011-0039-8

Jacobi, P. R. Aprendizagem Social - Diálogos e Ferramentas Participativas: Aprender Juntos. Para Cuidar da Água. 1ª edição. São Paulo: IEE/Procam. 2011. 44 p.

Santos, V. M. N.; Jacobi, P. R. (Orgs). 2018. Educação, ambiente e aprendizagem social: reflexões e possibilidades à geoconservação e sustentabilidade. Curitiba: CRV.

Santos, V. M. N.; Bacci, D.C. 2017. Proposta para governança ambiental ante os dilemas socioambientais urbanos. Estudos Avançados 31 (89).

Sharples, C. 1993. A Methodology for the Identification of Significant Landforms andGeological Sites for Geoconservation Purposes. Forestry Commission, Tasmania.

Stewart, I.S., Lewis, D. 2017. Communicating Contested Geoscience to the Public: Moving from ‘Matters of Fact’ to ‘Matters of Concern’. Earth-Science Reviews, 174: 122 - 133.

Veverka, J.A. 2011. Interpretive Master Planning: Volume Two – Selected Essays: Philosophy, Theory and Practice. Museumsetc, Edinburgh.

Andrea Duarte Cañizares é mestre em geociências e licencianda em geociências e educação ambiental pelo IGc-USP. Atua no NAP GeoHereditas em pesquisas e ações focadas na percepção e divulgação das geociências e da geodiversidade para o público e em estratégias de geocomunicação.

Carlos Eduardo Manjon Mazoca é geógrafo e mestre em geociências pela Universidade de São Paulo. Atua como especialista em geotecnologias no NAP GeoHereditas e contribui com pesquisas e recursos desenvolvidos pelo núcleo de apoio à pesquisa.

Christine Laure Marie Bourotte é geóloga pela Université d'Aix-Marseille na França, docente do Instituto de Geociências da USP e pesquisadora do GeoHereditas na linha de divulgação e comunicação das geociências.

Denise de La Corte Bacci é geóloga, professora associada do Instituto de Geociências da USP , dos programas de Pós- Graduação em Ensino e História de Ciências da Terra (IG/Unicamp) e em Mineralogia e Petrologia do IGc/USP, linha de pesquisa em patrimônio geológico natural e construído e geoconservação. É pesquisadora do NAP GeoHereditas.

Eliana Mazzucato é geógrafa pela Universidade Federal de Alfenas, doutoranda vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Geociências na Universidade de São Paulo. É pesquisadora do Nap GeoHereditas.

Laura Pereira Balaguer é licenciada em geociências e educação ambiental pelo IGc-USP e mestranda em geoconservação pela mesma universidade. Desenvolve pesquisa no município de Caraguatatuba (SP) e é membro do NAP GeoHereditas.

Maria da Glória Motta Garcia é geóloga e professora associada do Instituto de Geociências da USP. Coordena o NAP GeoHereditas e atua em pesquisas em geoconservação voltadas a políticas públicas sustentáveis e áreas protegidas.

Vânia Maria Nunes dos Santos é socióloga, professora dos programas de Pós-Graduação em Ensino e História de Ciências da Terra (IG/Unicamp) e em Geociências da Universidade Federal do Amazonas (PPGEO/Ufam). É pesquisadora do NAP Geohereditas.

Os autores escrevem a convite do BIOTA/FAPESP (Programa de Pesquisas em Caracterização, Conservação, Restauração e Uso Sustentável da Biodiversidade).

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